terça-feira, 12 de agosto de 2008

Positivo [Estória Experimental]

Um dia, o Positivo matou-se.

- É um dia triste para todos nós – anunciou a jornalista – Foi encontrado morto em sua casa… Paulo Olívio Soares Ilha, mais conhecido pelo povo português como o Positivo. Tudo indica que terá cometido suicídio…

- Profissão? – perguntou a senhora do ginásio, ao preencher a ficha de inscrição de Positivo.

- Técnico de Vibrações Positivas. – respondeu o mesmo. A empregada olhou para si com cara de não-sei-o-que-é-isso-mas-deve-ser-uma-engenharia-qualquer, e acabou de preencher a ficha uns minutos depois. E o que era, na verdade, isso de Técnico de Vibrações Positivas?...

- Então e que fazes? – perguntou a senhora, enquanto fazia o gelo rodar e se diluir no Martini Rosso, visivelmente interessada em Positivo.

- Sou Técnico de Vibrações Positivas! – respondeu o personagem desta estória, à espera que a sua companhia lhe perguntasse o que isso era.

- E isso é o quê?

- Basicamente, espalho energia positiva… Trabalho para o governo. Este recebe pedidos de instituições sociais, como orfanatos, comunidades terapêuticas, hospitais, entre outros, para eu passar uma ou duas semanas a trabalhar com eles… o governo envia alguém para aferir a situação e ver quem mais precisa de mim, e eu vou… – respondeu… pela milésima vez na sua VIDA… a cara que recebeu como resposta à sua resposta foi a mesma que já recebera no passado, não mil vezes, mas muitas mais – Não, não sou nenhum bruxo, nem nada do género. Sou normal. Quer dizer, não sei se será bem isso, mas simplesmente sou bom em pôr as pessoas… numa boa onda. E passo uma ou duas semanas (três, em casos excepcionais) em instituições cujo ambiente esteja, ou à beira de rotura, ou com muitos mal entendidos, entre outras coisas, e geralmente consigo aligeirar um pouco, algumas vezes muito e outras completamente, o ambiente… Não faço nada de especial, nem sei porque se passa isto…

Nessa noite, o Positivo levou a sua companhia para casa, e ambos libertaram muita energia. Nessa noite, o Positivo explicou a sua profissão uma das últimas vezes. Não porque foi antes de se suicidar, não foi isso. Mas porque foi pouco depois do governo ter reconhecido, pela primeira vez na história do mundo, a profissão de Técnico de Vibrações Positivas. Após muita resistência por parte deste organismo, e de muita insistência, não de Positivo, que não se importava do nome que lhe davam, mas das instituições que reconheciam o seu trabalho, o governo cedeu, e criou esta profissão, que não só não existia, como dito, em mais nenhum país, bem como era a única profissão no mundo apenas com um profissional. E realmente é estranho… Técnico de Vibrações Positivas…

Tudo começou muito cedo. Não a sua profissão, claro, mas o facto das pessoas perceberem que havia algo de diferente com Paulo. Sempre fora uma criança muito simpática, sabia dizer a palavra certa no momento certo e até as suas palavras erradas era no mesmo momento, o certo. Contudo, talvez o seu maior trunfo fosse esse sorriso. Tinha um rasgado sorriso que irradiava alegria e bem-estar. Claro que apesar de tudo começar muito cedo, ninguém adivinharia que ele, um dia, faria disso uma profissão. Apenas o viam como alguém muito simpático e divertido. Não era melhor, nem pior, que os outros, não era muito mais inteligente, simplesmente era mais… qualquer coisa… qualquer palavra que quem sabe não exista, assim como a sua profissão não existia. Se bem que… positivo, sim, é simples e existe. Fiquemos com positivo. Simplesmente era mais positivo.

