sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Entrega - VII

Cry Me a River

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Tivesse vindo de quem tivesse vindo a proposta, teria de ser aceite, obviamente. Partilhar um café e ficar por aí era do mais do mais penoso possível. Ela levantou-se, deixou-me sozinho sentado na mesa, e dirigiu-se ao bengaleiro. Antecipou o gesto que eu teria de pagar a sua conta, e saiu, esperando-me na rua. Levanto-me, mando uma mensagem a minha mulher, dizendo que não poderia jantar, pago, e após deixar uma simpática gorjeta, visto o meu casaco, ponho o meu chapéu, e saio. Parara de chover, mas o Vento mostrava-se agitado, como que adivinhando a agitação que ia dentro de mim. Apenas dentro de mim. Fora de mim, a pessoa mais calma e autoconfiante possível. Não tinha antecipado isto. Aliás, não tinha antecipado nada.

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Ela está à minha direita, com seu casaco longo, quase a tocar no chão. O seu cabelo esvoaça um pouco. Ela não o tenta domar. Acendo um cigarro, aproximo-me de si, com meu braço direito abraço sua cinta subtilmente, como que pedindo para seguirmos. Caminhamos um pouco, ainda sem falar, e levanto o braço, chamando um táxi. Entramos, deixo o cigarro ainda quase inteiro, na rua molhada, e sentamo-nos. Ambos na parte de trás, ela encosta-se e dobra a perna, olhando para a rua. Tiro o chapéu. O taxista, uma pessoa nitidamente local, pergunta para onde queremos ir. Enquanto penso em qual restaurante seria adequado, ela solta, em baixa voz: “Leve-nos a um restaurante que ache que gostamos. Não somos de cá”. Fico um pouco surpreso com esta súbita confiança no gosto de um taxista desconhecido. Vejo, pelo espelho retrovisor, que o taxista levanta as sobrancelhas, encolhe um pouco os ombros, e segue caminho. A noite aproxima-se a largos passos, os carros começam a ligar as luzes, e as ruas a ficar menos populadas. O taxista vai cantarolando algo, vejo pela janela os sem-abrigo a puxarem um pouco para cima os cobertores, algumas lojas a fechar.

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Eis que paramos. Não sei em que terá pensado o taxista, mas talvez tenha estabelecido uma relação entre o café de onde vínhamos e o restaurante que desejaríamos, pois o estilo é parecido. As paredes revestidas a madeira, e alguém a cantar, num canto, apesar de num palco não tão improvisado como no Vrijheid. É uma senhora, não muito nova, mas elegante, que canta envergando um vestido negro, com uma longa fenda, deixando ver a perna quase até à cinta. É fácil identificar o que canta. “Cry Me a River”, esse clássico já por tantas pessoas interpretado. As mesas estão revestidas com uma toalha branca, as cadeiras são pretas, da mesma cor de um par de velas que ardem lentamente perto dos pratos.

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- Porque temos de ter estes largos momentos de silêncio? – pergunto, após nos sentarmos. Olha-me nos olhos, fixamente. Eu faço o gelo do meu Martini rodar, lentamente.

- Pois eu acho que são os momentos em que nos entendemos melhor…

- Engraçado… isso soa-me a cliché… – atiro.

- E quem disse que os clichés são estúpidos? Por alguma coisa são clichés… quem sabe baseiam-se em verdades evidentes…

- Verdade. Mas acha que não nos entendemos tão bem… simplesmente falando?

- Se quer saber… eu acho que há momentos para tudo. E quando estamos em silêncio, estamos bem. Quando conversamos, estamos bem. Porquê arriscar a decidir qual desses momentos o melhor? – é fantástica.

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O jantar passou-se num ápice. As músicas não fugiram muito ao estilo que estava a ser tocado ao entrarmos. Mais uma coisa que não antecipara, o facto de ter bebido 3 Martinis, uma garrafa de vinho tinto e um whiskey, para rematar com estilo uma refeição repleta dele. Ela não tinha bebido muito menos, e eu notava isto, apenas no seu sorriso. Era um pouco mais longo, mais rasgado, e fazia-se acompanhar, vez por vez, por umas não muito sonoras gargalhadas. O ambiente aligeirara um pouco e estabelecia-se uma espécie de vínculo. Na verdade, o jantar demorou quase 3h, e fomos das últimas pessoas a abandonar o restaurante.

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Estamos para sair, falamos baixinho, debruçados na mesa, com nossos lábios nada longe, os dedos entrelaçados, e surge a grande questão… a questão que eu evitara desde o primeiro momento, surge dos seus lábios, cravando-se na minha expressão.

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- E agora?...

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Surpresa

Ouvindo Da Weasel – Mundos Mudos [clicar]

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Quem não adora pessoas que cheiram bem? Eu sei que adoro, e sei bem como ele cheira bem. Foi a primeira coisa que reparei nele. Bebericava o meu chá na esplanada do café, e o Vento traz até mim o seu aroma. Levanto os olhos e vejo-o chegar, rodeado dos seus, supunha, amigos. Com agrado, reparo que o aroma não me tinha enganado, e ele era como que uma personificação do que cheirava, algo belo, forte, viril.

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Foi quando comecei a pensar na melhor maneira de o abordar. Não o fiz de imediato, mas lancei uns olhares que me pareceu terem sido recebidos com agrado. Foi-se embora passado pouco tempo, mas o jogo estava no ar de imediato. Acho que antes de partir ainda se voltou para me olhar mais uma vez, e comentou algo com os amigos.

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“Quem não sabe é como quem não vê” – bem verdade. Digo isto pois depois desse dia em que reparei nele, comecei a encontrá-lo em alguns bares da VIDA nocturna de Évora. Um dia, em que o apanho sozinho, meto conversa com ele. Não digo que já tinha reparado nele, ele não diz que já tinha reparado em mim. Entre conversas casuais, começamos a encontrar-nos mais frequentemente, sem nada de especial se passar. Chega o dia em que os seus amigos decidem ir embora mais cedo, ele fica comigo. Ocasião perfeita. Após alguns shots bebidos e cervejas partilhadas, sugiro um bar que frequentava com frequência. Ele acede. “Primeiro estranha-se, depois entranha-se” – bem verdade, e não apenas para aquilo que Pessoa sugeriu. Bem verdade pois rapidamente senti que o tinha na mão. Claro que joguei as cartas na perfeição, um passo de cada vez, ele não era alguém fácil, sentia-se. Nessa noite, já com o álcool a toldar um pouco as nossas decisões, faço a sugestão de irmos até minha casa.

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O que se passou foi algo maravilhoso. Ambos sabíamos para o que íamos, sendo que o flirt tinha começado logo no bar. Fizemos amor de muitas maneiras ao longo de um par de horas, até que adormecemos, cada um para o seu lado, estafados, satisfeitos.

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Quando acordo não o vejo. Não estranho, na medida em que pouco passava das 14h. O que estranho é a sua reacção quando o vejo nas vezes seguintes. Completamente seco, fazendo comentários que não percebia com os seus amigos de sempre. Fico triste, mas tento ignorar.

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É quando o vejo, certa vez, e passado 2 semanas do nosso rendez-vous, numa noite em que já estava um pouco alcoolizado, que sinto os seus sorrisos estúpidos que se seguem de comentários com os seus amigos, que vou ter com ele e o chamo à parte.

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- Podes-me explicar o que se passa? Que não me queiras ver mais, tudo bem! Se para ti foi só uma foda, nada mais, tudo bem! Mas porque é que estás com essas merdas, com esses comentários e risinhos estúpidos?

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- Ouve lá!... Foda? – vejo que mente – Não sei, nem quero saber, do que estás a falar, mas vê lá se percebes que não quero nada contido! Desaparece, paneleiro do caralho!!

