quarta-feira, 9 de julho de 2008

Which Witch?

Lembro-me como se fosse hoje. Era Fevereiro, o termómetro apontava 7 graus negativos, e estava um nevoeiro como nunca tinha visto. Contudo, para um Fevereiro Norueguês, este estava a presentear-me brandas noites. Trabalhava numa Comunidade Terapêutica, ajudando pessoas a libertar-se da prisão que é o mundo da droga. Vivia com eles, na mesma instituição, e tinha o hábito de dar uma corrida por dia.

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Mas nesse dia atrasei-me. Atrasei-me e não pude correr à hora do costume. Veio o jantar, e duas horas esperei, para a comida assentar. Entretia-me à procura de emprego, viajava de site em site, até ver a hora de ir correr chegar. Porém, quando chegou essa hora, o sol tinha-se já posto. Vivendo tão no meio de nada como vivia, via o meu percurso habitual de corrida completamente imerso numa nuvem, sendo a única fonte de luz uma lua cheia, que brilhava lá no alto, ajudando um pouquinho. Decidi ir.

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A cada passo, mais me emergia na escuridão. O nevoeiro era tão denso que conseguia apenas ver uns poucos metros à frente, e as ilusões ópticas abundavam. Corria pelo meio dos campos, olhava à volta, pouco via, olhava para a frente, e via uma muito subtil sombra da floresta que atravessaria. Ouvia Sigur Rós, que fazia com que todo aquele ambiente entrasse em conluio com os meus atrevidos pensamentos, e sentia estar a correr dentro dum sonho. Não de tão bom que era, mas por parecer, realmente, um sonho que vivia, mas com consciência. Não me belisquei, pois a certeza que era a realidade, existia. Continuava a correr, e mergulhei na floresta digna dum conto dos irmãos Grimm.

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Passo ante passo, o coração a bater, dou uma curva à direita, tentando ter cuidado para não escorregar nas esporádicas poças de gelo que (já não) me surpreendiam. Curva à esquerda, e mais uma ilusão óptica. Lembro-me da tese que tinha feito sobre alucinações, e tenho a certeza estar a confundir um qualquer estímulo real por outra coisa qualquer. Mas não passa. Nasce no meu peito alguma adrenalina, e o ritmo de corrida abranda. Sim, parecia-me um caldeirão... em fogo. Ouço o crepitar da madeira. Não consigo ver nada mais além de dois metros para cada lado, e algo que me parecia um caldeirão… e ouvia o barulho. Seria possível estar a alucinar, em vez de estar a ter uma ilusão? Parei de correr, e permaneci uns segundos. Como sabia que não estava a sonhar, tudo me parecia muito estranho. A adrenalina continuava a arder, mas calma. Fecho os olhos durante 4 segundos, e volto a abrir. A adrenalina dispara. Não só continuo a ver o que via, a ouvir o que ouvia, mas vejo uma sombra diante do caldeirão. Sinto-a rodar, e caminhar em direcção a mim. Queria voltar-me e fugir, mas algo em mim não mo permitia, ficando ali, e cima duma dessas poças de gelo, como que hipnotizado. O vulto aproxima-se e percebo ser uma mulher. Sai de entre as árvores, e está a um metro de mim. É muito velha, mas incrivelmente bonita. Está vestida de preto e tem um chapéu em bico.

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- És uma bruxa? – ouço-me perguntar, em português.

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- Sou – responde. Di-lo em norueguês, e percebo pela simplicidade do que diz – Tens fome? – pergunta. Sinto-me confuso, pois percebo perfeitamente o que pergunta, tenho quase a certeza que o faz em norueguês, e lembro-me que não sei como se diz fome nesta língua… na minha mente tento repetir, mas apenas português aparece. E como percebeu a minha pergunta?

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- Tenho… até tenho…

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- Então anda comigo. – ordena, suavemente. Da mesma maneira, pega-me na mão, e volta a pedir-me que vá consigo. É tudo demasiado estranho e fora do normal para eu fugir. Estranhamente, sinto-me bem. Dou um pequeno pulo para saltar o pequeno fosso que separa o caminho do mato, e vou com ela. Não sei se a sua mão está quente ou fria, mas o que quer que esteja, está muito. Ela caminha, com dificuldade, em direcção ao caldeirão. Curva-se, afunda as mãos no fogo, não se queixa, e tira algo que me parece uma sopa estranha. Não sei onde a põe, mas continua a caminhar. Cada vez mais dentro da floresta, aparece outro caminho, que atravessamos. O nevoeiro vai-se dissipando, mas de certa forma que me permite continuar a vê-la, e apenas a ela. A sua casa é velha, muito velha, como as casas das bruxas devem ser. O portão range, naturalmente, ao abrir, e a porta da casa igualmente.