Chateava os seus pais, como qualquer pré-adolescente o faz, chateava-se com os seus amigos, como qualquer adolescente o faz, e cometia estupidezes com as suas namoradas, como qualquer jovem adulto o faz. Mas, de uma maneira ou de outra, tudo sempre se recompunha, e nunca quebrava relações com ninguém, a menos que estas se desvanecessem lentamente com o tempo e distância. Mas nunca com uma ruptura. Porque não o queria, e porque, sem o saber, fazia com que os outros também não o quisessem. Costumava dizer aos seus amigos, nos últimos tempos da sua VIDA, em que beijava sorrateiramente a ternura dos quarenta, que talvez tenha ficado pela fase de jovem adulto, e fosse isso que o fazia tão… positivo.

Claro que todas as qualidades são fruto de inveja. Todas. Não por toda a gente, mas haverá sempre alguém que inveja a beleza da Joana, a inteligência do Joaquim ou o dinheiro do Júlio… e, para dizer a verdade, toda a gente invejava esta influência positiva que Positivo tinha com as pessoas. O que é mais curioso é que invejavam a qualidade, mas ficavam por aí, não conseguindo sentir algum tipo de sentimento negativo pelo personagem. Havia quem o quisesse odiar, mas quando na sua presença, duas palavras e três sorrisos subitamente pareciam relativizar as coisas e tornar o ar mais fácil de ser respirado…

Mas um dia, o Positivo matou-se…

Vamos sabendo, ainda que com breves frases (pois isto será uma estória e não um romance) como começou a sua estória. Mas como continuou a mesma?

Sendo que as pessoas tão bem se sentiam na presença de Positivo, este não teve grandes dúvidas acerca do seu futuro. Faria isto de profissão. Seria um psicólogo. Os seus pais torceram o nariz. Tinham outros planos para si, mas a sua mente estava decidida. O seu percurso na universidade foi o dum típico estudante. Ia passando, por vezes boas notas, outras vezes nem por isso, uma queca aqui, uma queca ali, e quando deu por si, tinham passado cinco anos e na sua mão pousava um canudo… que não era um canudo, mas uma folha normal… canudo soa sempre melhor, ainda que o escritor esteja a estragar tudo referindo-o… “Txi, foda-se, para onde foram estes anos todos?...” – perguntava-se Positivo, sem saber o que responder a si mesmo. Era tempo de procurar por emprego, e enfrentava tal empreitada com dificuldade. Não o dizia a ninguém, pois sabia que ninguém compreenderia mas na verdade, sabia que seria favorecido por ter esse… talento. Efectivamente, custara-lhe admitir de si para si, que tinha um jeito especial com as pessoas, mas uma vez que o fez, prometeu a si mesmo que não o utilizaria para benefício próprio. Se algum tempo demorou a aceitar a sua qualidade, muito menos tempo tardou em perceber que o que prometera a si mesmo era impossível de cumprir. Percebeu-o certa noite, no Porto, em que tentava seduzir uma rapariga aparentemente inacessível, mas que eventualmente… aconteceu. E isto deixa-nos na posição ideal para explicar um pormenor acerca do falecido. O seu talento não era o de seduzir. Não era um sedutor. As pessoas sentiam-se bem quando consigo, apenas isso. Os sedutores fazem com que as pessoas se sintam, muitas vezes, algo que não são. Um pouquinho mais bonita, muito mais inteligente, etc. Positivo apenas fazia com que as pessoas se sentissem bem. É simples, não há, na verdade, muito mais a explicar. Pois estava o personagem com esta rapariga, chamemos-lhe, Júlia, e ao sentir a resistência da mesma baixar, pensou se estaria a “usar” o seu talento para a conquistar… estaria? Não sabia. Portanto, qual a única coisa que poderia fazer? Ir embora. Claro que não o fez, e nessa noite houve muita energia de cada um para o outro…

Continuando, não foi difícil encontrar emprego pois acabou por ser convidado para trabalhar no sítio onde tinha estagiado. Um orfanato, para ser mais preciso.