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Mortal 6 (aceitam-se títulos, 'tou na dúvida)

Vejo-a enterrar os dedos nos seus cabelos, que agita para sacudir alguma da água que conseguiu iludir o guarda-chuva. Estou encostado ao balcão, de costas para o mesmo e com os cotovelos apoiados na sua esquina. Dou um gole do gim, dou uma passa noutro cigarro que acendera, e observo-a. Ainda não me viu. Tem um casaco longo, cinzento. Depois de dobrar a gola do mesmo, pendura-o. Guarda o guarda-chuva, e volta-se. Ao olhar para mim, lanço-lhe um sorriso. Ela nada faz. Não sorri, que caralho! Que tenho de fazer? Aproxima-se.

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- Desculpe, não tem um cigarro? – Sorrio. Mas rapidamente constato que, mesmo das suas próprias piadas, o sorriso não é genuíno, está carregado de segundas intenções e mistério. Fico sem saber o que pensar ou fazer, vindo ao de cima uma insegurança latente que desconhecia. Afogo-a, empurro-a para dentro de mim, deixando apenas permanecer o aparente olhar confiante. Com um olhar aponto para o maço de Dunhill que a esperava em cima da mesa. Ela sorri e pega no maço. Pede-me lume. Aponto novamente com o olhar para o balcão. Volta a pedir-me lume. Compreendo o que queria fazer quando, ao lhe dar o lume, pega novamente nas minhas mãos, aquecendo-as um pouco e a mim muito mais.

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- Não se quer sentar? – pergunto.

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- Pois porque não?...

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Assim o fazemos. Estou às cegas, completamente. Não sei minimamente do que falar. Sei que isto não é, por nada, o momento de falarmos do que esteve a fazer esta tarde, da situação (sempre) polémica da política nacional, das rivalidades entre a parte holandesa e inglesa do país… no fundo, de nada! Contudo, tenho consciência disso, então opto por escolher muito bem as palavras, e se não as encontro, silencio-me.

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Estamos no canto do café. Ela, sentada em frente a mim, um pouco de lado na mesa, com as pernas cruzadas, e o cotovelo direito apoiado na mesma. A mão, esticada no ar, segura o cigarro que lhe dei, que contribui para o ambiente algo fumarento do local. Tem uma blusa branca, leve, e umas calças da mesma cor. O cabelo, apesar de agitado minutos antes, apresenta-se bem definido, descrevendo uma linha perfeita e ondulada ao redor do seu olho direito. Volto a reparar nos seus olhos, grandes, fazendo lembrar uma bela mulher árabe, a íris dum castanho tão escuro que hipnotiza.
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No outro canto, perto da porta, num pequeno palco improvisado, de madeira, começa a tocar o conjunto Revolutie, uma banda conhecida por tocar o melhor jazz da cidade. Conheço-os, boa oportunidade.

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- A menina conhece esta banda? – apercebo-me que não sei ainda o seu nome.

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- Não me são estranhos. Esta sonoridade diz-me algo. – Responde, sem olhar para mim. O pé, discretamente, acompanha o ritmo da música.

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- São os Revolutie. São conhecidos por Nieuwe Adelaars não só por tocarem o melhor jazz da cidade, mas por, nas raras ocasiões em que cantam, tecem das críticas mais acutilantes e subtis ao governo.

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- Mas não os apanham? – pergunta. Desta feita olha-me nos olhos. Gosto. Gosto de a ver olhar para mim com os olhos um pouco mais abertos, abdicando da sedução a tempo inteiro. Estava curiosa.

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- Pois aí está a beleza, é que são tão subtis, que apenas se pode imaginar o que realmente querem dizer. É impossível ter a certeza. Além do mais são muito queridos por toda a gente. Serem apanhados sem nenhuma base sólida ia fazer muita coisa abanar. Pelo que o governo prefere tentar mandá-los abaixo indirectamente.

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- Como assim?

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- Digamos que tem sido impossível para eles arranjar outra forma de ganhar dinheiro além da música. Ninguém os emprega. Já deixaram de tentar, ao perceber que era algo que não tinha apenas que ver com o eventual empregador.

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A conversa continuou. O seu sorriso não modificou sobremaneira. Gosto assim. Falamos de algumas questões relacionadas com a conversa anterior, surgindo os assuntos naturalmente. Achei interessante o paralelismo entre o tema inicial da conversa, e o tema constante na mesma. Mensagens subliminares, aparentemente inocentes, com eventuais significados e desejos por trás.

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São 9 da noite.

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- Jantamos?

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Saltos Altos de Tacão Amarelo

Muito aconselhável ouvir isto ao ler!! Clicar aqui!

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Acordei à espera de o ver. Adormeci sem o fazer. O rádio toca as músicas de trás para a frente e o sol está a chover. Penso que devo estar com uma moca do caralho, mas não me importo. Gosto de ouvir o som quase satânico das músicas em desalinho. Abro a porta do chuveiro e cumpro o meu ritual de todos os dias, cortando o cabelo e pintando os lábios. Parou de chover, acho que já não levo lancheira.

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Saio à rua, completamente nua, e sinto-me uma entre tantas outras, já que toda a gente está a falar ao telemóvel. Não me importa. Penso em vê-lo mas sei que ele ainda não ceou. Quando entro no barco, peço ao taxista para me levar para um sítio qualquer. A noite está calma, quero pensar, mas pensar longe daqui. Quando chego, abro a porta do elevador e sento-me à lareira. Estou onde quero estar, mas penso novamente que, depois de alcançar este sagrado poiso, já não o quero, e o vinho está a estragar. Puta de mania, de querer o que não tenho, de querer estar onde não estou, de estar a parecer o Variações, e do vinho estar a estragar. Mas nunca se sabe. Abro a janela e saio pelo varão de emergência, directamente até ao rés-do-chão. A única coisa constante no meu pensamento é vê-lo. Vou ao cemitério para o ver, as pessoas estranham um bocado alguém nu no cemitério. Não me importa. A campa dele é longe, mas ainda tenho sumo. Quando chego a campa está no mesmo sítio mas não tem nada escrito na lápide. Estranho. Eu estranho, e aquilo é estranho. Não que o meu dia esteja a ser estranho. Escavo um pouco a tua campa, dói-me as unhas, e descubro a passagem secreta. Tenho medo de bichos mas tento entrar. Quando saio no armário do quarto dos teus pais, vejo o teu pai no mesmo quarto a ver raparigas na tv a fazer ginástica. Acho que eu o vejo mas ele não me vê. Acho que está excitado.

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Saio do quarto e a floresta adensa-se. Tenho de afastar as canas de bambu e usar um protector solar. Vejo a tua mãe ao fundo a lavar roupa na água lamacenta do pântano. Grita. “Quanto mais lavo mais suja está!!!” Acho que ela é que quanto mais tempo passa mais louca está. Nunca soube ultrapassar bem a tua morte como eu, nem o facto de querermos casar em Abril. Abril, águas mil. Diz.

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Ainda penso se devo falar com ela, mas parou de chover. Abro a porta do pântano e saio para a rua. Dou um passo e estou num autocarro. Toda a gente está a pensar alto e eu própria não consigo pensar. Quero-me sentar mas as pessoas tiram palavras da cabeça e ocupam os bancos. É incrível, e impossível! “Posso-me sentar?” “Não porque você tem cara de comunista!” – eu nem ligo a política!! Saio na primeira paragem e há leões na rua. O céu está amarelo e vejo um espelho ao fundo. Caminho lentamente, doem-me os pés com as picadas dos escorpiões. Sinto-me sonolenta, deve ser do café. Ainda penso que gostava de te ver. Aproximo-me do espelho e vejo-te do outro lado. A tua cara é a minha. Tento dar um beijo no espelho, mas tenho cieiro e doem-me os joelhos. A tua cara é a minha, e eu não te vejo em lado nenhum! Tento dar um beijo no espelho, mas tenho cieiro!!

