quarta-feira, 4 de março de 2009

Rita [Viajo]

As tuas mãos de seda embalam o meu sorriso escaldante. Viajo no tempo e tento estar contigo mais uma vez. Tocas no último sorriso que dei, beijas os meus cabelos ruivos e fazes-me promessas que não podes cumprir. Deito-me para trás e transformo-me em lágrimas feitas de pedaços nossos. Sinto-as ameaçar a nossa presença, sinto-as amaciar o teu cabelo, sinto-as morrer na tua boca. Uma mistura de misturas sinto dentro de mim. Uma mistura de tempos passados e presentes, tempos perdidos e imaginados tolda a minha visão completamente. A alteração da realidade não é suficiente, preciso de mais um pouco para poder precisar mais de ti. Preciso de precisar de ti ao ponto de me esquecer de mim, ao ponto de não querer viver senão na tua presença. Quero o nosso desespero, os sentimentos que me ensinaste a ter, as experiências que me fizeste ter. Não quero os teus avisos, quero apenas reviver a ilusão que tive até ao momento de partida. A realidade é tão forte quanto a impossibilidade de a sentir em pleno. Aqui, deitada, nua, com as minhas mãos a fazerem aquilo que já foi o teu dever, percebo como uma vez tendo experimentado o que me deste a conhecer, uma vez tendo-te experimentado, nada mais quero senão sentir-me como um traste que se acha acima de tudo e de todos, menos da imagem que estupidamente sobrevive na minha mente. A imagem de ti como a pessoa mais imperfeita que conheci. A imagem de ti como o materializar de tudo o que nunca quis, mas que uma vez tendo habilmente me deixaste perder.
Que posso dizer, se desde o início, tão eficaz e cruelmente me mostraste a tua versão da realidade? A versão de uma realidade que para mim nada mais era que um mau sonho distante. Não! Quero viajar no tempo. Que faço a pensar em ti agora, quando apenas quero estar contigo há algum tempo atrás? Tocas nos meus seios e a tua língua aquece a minha pele. Deslizas pelo meu ser com a ponta dos teus dedos, da maneira como só tu fazes, fazendo um arrepio colossal atravessar o meu coração. Sinto frio, muito frio, sendo esta sensação nada mais que o completo adverso do sentimento que a acompanha. O calor da tua pele imprime-se nos meus dentes, que apaixonadamente mordem a tua pele. Lambo o teu sangue licoroso e peço-te para entrares no meu mundo como quiseres.

Não consigo. Viajar no tempo é apenas eficaz quando o faço sem querer. Quando me atropelo em estranhos pensamentos e penso em ti sem dar por mim. Quando me dou conta, quando percebo que, pela milionésima vez nesse mesmo dia, ocupas a minha mente, tudo se torna subitamente vago e confuso. A tua imagem esvanece um pouco, a minha desaparece completamente, e o que vejo é uma mistura de borrões de tinta, uma peça a quem alguém chamaria de arte. Perco-te, mais uma vez.

2 comentários:

aflores disse...

Ora aqui está uma realidade...que nem sempre é aquela que gostariamos de ouvir.

angelis disse...

Nem sempre gostamos de ouvir, de saber o que se passa à nossa volta, o que é real...mas nem assim a realidade deixará de ser diferente.