- Pá, isto já não era o mesmo sem ti…

Passou-se um ano, passaram-se dois, e quis o destino… ou melhor. Quis a inevitabilidade das coisas, já que teria de acontecer mais cedo ou mais tarde, que alguém de fora reparasse no talento de Positivo.

- Ele é tão simpático! Mas não é graxa, percebes?

- Sim, sim Julieta! E então?

- Olha, fofa, e então – respondeu Jacinta, sacudindo a farinha do seu pastel de feijão. Estavam sentadas na sala de chá da primeira, envergando os seus vestidos aos quadrados que, em conluio com o penteado, presenteavam quem tal teatro observasse, o cliché do que é ter irmãos com filhos – acho que ele é a pessoa ideal para discursar na nossa festa de angariação de fundos! – podíamo-nos questionar se foi aqui que alguém colocou um revolver na mão de Positivo, e o disparou, à Kurt Cobain, debaixo do queixo… mas não terá sido… Aconteceria mais cedo ou mais tarde. Quis isso a inevitabilidade.

Escusado seria dizer, foi um sucesso. Claro que este talento de Positivo não era algo que se espalhasse às massas, portanto os seus ouvintes, apesar de gostarem do personagem, não se sentiram de imediato completamente cativados. Isto, claro, até que o foram cumprimentar, e por uns largos minutos não conseguiam sair da sua beira…

- Foda-se ó pá, ‘tás popular! – disse Jaime, num dia de Outono. Positivo estava no quarto-de-banho a defecar, e por isso o seu amigo e companheiro de trabalho teve de gritar.

- O quê?

- ‘Tava a dizer que ‘tás popular! – repetiu Jaime, quando Positivo voltou da casinha.

- Então?

- Nesta semana chegaram duas propostas para duas palestras e uma outra para visitares um orfanato em Vale de Cambra.

- Vale de Câmara?

- Cambra!

- Isso é onde? – perguntou Positivo, realmente curioso.

- Sei lá ou o caralho… Ah, espera, diz aqui que pertence a Aveiro…

Positivo percebia, e não percebia o porquê destas chamadas, que rapidamente se tornaram numa constante. Percebia, pois conhecia a sua arte, mas não percebia… bem, porque talvez não quisesse perceber… Tentava ir sempre, pois era algo que o apaixonava, poder contribuir para o bem-estar de crianças que tinham tido menos sorte que os demais.

Dividir o seu percurso em passos torna-se complicado, pois pode ser difícil escolher que acções terão sido passos ou não. Mas se trabalhar foi o primeiro, ser convidado para a primeira palestra, o segundo e convidado para visitar outras instituições, o terceiro… o quarto terá sido quando Positivo foi convidado, pela primeira vez, para passar três dias numa instituição que não um orfanato.

- Orientação de estagiários no Apoio à Vítima?? Que caralho é que tens a ver com isso? – perguntou Jaime, a rir. Jaime abria sempre o correio de Positivo, que não se importava. Jaime era assim.

- Sei lá pá… – mas sabia… “Começou…”, pensou, no mesmo instante. Não sabia se estava contente ou triste. Sentia a pressão em si, e não sabia se tudo aquilo fazia muito sentido. Colocava a si mesmo a questão que, alguns anos mais tarde, muita gente viria a colocar. “Sou um bruxo ou quê?...”. Foi lesto, feliz, ou infelizmente, em descartar esta hipótese. Pois facto é que não disse que não àquele convite, tampouco aos outros que começaram a chover, já não apenas no seu consultório, nas mãos de Jaime, mas também na caixa de correio de sua casa. Sentia cada argumento como uma desculpa reles. Sabia a verdadeira razão por detrás de tudo, mas admiti-lo, ou sugeri-lo… tinha medo da maneira como o poderiam julgar. “Quem é que tu pensas que és?” ouvia os seus ouvidos dizer para bem dentro da sua mente.