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A tua cara é a minha, a tua cara transforma-se completamente na minha, e vejo-me ao espelho. Tenho alguém ao lado que não sei quem é. As minhas pupilas estão pequenas. Quero uma moca maior, e quero ver se te vejo.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Mortal - 5

Domingo. Um Domingo diferente, finalmente! Não vou passar as secas do costume. Acordo com o pensamento orientado sabemos todos para onde. Levanto-me, tomo banho, visto o robe e, com uma caneca de café, contemplo a paisagem de Nieuwe Adelaars, ou New Eagles, para quem fala Inglês. Hetwestenland, ou Westland, foi uma colónia da América Central ocupada pelos ingleses e holandeses. Conseguida a independência no início do século, hoje é um país bilingue, sendo que metade fala inglês, outra metade neerlandês.

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Passo a tarde no ginásio e no café com Arie, um amigo de longa data. Essa mesma tarde passou custosa e penosamente. Apesar das conversas até serem divertidas e os lugares confortáveis, parece que conseguia contar cada minuto passar, via o ponteiro mexer-se com uma lentidão incrível, e nada havia que eu pudesse fazer. Por outro lado, e isso é o mais estúpido, ao mesmo tempo, a cada hora que passava, desejava estar na hora anterior. Claro que, no fundo, era porque estava nervoso, receoso, mas disfarçava estes sentimentos perante mim mesmo, dizendo-me que apenas queria voltar uma hora atrás para fruir mais do melhor de todos os momentos, o da antecipação, esse momento em que tudo corre bem, em que tudo tem tudo para correr bem.

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7 da tarde. Despeço-me de Arie, a quem contara o que se passava, e vou… dirijo-me ao Vrijheid, Freedom, para os ingleses. Vou a pé, e a chuva não perdoa, pelo que tenho de subir a gola da gabardine e enterrar um pouco mais o chapéu na cabeça. As estradas estão cheias de carros que buzinam, nervosos, perante a imobilidade. Pessoas caminham rapidamente, vindas de não sei onde, indo imagino, para casa, onde… não chove. Avisto ao fundo o bar onde me encontrarei com ela. Abrigo-me num parapeito, procuro um cigarro no bolso da minha gabardine, e fumo descontraidamente (pois sim…), fazendo algum tempo. Não quero chegar e ela não estar lá. Prefiro que seja ela a primeira a chegar. Nada tem a ver com o estilo que tanta gente apregoa ter, o facto de se chegar um pouco atrasado. Simplesmente não quero ter de me sentar e massacrar-me, minuto após minuto, com dúvidas acerca da sua vinda.

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Entro. O café, com as paredes completamente revestidas a madeira, instrumentos musicais pendurados nas paredes e tecto, apresentava-se com muito fumo, mas apesar disso, agradável. Várias pessoas conversavam, sentadas nas poltronas que rodeavam mesinhas baixas cheias de pontas de charuto. Penduro o chapéu e a gabardine no bengaleiro e peço ao barman um gim tónico.

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Volto-me, encostado ao bar, e vejo a porta abrir-se. Aparece. [continua]

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Um Título Qualquer 4 - [doravante denominado "Mortal"]

Estava entregue. Fumou o seu cigarro, enquanto eu fumava o meu. Não falamos. Ao invés de o fazer, ela aproxima-se um pouco. Eu aproximo-me um pouco. Tento colocar-me numa posição que não diga o que realmente se está a passar naquele momento para quem passe e nos aviste. Complicado.

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- Sabe – diz-me, depois de largar o cigarro que, com uma pequena parte da sua ponta pintada de vermelho, cai no chão – Suponho que isto não fique por aqui.

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- Não sei a que se refere. – Respondo, levantando o olhar e observando as nuvens a viajar impelidas pelo Vento constante. Não a olho.

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- Pois se por acaso… Olhe para mim. – Baixo o olhar – Pois se por acaso descobrir ao que me refiro… amanhã é Domingo. Eu vou tomar café no Vrijheid, por volta das 7 da tarde. Gosto de fumar um cigarro quando tomo café, mas não costumo comprar tabaco, não vale a pena fazê-lo por apenas um cigarro.

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- Percebo.

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- Pois detestaria ter de pedir a outra pessoa qualquer. Adeus.

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E afasta-se. 7 da tarde, amanhã, Vrijheid. Cigarro. Que maneira de me pedir para se encontrar com ela... Ao vê-la afastar-se fico a pensar se não será isto uma metáfora com contornos mais reais do que aparenta. Isto é… é óbvio que naquela frase o que estava a ser dito era “venha ter comigo”, mas disfarçada duma maneira que parece que o objectivo de ir ter com ela é servir a sua necessidade, fornecer-lhe algo. Pois será que não passarei disso mesmo? Alguém que lhe vai fornecer algo, alguém com quem ela tenha de brincar, que use, e depois deixe cair, esmagando no chão com a ponta dos seus sapatos de salto alto? Tento sacudir a minha mente destas divagações (aparentemente) sem sentido, e dirijo-me ao salão.

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- Onde andaste, querido?

- Fui lá fora, apanhar ar. – Respondo, enquanto procuro com o olhar a mesma pessoa que me obrigara a mentir nesse preciso instante. Avisto-a ao fundo, no centro de uma conversa com pessoas que sei serem importantes. Reparo como se deliciam com o que diz, e reparo na maneira graciosa como sorri ao ouvir o que lhe é dito.

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- … e eu ali a ouvi-lo e ele… - Não consigo prestar atenção ao que minha mulher me diz. Tento olhar disfarçadamente, mas talvez sem sucesso, pois a… donzela repara que estou a olhar e, a determinado momento olha fixamente para mim, piscando-me o olho. Afasto o olhar. – Ainda por cima sobre a poluição em Nieuwe Adelaars!

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- Pois… realmente não tem muito jeito…

- Não tem?

- Quer dizer, o que ele disse não tem…

- Pois eu sei… – E consigo salvar-me assim.

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Fomos embora pouco depois. O meu Mercedes preto galgava as ruas. A minha mulher ia falando dos pormenores da festa, das conversas que teve. Eu só conseguia pensar em duas coisas. Nos minutos que sei ter tido hoje, e nos minutos que não sei como serão amanhã. Ia-me perguntando a opinião, eu ia anuindo. Quando me pergunta se estava bem, sou forçado a responder que estava tudo óptimo, apenas e sentia um pouco cansado e farto destas festas de fachada.

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Chegamos a casa, agradecemos e pagamos à Abigal, que tomava conta do pequeno Adriaan, e vamos dormir.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Quase Consigo

As pessoas passam por mim na rua e mandam piropos. As pessoas passam por mim na rua e olham para trás depois de eu passar. As pessoas passam por mim na rua e comentam umas com as outras. As pessoas passam por mim.

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E eu? Eu passo pelas pessoas na rua e continuo na minha VIDA. Eu passo pelas pessoas na rua e não mando bocas, piropos, não comento nada com ninguém, não fico a olhar. Eu passo pelas pessoas. Apenas.

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Poderia ser tudo normal, até lisonjeador. Mas se o que sinto já me massacra todos os dias, porque é que as pessoas têm de mo lembrar todos os segundos, todos os momentos? Porque não me deixam ser apenas eu própria? Os únicos momentos em que me sinto realmente uma mulher são quando estou em casa, sozinha, longe de todos os olhares condenadores, julgadores. Não sei porquê, tive o azar de nascer no corpo de um homem, apesar de sempre me ter sentido uma mulher. Nunca gostei de jogar à bola, de usar calças, de brincadeiras parvas. Como me recordo da primeira vez que a minha mãe me apanhou a vestir as roupas dela. Estava no seu quarto, completamente vestida com as suas roupas, debruçada sob o espelho, tentando aprender a usar um batom. Acho que ela já sabia… tanto que não ficou escandalizada. Tentou fingir que sim, e alertou-me da gravidade daquilo que estava a fazer, para nunca mais o repetir, e advertiu-me do perigo que seria se meu pai me apanhasse assim. Claro que eu disse para não se preocupar, que era uma brincadeira e eu nunca mais voltaria a acontecer.