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Sentamo-nos na cozinha, velha, muito velha, onde uma lareira acesa nos aguarda. Assim como não sei onde armazenara a sopa que tirara, não sei de onde a tirou agora, e como veio parar a uma tigela, que me espera, a fumegar, cima da mesa com uma toalha velha aos quadrados. Senta-se à minha frente.

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- Que tens para mim? – pergunta, em norueguês. Não me assusto.

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- Não sei… – respondo, em português – E tu, que tens para mim?

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- Não sei… acho que te posso mostrar como vais morrer… – sugere, descansada, antes de enfiar a colher com a sopa na boca.

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- És a bruxa do Big Fish? – sinto a minha pergunta estúpida, mas tenho que a fazer.

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- Não, filho… Isso é só um filme. Quem sabe inspiraram-se em mim… – graceja – Mas queres saber ou não? – experimento a sopa que, apesar de não saber de que é, me sabe incrivelmente bem.

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- A sopa é de quê?

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- Não é de criancinhas, não te preocupes… é de muita coisa… mas estás a fugir à pergunta, filho. Queres saber?

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- Posso responder antes de ir embora?

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- Quem te disse que vais embora? – mais um gracejo. Tem sentido de humor, para uma bruxa. Comemos a sopa em silêncio, e pergunto-lhe como se tornou uma bruxa.

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- Eu não me tornei uma bruxa… nunca foi a minha profissão de sonho…

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- Mas… é uma profissão? – interrompo.

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- Estou a brincar, filho. Tenta acompanhar… Como dizia, eu não me tornei uma bruxa. As pessoas é que me foram tornando uma bruxa…

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- Como assim?

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- Nem sei, filho… Pelo facto de ser diferente de toda a gente desde o momento em que nasci, pelo facto de me dar muito bem sozinha, as pessoas foram-me afastando, e criando estórias acerca de mim. Talvez por acharem que me dava bem sozinha, e que era independente, que não precisava de ninguém…

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- E precisavas?

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- Na altura precisava, sabes… Quem é que não precisa de ninguém? Na altura precisava. Não era por ser independente que não precisava de ninguém. Mas depois das pessoas te colocarem um rótulo, é muito difícil escapar. Muito mesmo. As pessoas quando te dão um rótulo, agarram-se às crenças que têm… e se fazes algo que vai no contrário do que pensam, como eu fazia, quando tentava falar com alguém, ou ter amigos, elas assustam-se… Chega a uma altura em que deixas de tentar… Claro que nasci com um ou outro talento, mas só depois de me rotularem como bruxa, tive de aceitar, não o que sentia ser, mas o que as pessoas me faziam sentir ser… Se calhar foi aí que me tornei uma bruxa…

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- Mas estás a falar comigo! Sou diferente? Porque é que tentaste comigo? – pergunto, intrigado. Cruzo a perna e dou um gole do café, que tanto se bebe por terras escandinavas, e que apareceu misteriosamente na mesa da cozinha.

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- Filho… – diz, mexendo o açúcar do seu café, que segundos antes eu não sabia onde estava – Eu estou a falar contigo… para te comer!! – diz, tentando imitar o lobo mau. Vislumbro uma fileira de dentes perfeitamente alinhados…

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- Está bem que não estás habituada a ter companhia, mas tens de treinar as tuas piadas… – interrompo, estranhamente descontraído, achando-me o máximo por estar a fazer uma piada dizendo que as suas piadas são más.

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- É, talvez tenhas razão… – responde – Bem, como dizia… Eu estou a falar contigo, meu querido, porque estás a sonhar!

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- Não estou! – respondo, quase chateado. Apercebo-me que a razão pela qual estava chateado, era que não queria que aquilo fosse um sonho.

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- Estás sim, lamento. Experimenta beliscar-te… – assim o experimentei, e solto um leve grito de dor.

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- Agora apanhei-te! – ri, a bandeiras despregadas – Estás a sonhar, como te disse, mas é claro que sentes dor nos sonhos! – sim, desta vez apanhou-me.

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- Mas existes mesmo?