Assim, semanas eram planeadas em que Positivo, tentando fazer o máximo que podia sem faltar ao seu trabalho no orfanato, encetava tarefas como orientação de estagiários, sessões de esclarecimento de relações interpessoais (umas das célebres desculpas), supervisão, entre muitas outras. Como dito, permanecia no orfanato, e isso obrigava-o a fazer todo este trabalho extra em horário pós-laboral, nos fins-de-semana ou então, porque tinha de ser, faltando…

Eis que o quinto e penúltimo passo… não… se pintar o tecto do seu quarto de vermelho-sangue foi o último, este quinto passo terá sido o antepenúltimo… eis que o quinto e antepenúltimo passo da sua VIDA nos termos em que está a ser contada se aproximava gigantemente, até que o abraçou, e fê-lo duma maneira tão forte, que Positivo não teve como dizer adeus. Nem quis. Recebeu uma carta do Ministério da Saúde a pedir uma audiência. Dessa vez não penso “Começou”, por duas razões. A primeira, prende-se com o facto de que tudo tinha já começado e a segunda com o facto de nunca ter antecipado o que lhe ia ser proposto. Daí ter ficado quase tão surpreso como ficou quando, alguns anos mais tarde, lhe propuseram a atribuição do estatuto de Técnico de Vibrações Positivas.

- Gostaríamos que abandonasse o seu posto no orfanato e trabalhasse directamente para o Ministério da Saúde. – propôs o engravatado.

- Hã? Como? A fazer o quê? – perguntou Positivo, que estava de ressaca, por acaso.

- Como Supervisor de Rendimento. Todos os meses vai estar em sítios diferentes, sem fugir muito à sua zona de residência. Isto é, viajará por toda a Delegação Regional do Centro. Quero dizer, todos os meses damos-lhe o seu plano, consoante o sítio onde achemos que seja necessário intervir. Que diz?

- Hum… não sei… nem sabia que isso existia…

- Mas existe…

- Então… mas seria mais ou menos o que já estou a fazer, mas a tempo inteiro, certo?

- Mais ou menos…

- Então… porque é que me estão a pagar três vezes mais? – perguntou Positivo, olhando para o contracto que aguardava, impacientemente, a sua assinatura. Os engravatados riram entre si e tentaram partilhar o mesmo riso com o personagem, que lhes devolveu uma pergunta muda.

- Bem… – começaram, percebendo que estava a ser genuíno – Você está, para todos os efeitos, a subir na carreira.

Positivo começou então esta nova etapa na sua VIDA. Todos os meses davam-lhe um novo roteiro, de todos os sítios que teria de visitar. As desculpas, ou pretextos, para a sua visita apresentavam-se de todas as formas. Seminários, orientação, supervisão, entre muitos outros, e o nosso amigo fazia das tripas coração para dar o melhor de si, e isso, felizmente, funcionava. Porém, é justo dizer que não eram raros os dias em que chegava a casa completamente esgotado. Por vezes chegava ao seu apartamento nos arredores de Lisboa, por volta das 20h, e ia directamente para a cama, sem sequer jantar. A sua conta bancária, satisfeita, dava a ilusão que tudo corria bem, apesar de Positivo raramente ter oportunidades de gastar o imenso dinheiro que ganhava. Estava a ficar rico, mas o dinheiro sentava-se, imóvel, pedindo um pouco de contacto, que o personagem não tinha oportunidade de dar. Assim andou por uns três ou quatro anos, até que as diversas instituições que visitava, cansadas das desculpas que tinham de inventar, e cansadas da maneira como poderiam rentabilizar tão mais a presença de Positivo se este não tivesse de se ocupar com actividades fachada propostas pelas mesmas, começaram a pressionar o Ministério para a atribuição de um novo estatuto para Positivo. Inicialmente, pediam apenas para que trabalhasse como um agente livre, que fizesse o que, na hora, achasse mais conveniente junto de cada instituição. O governo, obviamente, não queria dar esta liberdade. Muito a explicar a muita gente, não se poderia simplesmente ter alguém como agente livre, era necessário um monte de papelada a explicar as funções deste indivíduo.