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Tinha dez anos quando o meu pai me apanhou assim pela primeira vez. Nem disse nada… o seu olhar dizia tudo, e se na sua expressão facial havia algo que pudesse ser difícil de entender, a sova que me deu com o cinto não deixou margem para dúvidas. Comecei a perceber aí que nunca mudaria, pois nem por um momento me arrependi ou reflecti novamente sobre o que tinha feito. Da segunda vez tinha 16 anos. Tive nódoas negras durante 3 semanas, e o meu pai só me voltou a dirigir a palavra passado meio ano, ignorando as súplicas de minha mãe.

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Contudo, assim como da primeira vez percebi que nunca mudaria… desta vez percebi que nunca seria entendida. Por isso, aos 18 anos fui estudar para fora, trabalhando ao mesmo tempo num bar gay para me sustentar, e nunca mais voltei a casa. Sabia bem a vergonha que o meu pai sentia de mim, e dos comentários que corriam por toda a terriola. Aqui onde estou, os comentários prevalecem, mas aqui onde estou não preciso de me preocupar com ninguém. Quase consigo ser eu… quase.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Jardim

Porque é que a temperatura é sempre a mesma? E porque é que as nuvens estão sempre perto, e à volta do sol, mas nunca em cima dele? Devia ficar giro… devia ficar sombra, como quando estou debaixo duma árvore, mas em todo o lado! E porque é que a relva não cresce? Porque é que a cascata tem sempre o mesmo volume de água a cair? E de onde é que vem essa água, o que é que há do outro lado??


E porque é que posso comer de tudo o que há, tudo, menos daquela árvore no meio? Não faz sentido! O Adão, de cada vez que lhe falo nisso passa-se. Acho que é das poucas vezes que o vejo sem aquele sorriso idiota nos lábios. Não me interpretem mal, eu gosto muito dele, trata-me muito bem, mas também não é que eu saiba como é não ser tratada bem. Mas ele… não sei, às vezes aborrece-me… Passa a VIDA a dar nomes aos animais, depois engana-se, começa tudo de novo, e anda ali dum lado para o outro, com a sua folhita de plátano, todo contente. E dar nomes aos animais… deve ser grande empresa. Quando eu quis chamar Katiára ao que ele acabou por chamar de Ornitorrinco, gozou comigo, e chamou ao assunto logo a hierarquia das costelas! Pois eu já me dei ao trabalho de as contar, e temos as mesmas! Quer dizer… ele dantes tinha número impar ou quê? E… Ornitottinco? Como se fosse um nome de inspiração divina. Bem, inspiração divina acaba por ser tudo aqui…


E essa folha de plátano… não percebo. Acho que desde que nasci que me lembro de ter essa folha à frente do meu se… da minha cinta. Os meus braços, descobertos, os meus joelhos, descobertos… porque tenho de tapar algo cuja única função é fazer chichi? Nem dá muito jeito, ter de levantar a folha sempre que sinto a necessidade…


Não sei… nem percebo como é que de repente me deu esta vontade de questionar tudo. Tudo ia bem, até que conheci alguém que me abriu os olhos! A cobra. Ao menos alguém que me tira da monotonia. Gosto dela, é sopinha de massa, e acho giro isso. Ultimamente tem-me falado da Macieira. Nem disse nada ao Adão, passava-se logo. Mas estou a pensar em experimentar.


- Qual é o problema? É uma árvore como as outrasss? Ssse podess comer pêsssegoss, laranjasss,… aquela não há-de ser muito diferente, poisss não?


Pois realmente não há-de ser assim diferente.


Combinei com a cobra perto da laranjeira. Só há uma, e chega. É curioso, tiramos uma, e nasce uma outra logo a seguir. Digo ao Adão que vou dar um passeio e lá vou ter. A cobrinha vai-me dando força, para não desistir. Aproximo-me, tiro uma, e dou uma dentada.


Fico contente. Variedade. A água deixa de cair da cascata, e as nuvens tapam o sol.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Um Título Qualquer - Salto No Tempo

Ela descansa ao meu lado. A única iluminação que chega ao meu olhar é fornecida pela lua, que brilha alta e cheia. As velas foram perecendo, uma após a outra, cansadas, quem sabe, de nos ver. De onde estou vejo, à minha esquerda, ela, a minha perdição, o vício que não consigo largar, à minha direita a janela, com as portadas entreabertas, permitindo as cortinas brancas dançarem ao sabor do Vento que não se apresenta nada tímido. Está frio, e puxo um pouco o lençol. Ela está nua, a sua cabeça apoiada no meu ombro, com seu cabelo cobrindo o meu peito, a sua perna esquerda, ligeiramente dobrada em cima da minha cinta. O telefone acende. Comecei por tirar o som, passei a tirar a vibração, quando o desligo?... Já perdi a conta do número de vezes que vi a sua luz projectada no tecto, sempre caindo essas chamadas e mensagens no vazio. Acho que, no fundo, não o desligo porque isso seria, penso eu, um assumir completo de um desligar progressivo que tenho vindo a fazer com tantas coisas na minha VIDA… Que estupidez, esta associação... Mais estúpido ainda, a maneira como o sentimento de culpa que me assola nestes momentos parece desaparecer deixando um pequeno rasto apenas, de cada vez que ela se mexe um pouco, quem sabe impelida por um ou outro sonho… ou a maneira como desaparece, desta feita sem deixar qualquer rasto, de cada vez que olha para mim com aquele olhar cheio de pecado e tentação. Reparo como separo “pecado” de “tentação”… se dantes ficava-me pela segunda, agora entrego-me de braços abertos à primeira, como que fazendo tudo o que tenho para fazer de mal na VIDA, apenas duma vez. Claro, não me refiro apenas a uma ou outra foda, isso seria… um ou outro pecado… Refiro-me às decisões que fui tomando ao longo dos tempos, desde aquela fatídica festa, aos caminhos que tomei, à maneira como me deixei absorver por esse vício, atirando para segundo plano tudo o resto, como se não houvesse amanhã… Aí está… Se não houvesse amanhã, eu não ia para casa, e isso é tudo o que mudou em mim, apenas numa frase…

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Os olhos dela abrem-se. Acorda dum sono que pouco durou, e acorda-me a mim próprio das minhas divagações.

- Em que pensas, querido?

- Não te sei dizer… Acho que estava a pensar em como as coisas chegaram até ao ponto em que estão agora…

- Como assim? – Pergunta-me com a sua voz que, estivesse eu distraído, atiraria novamente os meus pensamentos janela fora. Incrível como podemos passar, em menos de um segundo, de uma posição extremamente racional, para uma extremamente “racionalizadora”. Consigo manter a coerência, a custo.

- Sei lá… tudo o que fizemos. Como tanto já nos magoamos um ao outro, e sobretudo… as tantas pessoas que já sofreram por nossa causa…

- Querido… – diz, com voz baixa e quase tranquilizante – Não te alarmes… desde que te vi que sabia que isto só poderia correr mal. – Remata, fechando os olhos e atirando-se para o sono novamente.