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- Sim, existo. Mas não aqui no sítio para onde te guiei. Queria que me visses neste ambiente porque é o mais fascinante para as bruxas viverem… na verdade vivo num condomínio fechado em Bergen… – vê os meus olhos arregalarem-se, mas a voltarem à posição normal, quando percebo, sem me explicar, que está a brincar. Percebe que percebo – Vivo num local parecido com este, mas que não é em Mysen. E decidi falar contigo no teu sonho, porque se me repudiasses, não me sentiria mal com isso, pois… tinha sido só um pesadelo teu. Mas revelaste-te um jovem muito simpático! – coro – Sabes… quando estás habituado a ser repudiado, crias o teu próprio mundo, onde aí tudo é teu e tudo está sob controlo. Porém, quanto mais tempo passa, mais te habituas a ele, e mais medo crias em relação a falar com outras pessoas. E ganhas estranhos hobbies, como eu fiz com a bruxaria. Coisas que te mantenham ocupada e que não te façam pensar na solidão cruel que vai dentro de ti. E habituas-te.

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- Mas… as pessoas diziam que eras uma bruxa… tu dizes que não eras… no entanto, estás no meu sonho… isso não é bruxaria?

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- Sim, sim, ok, admito… mas é como te digo. Fica difícil demais lutares contra aquilo que dizem que és, e vais perdendo forças, não importa o quão forte sejas, e entregas-te, como disse, não ao que sentes, mas ao que te fazem sentir…

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- Mas já pensaste que podes apenas ter tido azar com as pessoas que conheceste?

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- Já pensei muitas vezes nisso, mas também já não-pensei nisso outras tantas… quando toda a gente que conheces diz o mesmo… claro que a informação pode simplesmente ter passado de pessoa para pessoa… mas a dada altura cheguei à conclusão que se o ser humano é alguém tão estúpido ao ponto de confiar mais em informações estúpida e indirectas acerca de outras pessoas… sem sequer lhes dar uma hipótese… então os seres humanos talvez não valham muito a pena conhecer…

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- Mas quiseste conhecer-me… – digo, fazendo o Porto que magicamente apareceu na minha mão.

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- Quis conhecer-te, porque tu nunca ouviste de mim. Porque soube de ti, e que estavas aqui há pouco tempo, e pensei em experimentar falar com alguém que não conhecesse nada de mim. Pois se fosses daqui, serias exactamente igual, meu querido… – fico em silêncio, a pensar. Seria eu, realmente, “igual”. E estaria esta opinião acerca dos seres humanos tão acertada assim? Pensava no quão facilmente corrompível é, de facto, a mente humana. Tantas vezes que nos entregamos a preconceitos, a estereótipos, não querendo saber por nós, mas encostando-nos ao conforto que é ver a informação, por mais estúpida que é, chegar até nós, e aceitar qualquer juízo, quem sabe condenando as pessoas a ser catalogadas com imagens que não são as suas… e todos fazemos isto… e todos criticamos quem faz isto. Que estupidez. De certa forma, criticamo-nos a nós próprios, mas sem coragem de os fazer directamente, preferindo criticar tudo o resto, ignorando o facto de que também nós… nos incluímos nesse resto… Levanto-me.

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- Eu quero conhecer-te na VIDA real! – ordeno. Ela levanta-se. Está à minha frente. À nossa volta uma imensidão de gelo. Estamos no meio dum enorme lago congelado. Sinto a sua pele rejuvenescer lentamente, e vejo diante de mim alguém que sei, que tenho a certeza saber quem é, mas a quem a minha mente adormecida não me deixa aceder.

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- Filho, tu não me podes conhecer na VIDA real, porque eu não existo.

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- Como assim? Mas disseste…

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- Pois menti… eu não existo, porque eu sou apenas o materializar que o teu cérebro conseguiu fazer das tuas próprias questões… não reconheceste de lado nenhum o humor foleiro? – ouço-a dizer, não me acreditando na informação que chega até mim.

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- Mas… o facto de seres uma bruxa… isso tem algum significado escondido, então? – estou confuso – Eu sinto-me bem com o que penso, ou sinto, não preciso de o esconder num canto escuro no meio da floresta… ou tenho?

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- Isso, filho, é o que tu tens de descobrir!

2 comentários:

Leonor. disse...

oh, gostei muito do texto, parabens !

pedro disse...

A realidade implícita nessa "estória" está muito bem conseguida...acho que por mais que queiramos pomos sempre um rótulo em alguém, mesmo que não se faça por mal!!