segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Surpresa

Ouvindo Da Weasel – Mundos Mudos [clicar]

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Quem não adora pessoas que cheiram bem? Eu sei que adoro, e sei bem como ele cheira bem. Foi a primeira coisa que reparei nele. Bebericava o meu chá na esplanada do café, e o Vento traz até mim o seu aroma. Levanto os olhos e vejo-o chegar, rodeado dos seus, supunha, amigos. Com agrado, reparo que o aroma não me tinha enganado, e ele era como que uma personificação do que cheirava, algo belo, forte, viril.

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Foi quando comecei a pensar na melhor maneira de o abordar. Não o fiz de imediato, mas lancei uns olhares que me pareceu terem sido recebidos com agrado. Foi-se embora passado pouco tempo, mas o jogo estava no ar de imediato. Acho que antes de partir ainda se voltou para me olhar mais uma vez, e comentou algo com os amigos.

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“Quem não sabe é como quem não vê” – bem verdade. Digo isto pois depois desse dia em que reparei nele, comecei a encontrá-lo em alguns bares da VIDA nocturna de Évora. Um dia, em que o apanho sozinho, meto conversa com ele. Não digo que já tinha reparado nele, ele não diz que já tinha reparado em mim. Entre conversas casuais, começamos a encontrar-nos mais frequentemente, sem nada de especial se passar. Chega o dia em que os seus amigos decidem ir embora mais cedo, ele fica comigo. Ocasião perfeita. Após alguns shots bebidos e cervejas partilhadas, sugiro um bar que frequentava com frequência. Ele acede. “Primeiro estranha-se, depois entranha-se” – bem verdade, e não apenas para aquilo que Pessoa sugeriu. Bem verdade pois rapidamente senti que o tinha na mão. Claro que joguei as cartas na perfeição, um passo de cada vez, ele não era alguém fácil, sentia-se. Nessa noite, já com o álcool a toldar um pouco as nossas decisões, faço a sugestão de irmos até minha casa.

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O que se passou foi algo maravilhoso. Ambos sabíamos para o que íamos, sendo que o flirt tinha começado logo no bar. Fizemos amor de muitas maneiras ao longo de um par de horas, até que adormecemos, cada um para o seu lado, estafados, satisfeitos.

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Quando acordo não o vejo. Não estranho, na medida em que pouco passava das 14h. O que estranho é a sua reacção quando o vejo nas vezes seguintes. Completamente seco, fazendo comentários que não percebia com os seus amigos de sempre. Fico triste, mas tento ignorar.

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É quando o vejo, certa vez, e passado 2 semanas do nosso rendez-vous, numa noite em que já estava um pouco alcoolizado, que sinto os seus sorrisos estúpidos que se seguem de comentários com os seus amigos, que vou ter com ele e o chamo à parte.

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- Podes-me explicar o que se passa? Que não me queiras ver mais, tudo bem! Se para ti foi só uma foda, nada mais, tudo bem! Mas porque é que estás com essas merdas, com esses comentários e risinhos estúpidos?

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- Ouve lá!... Foda? – vejo que mente – Não sei, nem quero saber, do que estás a falar, mas vê lá se percebes que não quero nada contido! Desaparece, paneleiro do caralho!!

5 comentários:

sendyourlove disse...

historia forte!
Gostei...principalmente da imprevisibilidade...
E do quantoi real e cinico pode ser.

Sei que existes disse...

Mais um retrato, maravilhosamente bem contado, de uma triste realidade!
Beijinhos grandes

Sofia disse...

surpresa ou talvez não - talvez se devesse chamar assim... mt bom, as usual! ;))

aflores disse...

É caso para dizer "quem sente cheiros...não sente corações" :):)

Fico à espera do "estórias em vão"

Cati disse...

Tem graça que a meio do texto "previ" o final desta fantástica "estória"... Gostei!!!
Continua... já sabes que tens aqui uma fiel leitora.