Good Priest Bad Priest


A
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7 da manhã, bom dia! Levanto-me, abro as persianas, deixo entrar o sol em minha casa. Ajoelho-me, rezo, agradeço a Deus mais um dia que me concedeu, vou tomar banho. Antes de ir para a banheira ligo a rádio local, vou ouvindo a música que até é sempre igual, mas tudo bem, é uma espécie de tradição. Por outro lado, sorrio ao pensar que não lhes fazia mal mudar um pouco.
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B
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7 da manhã, cum caralho… Já não tenho VIDA pra estas merdas… Nem sei quando é que tive… Ainda por cima, a noitada de ontem deixou-me meio combalido. Foda-se quando me lembro… O whiskey dá-me destas merdas… Ponho-me a jogar poker com aqueles caralhos e quem se fode é o pessoal que dá o dinheiro para a cesta nas missas. Também… são mais 20, menos 20 euros para a igreja. Também não precisam… a esta hora está o papa a coçar os tomates com milhões de contos ao lado…
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A
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Saio do banho. Daqui a umas horas é a missa de Domingo, a melhor missa da semana, a que tem mais gente a adorar Deus. Depois de me vestir e me barbear, vou tomar o pequeno-almoço à pastelaria aqui ao lado. Não é com surpresa que vejo a Dona Maria, Antónia, e todas as senhoras devotas que não conseguem esperar pelo fim da missa para falar comigo. Compreendo. Têm VIDAS difíceis, e eu sou alguém que as consegue entender. Não minto, às vezes distraio-me um pouco com o que dizem, e chego a achar aborrecido vez por vez, e é nestes momentos que mais questiono o que faço… Sinto-me triste e acho que deveria ter mais força, e penso se sou digno de representar o que represento. Eventualmente penso que, apesar de tudo, sou apenas humano, e também erro.
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B

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Não me apetece tomar banho, mas tem de ser. Ajuda-me sempre a curar um bocado a ressaca. Antes de ir para o banho sento-me na cama, ligo a aparelhagem, toca Doors, e fumo um cigarro. Quando acaba, levanto-me, e vou para o quarto de banho. Apetece-me, e então dou largas à imaginação com os recursos que tenho disponíveis. Lembro-me que hoje é Domingo. Foda-se, com este calor e a igreja cheia de gente a adorar deus, que terrível. É sempre um suplício. Mas nem tudo é mau, ainda não veio ninguém bater-me à porta. Saio, vou tomar pequeno-almoço à padaria. Por mim ia ao café comer qualquer coisa, tomar café e fumar um cigarro, mas o povo é fodido, num instante apercebiam-me que também tenho os meus vícios… O pior de tudo é que… estão?... Sim, claro, lá estão elas à minha espera! Não podem esperar pelo fim da missa para falar comigo, vêm sempre chatear-me quando estou na minha paz. Vejo-me fodido para me lembrar dos nomes delas, e chamo-as, de mim para mim, como as pastorinhas! Só falta o Francisco, porque Lúcias e Jacintas não faltam nesta terra!...
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A
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Depois de tomar o pequeno-almoço e conversar com as senhoras, vou para a igreja preparar a missa. Está um belo dia hoje, apesar de calor, e acho que vai ser um belo evento. As pessoas que me ajudam vão chegando, e está tudo pronto para começar.
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B

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Só lamentações pá! Que tratem da VIDA delas, que eu já me vejo fodido para tratar da minha! Como me lembro e arrependo dos caminhos que me trouxeram até aqui… Na altura não tinha muitas hipóteses de trabalho em que se ganhasse bem. Era religioso, mas estava à espera de uma qualquer revelação que me orientasse. Achei que, indo para padre, algo podia mudar. Acho que me fartei de esperar quando dei por ela e já era padre há 10 anos… Agora podia mudar, mas apesar de tudo, é tudo muito confortável. Não ganho muito, mas pouco do que gasto é meu… Quando chego à igreja já está lá tudo pronto para me ajudar. Sorrio em jeito de “bom dia”, mas no fundo penso se não terão mais nada para fazer…
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A
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A missa correu muito bem! Os coros estiveram particularmente inspirados, chegando a arrepiar-me, tal era a qualidade das músicas, e a alegria que me transmitiam. É nestes momentos que me sinto feliz por ser um humilde servente de Deus! No final vou almoçar a uma festa popular aqui perto. Corre também tudo muito bem, e bebo 2 copos de vinho. Paro por aí, não quero exagerar. À tarde há confissões.
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B

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A missa foi uma seca fodida… Chego a ter pena das pessoas que são obrigadas a lá ir todas as semanas, e terem de ouvir alguém tão pouco entusiasmado como eu… É que, não me fodam… Há pessoas aqui dentro mais hipócritas que eu… Quando acaba a missa convidam-me para ir almoçar às festas populares aqui ao lado. O almoço é um bocado chato, mas vou disfarçando o aborrecimento com umas copadas discretas do vinho da região. Quando acaba já dou por mim a apreciar as miúdas que andam em saia dum lado para o outro. É quando sei que já não estou sóbrio… Hei… e à tarde há confissões…
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A
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Das pessoas que se vêm confessar, a maioria não tem grandes coisas a dizer, mas aparece uma senhora que anda a trair o marido. Sei que é um comportamento reprovável, mas sinto pena e chego a emocionar-me, por esta senhora não conseguir combater esta tentação que a persegue… No final digo-lhe que juntos vamos conseguir ultrapassar tudo isto…

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B
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Após algumas horas de ouvir a mesma merda de sempre, aparece uma gaja que anda a encornar o marido. Eu gosto é destas, especialmente quando entram em pormenores. Ainda por cima esta é bem boa. Do lado de cá da parede de madeira, ao ouvi-la, com a voz chorosa, contar como tudo aconteceu, não consigo evitar tocar-me um bocado. Qual é o problema? Sabe bem, e no fundo não estou a fazer mal a ninguém…
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A
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Assim passa o meu dia. Quando acabam as confissões, vou aqui e ali, falar com este e aquele, pessoas que conheço e não vejo há algum tempo. Quando chego a casa, rezo um pouco, vejo televisão, e vou dormir.
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B
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Finalmente em casa. Vou directo da igreja alugar uns filmes, e, ao chegar ao meu pouso, aterro no sofá a beber um bom vinho do porto e a ver esses mesmos filmes, à espera do João Pestana. Amanhã mais um dia, mas um dos bons, não há missa de Domingo!

Everything Is In It's Right Place

ACONSELHÁVEL CLICAR AQUI E OUVIR A MÚSICA AO LER



Narrador, 15 minutos para a viagem
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Uma sala escura. Uma pessoa no centro, em pé, virado para uma parede onde um relógio digital mostra uma contagem decrescente que acaba de passar pelos 15 minutos. 19 pessoas de idades entre os 18 e os 26 anos, de frente para a parede fazem uma meia lua perfeita tendo como centro a pessoa de pé. Em frente a cada pessoa uma vela, fontes únicas de luz, e um copo cheio.
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Pessoa A
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Está tudo perfeito, tudo no lugar certo. Comigo estão 19 jovens que acreditam mais em mim do que alguma vez alguém acreditou. Eu sabia que mais tarde ou mais cedo alguém haveria de me dar a importância merecida. Demorou, mas eu sabia que havia algo de grandioso guardado para mim. Se ao menos os meus pais, que sempre diziam que eu nunca ia ser ninguém, me vissem agora. Se os meus colegas de escola, que sempre me humilharam, me vissem a liderar estas pessoas, que me vêem como um deus!... E na verdade trago, não a palavra dele, mas de alguém superior a ele, que me deu a liberdade de escolher e levar os escolhidos, sem ser castigado.
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Pessoa B
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Está tudo perfeito, tudo no lugar certo! Não me acredito, não caibo em mim de felicidade! Faltam quinze minutos mas para mim parecem 15 anos! Como eu esperei por este momento! De onde estou vejo os meus colegas de viagem, todos, ou quase todos, com um sorriso enorme no rosto. Será que estão tão felizes como eu? Em pé, voltado para a parede está o grandioso líder, Pessoa A, que com a sua sabedoria soube guiar-nos e mostrar-nos o caminho.
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Pessoa C
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Está tudo perfeito, tudo no lugar certo! Cobarde como sou, sei que nunca conseguiria fazê-lo sozinha. Foi quando veio o palhaço Pessoa A falar comigo que percebi que era a minha oportunidade de fugir de tudo duma vez por todas. Com mais 20 pessoas a fazer o mesmo que eu, sei que consigo ter forças para abandonar esta dor que me sufoca. Olho em volta e vejo um monte de palermas com um sorriso pateta nos lábios. Do tipo de sorriso que não dou desde que... Está tudo perfeito, porque faltam apenas 15 minutos.
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Narrador, 10 minutos para a viagem
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Pessoa A

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Penso em tudo o que alcancei e solto uma lágrima que desliza e cai no chão. Sinto que se inquietam, e volto-me, sorrindo, para que não se assustem.
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Pessoa B

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Quando vejo Pessoa A com uma lágrima nos olhos, encho-me eu próprio delas. Como é grande! Alguns colegas assustam-se, sinto, pensam que está com medo. Mas eu sei que não, chora de felicidade pela transição. Como é grande.
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Pessoa C

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O tempo escorrega vagarosamente. O pessoa A solta uma lágrima, está todo cagado... A dor que sinto permanece, come-me por dentro, passeia-se dentro da minha pele e corrói-me segundo após segundo. Sinto esta dor no fundo da garganta constantemente, não gosto de ninguém no mundo, e deles todos sou quem me odeio mais.
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Narrador, 1 minuto
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Pessoa A
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Pego no copo. Sinto que fazem o mesmo. Sinto uma adrenalina imensa dentro de mim. Não sei se é medo, mas peço desculpa a deus A, por ter este medo. É apenas a minha condição humana, que teme o desconhecido... Penso arduamente no próximo nível, não consigo evitar pensar em toda a gente que já me humilhou, e bebo.
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Pessoa B
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Um minuto... Dentro de um minuto estarei ainda mais feliz, pois verei concretizados todos os meus projectos, todos os meus sonhos. Estarei nesse sítio onde não há dor, onde não há mães que se suicidam nem pais bêbedos, tudo de bom, tudo de bom para mim. Bebo.
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Pessoa C
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Estou a um minuto da morte e não sinto nada. Sinto o vazio que sinto todos os dias, todas as noites, em que mal durmo e acordo a transpirar. Como todos os dias em que falam comigo e olho para trás vendo para quem realmente falam... "Hora zero", como diriam eles. Adeus mundo.
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O Que Vejo
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Pessoa B
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Nada. Para sempre.
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Pessoa C
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Cuspo tudo o que tenho na boca. Sou uma cobarde. Vejo quase 20 pessoas à minha volta a tossirem convulsivamente e caírem para o lado. À minha frente vejo Pessoa A a cambalear e tentar correr para um canto com os dedos na boca. Vomita.
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Pessoa A
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O que vejo... Volto-me para trás, vejo apenas os olhos duma rapariga humilharem-me pela minha cobardia, pelo meu medo. A humilharem-me, mais uma vez.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Happy Days [Kind of]

Tudo pronto, prontinho. Hoje acordei, tomei banho por mais de meia hora, pus desodorizante, perfumei-me com o meu melhor perfume, pus creme hidratante, lavei os dentes e vesti-me com o meu melhor fato. Saí, depois de pegar no acessório fundamental, cumprimentei os vizinhos com um rasgado e sincero sorriso e entrei no carro. Deixei-o a lavar nas bombas de gasolina enquanto fui ao barbeiro. O cabelo estava um pouco grande, pedi para cortar, e que me fizesse a barba impecavelmente. Quando acabou, depois de me esfregar o perfumado after-shave, paguei, deixando uma gorjeta que quase duplicava o preço do corte. Fui buscar o carro. Tudo estava no seu melhor, até o dia era um belo dia. O sol não se apresentava tímido, e mostrava a todos a razão pela qual o nosso sistema se chama… sistema solar. Tudo gira à volta dele, assim como a minha VIDA gira à volta dela.
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Era de manhã. Todavia, não tinha grande fome. Como pequeno-almoço apenas um sumo de maracujá que, claro, paguei deixando uma gorjeta especial. Tudo seria perfeito neste dia. Esperei uma horita, pois concerteza ela estaria ainda a dormir (não quero incomodar, claro), enquanto me punha a par das notícias, lendo, de perna cruzada o Jornal de Notícias.

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Olho para o relógio, onze horas, perfeito. Saio do café, pego no carro e vou, lenta e calmamente, até sua casa. Como ao lado havia uma florista, comprei um grande ramo de rosas, eram as suas preferidas (não são de todas as mulheres?). Abro o portão, entro na sua propriedade e, com o ramo escondido atrás das costas, toco à campainha.

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- Muitos bons dias! – Digo, ao ver a sua cara de sono e espanto. Ela abre um pouco os olhos, mais uma vez espantada, como que tentando perceber se estava a sonhar ou era mesmo verdade e eis que, ao se aperceber, solta um grito.

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- João, é ele! – Perfeito! Tal como tinha imaginado! Estão os dois em casa! Ela tenta fechar a porta, e quando percebe que não consegue, foge para dentro. Eu, claro, entro, e fecho calmamente a porta por detrás de mim. Ela dizia não sei o quê a esse João. Não percebi pois estava entretido fechando a sua porta à chave, com a chave que ela me dera há algum tempo atrás.

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- Mas querida!! Trouxe-te rosas!! – Digo, em voz alta à medida que passeio pela sala. Não sei onde está. Ouço um reboliço no quarto e de lá sai o tal João. “Sim senhor!”, penso, “escolheu bem, o homem é elegante”. E caminha para mim, com uma cara dos diabos.

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- Vai-te embora filho da puta! – Filho da puta? Nem o conheço bem e chama-me nomes! É pena… parece que já não há educação.

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- Então rapaz, qual é a necessidade de me chamares nomes? – Digo, com um rasgado sorriso – Trouxe flores para ela e tudo! Não sabia as tuas preferidas, senão também levavas qualquer coisita! – Neste momento, conseguindo a difícil tarefa de tornar a sua expressão ainda mais zangada, avança rapidamente para mim. Ui, vai-me bater.

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E vai um. Não havia necessidade. Quer dizer, haver, havia, porque estava tudo planeado, mas não queria que fosse assim. Paciência. Num momento, saco do acessório. Ainda vejo a sua expressão, em menos dum segundo, alterar-se de super-zangado para “que caralho é aquilo??”. Isto, claro, antes de lhe enfiar um tiro nos cornos!

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Foda-se, a primeira coisa que me corre mal no dia. Devia ter treinado isto. Afinal acertei-lhe no peito! E nem foi no coração. Mas acho que dá. Ele cai no chão, há muito sangue. Continuo a caminhar, passo ao lado dele e digo-lhe, como quem não quer a coisa “Tiveste azar, foste o primeiro que ela viu para foder e agora quem se fodeu foste tu…”. Ela grita que se farta. Também não tinha imaginado esta gritaria toda. Fecha-se no quarto com o telemóvel na mão, aos gritos. Fecha a porta à chave. Preciso de 3 ou 4 pontapés para conseguir abrir aquela porcaria.

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- Zé, que estás a fazer?? Não, por favor! – Incrível, é tal e qual os filmes!

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- Bem, ó Catarina, eu não queria, mas eu disse-te tantas vezes pá… – Digo, com um tom condescendente – Se não fosses minha… E ainda por cima começaste a fodê-lo enquanto ainda andavas comigo pá…

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- Desculpa Zé, desculpa, por favor não faças nada! – Está só de tshirt, sentada no chão, com as mãos à frente da cara. Sim, porque isso é um escudo fantástico! Qual colete à prova de bala, vamos é todos por as mãos à frente da cara que não acontece nada! Que tristeza.

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- Mas repara, trouxe-te rosas, nem tudo é mau! – Digo. Desta vez não sorri tanto. Não é por nada… mas era prai a terceira vez que usava a piada das rosas. Parecia mais engraçado quando pensei nisto em casa. Paciência.

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- Bem, Catarina, tenho pena… – E ia disparar neste momento, mas o outro caralho aparece a rastejar, a agarrar-me a perna.

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- Ouve lá, és mesmo burro! Fazias-te de morto e ainda te safavas pá! Ela já chamou a bófia e tudo! – Por acaso foi um bocado estúpido. Mas ainda andou muito, mais de 5 metros a rastejar e a esvair-se. Estúpido mas persistente. Dou mais um tiro, desta vez mesmo na cabeça, deixo de sentir a força no meu tornozelo. Tento sacudi-lo mas o gajo parece que está colado à minha perna. Tenho mesmo de me baixar para o afastar. Foda-se, não está mesmo nada a correr como imaginei, já me sujou o fato e tudo! Mas assim até é mais giro.

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Outra coisa que não planeei, ao me baixar a Catarina sai a correr sala fora. Foi aqui o momento do dia. Eu, que pelos vistos nem sou muito bom nisto de disparar, sem me levantar, acerto-lhe em cheio no meio das costas! Ela cai a meio caminho entre mim e a porta. Quase!

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A polícia deve estar a chegar. Levanto-me, pouso a pistola na mesa da sala, e vou ao frigorífico. Só produtos diet, que porcaria. Lá tiro um copito de vinho que estava aberto. Por sinal também não é grande coisa, mas é o que se arranja. Dou uma volta pela casa, observando as tantas alterações que fez desde que me trocou por aquele imbecil, até que me apercebo da chegada da polícia. Sim, são mesmo eles.

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Pego na pistola, vou ao quarto de banho e colo-a à parte de baixo do meu queixo. Penteio-me com a outra mão. Troco de mão, não me consigo pentear com a esquerda. Depois de dar um jeito ao cabelo, olho no espelho, sorrio, penso neste meu último dia, e despeço-me.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Ilusões


Narrador
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Reúno-me todos os dias com alguém. Rio, faço caras tristes, sou empático, sou antipático, sou um pouco de tudo, de acordo com o que acho que devo ser em determinado momento para gostarem um pouco mais de mim, para reunir um pouco mais de admiração. Quando acordo, acordo já com um enorme olho em cima de mim. Observa-me e esmaga-me, lembrando-me constantemente do que fazer, de como ser, para que assim consiga desfrutar a minha existência. Claro que nesta busca tão desesperada de ser feliz, sinto-me constantemente cansado. Desapareço entre os segundos, disperso busco uma identidade entre as palavras que me dizem, a imagem que vejo no espelho e os sorrisos que recebo. Como seria tudo tão mais fácil se tivesse um guião desta miserável existência.

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No fundo… até tenho. O feedback que recebo de toda a gente é o meu guião. Poderia ser aquilo em que eu próprio acredito, o que realmente desejo para mim, mas nada disso é verdade. Os princípios, abandonei-os faz muito tempo, quando percebi que a grande maioria deles me estampava um rótulo de moralista na testa. Daí que procure encontrar nos pseudo-princípios das outras pessoas os meus próprios, tentando manter uma certa coerência impossível de alcançar para o observador mais atento.

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Não sei como nem porquê surgiu esta insegurança. Acho que sempre fui assim, não sei porquê. E questiono-me, como me questiono. Como conseguem todas as pessoas ser tão infalíveis, ser tão perfeitas, sem sentir o medo esmagador de errar. E o pior… quando erram, erram com graça. Eu, quando erro, nas raras vezes que isso acontece, erro de uma maneira que me faz sentir completamente humilhado, que me faz sentir uma merda e que todo o meu esforço para ser aceite é menos eficaz que construir um castelo de gelo no Algarve…

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Observador

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Que porreiraço é o Filipe. Sempre na boa, sempre no pico da onda. Não sei como faz para ser assim. Nunca vi o gajo mal, está sempre a curtir, sempre a planear algo, sempre com alguém, sempre disposto a deixar o amigo a sorrir. Deixa-me a pensar em mim próprio. Às vezes chateia-me ser como sou. Quando estou bem, sei que devo estar triste de vez em quando, porque sou humano, e até para dar mais valor a quando estou feliz. Mas quando acontece estar triste, amaldiçoo essa condição, e queria ser como o Filipe, estar sempre bem, sempre sem problemas, e apreciar cada segundo. “Paciência”, penso, não podemos ser todos assim…

domingo, 15 de julho de 2007

Um Título Qualquer - Mais um Bocado

- Pensei que tivesse de falar... com este e com aquele... - Digo, tentando disfarçar a minha satisfação e parecer desinteressado.

- Você não é muito perspicaz em perceber sinais indirectos pois não? - Começa com um ataque. Gosto. Vou devolver.

- Bem, não sei se sabe, mas ser perspicaz é isso mesmo, perceber sinais indirectos. Se fossem directos, não estava a ser perspicaz ao os entender, estava simplesmente a ver, ou a ouvir... Faz sentido, ou não? - Respondo, calmamente, com um sorriso malandro.

- Apanhou-me bem! - Devolve, em forma de gracejo. Foda-se porque é que algumas mulheres têm mesmo de ser perfeitas? Não poderia ela ter uns dentes amarelos, algo assim que retirasse alguma magia? O facto é que ao sorrir, adivinho uma boca completamente apetecível, o que apenas me coloca num papel em que não posso estar. Entenda-se, não posso, mas quero... como quero.

- E que tal baixarmos as defesas?

- Que defesas?

- Ok, baixarmos o ataque...

- Mas assim perde a piada toda... - Foda-se. Puta de resposta. Diz isto a meia voz, e nesta frase diz-me tudo o que eu não posso, mais uma vez, mas quero ouvir.

- Verdade.

- E o cigarro?

- Como?

- Não me tinha convidado para fumar um cigarro?

- Sim, tinha. - E dizendo isto abro o maço de tabaco, tirando dois. Um para mim, um para ela. Continuo sem saber seu nome, mas gosto. Quando lhe perguntei respondeu com outra pergunta, numa evasiva completamente subtil. Tanto que só agora me apercebi. Mas também não sabe o meu, portanto estamos com os mesmo dados na mão.

- Só quero pedir-lhe uma coisa... - Diz, com um sorriso que me deixa com medo do que vai dizer.

- Sim?... - Pergunto, a medo, enquanto tento, disfarçadamente, avistar minha mulher, que deve deambular sozinha pelo salão. Peço a deus para que arranje companhia. Que cinismo, meu Deus (outra vez)! Pedir a deus para esconder o meu interessa por outra mulher.

- Vamos chegarmos um pouco para o canto. O meu marido não gosta nada que eu fume. Importa-se? - O medo que senti ao adivinhar a sua pergunta materializou-se ao ouvir isto. Era uma questão simples, mas por mais pequena que fosse a probabilidade de me tentar beijar, eu não o podia fazer, de maneira nenhuma. Não ali.

- De modo algum. - Como? Nem consigo perceber muito bem o que se passou. Estou eu a pensar numa maneira de me escapulir, de inventar algo, como dizer que a minha mulher está a chamar, e os meus lábios mexem-se, sai som. Ajo completamente segundo o meu desejo, adeus racionalidade. Tento, e consigo, manter sempre a minha pose de pessoa interessante, e misteriosa, escondendo dentro de mim todos estes meus conflitos e... medos. O que se passa é que... fascina-me. Caminho em direcção ao local que sugeriu. Não fica mais longe do que uns poucos passos de onde estávamos, mas tem o (in)conveniente de ficarmos quase completamente escondidos. Sinto o peito arder um pouco.

Ela vem atrás de mim. Pede-me o cigarro, que lhe dou. O contraste entre este e seus lábios pintados de vermelho transporta-me para um qualquer filme. Sacode um pouco o cabelo de seus olhos e olha para mim, com seus olhos enormes, pretos e rasgados, pedindo, com o olhar, um isqueiro. Tiro o meu Zippo prateado e estendo-lhe. Em vez de pegar nele... em vez de segurar o cigarro na ponta dos lábios e acender... Segura na minha mão com ambas, e aproxima os lábios. Consigo quase ouvir o barulho do papel queimar.

Afasta-se um pouco, gira o rosto e solta calmamente o fumo que inspirara. Olha para mim e sorri.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Um Título Qualquer

Não sei bem como começou. Ou porque começou. Bem... Acho que consigo imaginar, supor... Mas fico na dúvida... Foi quando olhei para ela, foi quando falou comigo, foi quando a beijei... Quando foi?
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Sei, suponho, onde foi. Ela apresentava-se, como era costume fazer, imperial. Vestida a rigor, com o seu vestido longo, vermelho, sem costas. Conseguia vislumbrar umas costas alvas, um ou outro sinal para retirar a monotonia, linhas harmoniosas. Segurava uma taça de champanhe, com suas mãos cobertas por umas luvas brancas que acabavam perto do cotovelo, qual donzela do século vinte. Imagino que só lhe faltava um cigarro com boquilha e um pequeno sinal na face. Já eu, aparentemente distraído, circulava pela sala, ora com minha mulher, ora sem ela, ora conversando com este, ora conversando com aquele. O meu olhar pousava de quando em vez em si. Atraía-me aquela imagem, e dava comigo a questionar-me se não teria um qualquer ascendente árabe. Talvez eu próprio quisesse que assim fosse, quanto mais não fosse para explicar o exotismo daquele rasgado olhar.
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Sim, esse olhar. Foi talvez esse mesmo olhar que deu um grande empurrão. Eu falava com um qualquer director, aborrecido, fazendo meu olhar viajar entre os ricos candelabros pendurados do tecto beje trabalhado, rico. Tentava parecer interessado na conversa. Tarefa árdua. Nos raros momentos em que tento olhar para o meu interlocutor, para não o deixar a questionar-se acerca do meu interesse, vejo, por cima do seu ombro, mais uma vez a... donzela. Apenas desta vez, ela olhou de volta. Aquele olhar tomou conta de mim. Desloquei para ela o interesse que eu própria sentia, e senti-me desejado.
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Despacho o... director, e aproximo-me. Na mão, um licor beirão, que me deixava, eu gostava de imaginar, um aroma agradável nos lábios. Cerro um pouco os olhos, cedendo ao instinto da sedução que nos impede a esconder um pouco de nós próprios, e falo. Custa-me chamar-lhe a atenção. Faz-se difícil. Aproximo-me um pouco mais, toco-lhe, suavemente, no cotovelo, e pergunto, cordialmente, quem é. O sorriso que recebo é devastador.
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Fruto desta minha aproximação, consigo sentir o seu aroma... Nuvens? Não quero ser ridículo, as nuvens não têm cheiro. E se tivessem, como poderia eu saber? Num pensamento eventualmente ridículo e adolescente, questiono-me se esse aroma não advinha do facto de eu próprio me sentir um pouco a levitar.
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A conversa flui, e sinto qualquer coisa. Viajo até à pele da minha mulher, e vejo-me, elegante, com um smoking que me assenta perfeitamente, a falar com uma muito mais elegante mulher, e sinto ciúmes. Contudo, não sei porquê, isto apenas me impele a continuar.
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Viajo, de seguida, para a pele da minha... donzela, e sinto desejo. Quero sair dali. Entre graças não fantasticamente conseguidas, surge a sugestão de irmos fumar um cigarro ao terraço. Nega, tem de falar com este, com aquele, com o marido... Como cavalheiro que tento ser, afasto-me. O céu está estrelado, fazendo jus ao mês em que nos encontramos, e está uma temperatura agradável. Saco a cigarreira e tiro um Dunhill.
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Estou quase a acabar o cigarro, preparando-me para, destruindo um pouco mais o mundo, o atirar sob o parapeito da janela, quando ela chega. Sinto uma espécie de vitória. Ela tinha voltado.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

A Mulher do Metro - Parte VIII

Ali estávamos, lado a lado, ela fumando o seu "cigarro de puta", eu fumando o meu JPS. Nenhum de nós abrira o jogo. Permanecíamos calados, concentrados em nenhum de nós sabia o quê. Resolvi ser eu o primeiro a falar.
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- Então dizes que estava recheada não é? Quer dizer que posso esquecer aquele dinheiro não é?...
- Ladrão que rouba a ladrão...
- Não há problema, era dinheiro falso de qualquer maneira... - neste momento roda a cabeça e atira-me um olhar que me diz algo como "hã?".
- Não te preocupes, estou a gozar-te. - E ganho neste momento os meus primeiros pontos, consigo arrancar-lhe um sorriso. Que mulher... Pena sorrir pouco, porque fica ainda mais bela. Por outro lado, quando não sorri fica mais atraente... E não sei que prefiro...
- Então e diz-me tu, a tua VIDA é isto, roubar carteiras no metro?
- Dá-nos cabo dos pulmões não é?... - Passar horas enfiado num metro não é fácil...
- E não sentes remorsos? Nunca foste apanhado?
- Não sinto remorsos, mas escolho quem roubo. E não, nunca fui apanhado. E tu?
- Não - responde, evasivamente - Não faço o que tu fazes, se bem que tenho admitir que me deu um certo prazer roubar a carteira a um auto-intitulado mestre! - Podia dizer-lhe que só me apanhou porque estava deslumbrado consigo... mas nem pensar...
- Pois imagino... Ficas para jantar? - arrisco.
- Não, tenho de ir, tenho um trabalho agora. - Este tenho "um trabalho" deixou-me curioso.
- Um trabalho?
- Sim.
- Posso saber o quê?
- Não.
- Então e vês-me outra vez?
- Agora a bola 'tá no teu campo. - e sai. Veio a minha casa entregar-me a minha carteira sem dinheiro, fumar um cigarro sem cinzeiro, e vai-se embora assim. Estou a gostar. [continua]

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

A Mulher do Metro - Parte VII

- Muito bem!... Quase que me surpreendeste!
- Quase?
- Sim. Sabia que ias querer surpreender, e isso por si só já tira alguma surpresa à própria surpresa. Então achei que ias querer inverter os papéis e ser tu a apanhar-me em casa. Só não achei que conseguisses tão bem espiar-me sem eu dar conta.
- És convencido.
- Claro que sou. - Respondo, à medida que subo as escadas. Conseguira surpreender-me. Imaginei que isso pudesse acontecer. Ou melhor imaginara que ela pudesse lembrar-se dessa opção, mas não pensara que o conseguisse tão bem. Ali estava, boa, muito boa. Tinha o cabelo apanhado, um kispo branco e pequeno e umas calças de ganga azul escuro coçadas. De cada vez que a via, parecia saída de uma revista. Como será sem roupa. Alarme, talvez meus olhos estejam demasiado perto do meu pensamento, não posso deitar a perder tanto treino de fingir emoções e enganar sentimentos. Consigo parecer triste estando felicíssimo, e aparentá-lo, estando miserável. Adoro treinar estas coisas em mim. Isso fez de mim um mestre em relações inter-pessoais.
- Onde vais? - Pergunta, à medida que abro a porta do prédio. Cheira bem.
- P'ra casa. Queres entrar?
- Não te falta nada? - Pergunta, com uma voz desinteressada. Neste momento deito tudo a perder. Uma pessoa com o carácter e firmeza que já demonstrou ter é alguém que possivelmente reagirá indo embora e nunca mais aparecendo ao que faço.
- Falta. - Respondo, à medida em que entro no prédio, deixando-a sozinha na entrada. Abrando o passo... e relaxo, ouço o seu tacão fino pisar a madeira da entrada do edifício.
- Sobe. - Sugiro. Entro no apartamento, deixando a porta aberta, e sento-me na mesa em frente à mesma, a uns três metros. Estou sentado confortavelmente, de lado, um cotovelo apoiado na mesa de verniz escuro, uma perna cruzada sobre a outra. Acendo um John Player Special. Ela entra, lentamente. Atira a minha carteira, que vem rodando e cai sensivelmente no meio daq mesa.
- Estava bem rechada. - Diz, enquanto acende ela própria o seu cigarro. É todo branco. Esboço um sorriso matreiro, enquanto me passa pela cabeça a expressão tantas vezes usada... "cigarro de puta"...
- Cigarro de puta, não é? - Uau! Quase fico engasgado!
- Se tu o dizes.. Quem sou eu para negar. - Atiro como resposta, como meu sorriso desarmador. Não desarmo.
- Vê lá se não é mesmo. - Responde, puxando de uma cadira e sentando-se, também confortavelmente, na outra ponta da mesa. [continua]