Certo dia, os pássaros preparavam-se para abandonar Portugal, com suas malas feitas e despedidas agendadas, João, director dum CAT em Torres Vedras, enquanto tomava uma Água Castelo com gelo e uma rodela de limão, teve a ideia que nós conheceremos como o penúltimo passo na VIDA de Positivo.

- Técnico de Vibrações Positivas? Você está a brincar connosco? – perguntaram os engravatados. Eram uns cinco ou seis, sentados em fila, cada um com a sua pasta a seu lado, como o estereótipo assim ordena.

- Não estou a brincar – retorquiu João – Toda a gente sabe que é isso que ele faz! Ele tem uma técnica qualquer que ainda ninguém conseguiu descortinar e que deixa, simplesmente um melhor ambiente onde quer que vá! – e pronto, foi o início desse longo processo que, após um ano e meio se deu mais ou menos por concluído. Mais ou menos pois durante outro meio ano seria uma experiência. Mas “first things first”, como diriam os nossos amigos ingleses. Não soa tão bem em português… as primeiras coisas primeiro…

- Técnico de quê?? – perguntou, abismado, Positivo, naquela noite. Estava sentado em sua casa a ver televisão, e tinha acabado de receber a visita de João, alguém com quem trabalhava frequentemente, mas de quem não era, propriamente, amigo. Daí que tenha estranhado o convite que João fez a si mesmo de aparecer. Tinham passado seis meses desde a visita deste aos engravatados. Apesar de, como sabemos, ainda terem mais doze meses pela frente antes da aceitação, esta pessoa empreendedora começava a perceber que era uma possibilidade, e só aí contactou Positivo, que permanecera, até então, na mais escura sombra no que a este assunto diz respeito.

- Sim! Vá, você sabe que é verdade, por isso não se faça de surpreendido! Ouça, eu ando em negociações com aqueles gajos há meses, e hoje demos um passo gigante pá, eles ‘tão a pensar avançar com isto… – disparava, entusiasmado, João. Positivo, sentado no seu sofá, num dos poucos momentos que tinha livres, bebia uma cerveja, comida tremoços, e via o Benfica-Estrela. Via, pois deixou de ver. Mesmo depois de João ter abandonado o seu apartamento, os olhos do personagem continuaram pregados ao pequeno ecrã, mas a sua mente apalpava terreno um pouco por todo o lado, digerindo a novidade. “Técnico de Vibrações Positivas… foda-se…”, pensava, incrédulo. Estava contente, mas estava renitente. Tinha medo. sentia-se bem em ajudar, mas nos últimos tempos chegava a casa um pouco cansado de dar o melhor de si. Pois afinal de contas, e não obstante o seu talento, também se sentia triste, por vezes. E quem é que uma pessoa triste anima? Ninguém, a menos que falemos daquele grupo de pessoas cuja maneira de se animar é sabendo que há alguém numa pior situação… E como, para a maioria das pessoas, uma pessoa triste não é muito animadora, Positivo dava o melhor de si para contrariar os seus próprios sentimentos, encenando sorrisos, encenando a sua própria realidade interna.

À medida que o tempo passava, Positivo sentia a energia crescer ao seu redor. Não a energia que ele, ok, espalhava, mas a energia, o fulgor de todos com quem trabalhava que, conscientes do processo por que Positivo passava, não podiam esperar pelo novo estatuto. Se nesses momentos sentiam a ajuda incrível do nosso amigo, ainda que “desperdiçando” o seu tempo com meros… ensinamentos, a ideia do que poderia acontecer, do que poderiam receber uma vez que a sua única função fosse melhorar o ambiente estava para lá dos seus sonhos…

Assim, uma belo dia, em que os pássaros permaneciam calados, Positivo, ao chegar a Santarém, onde daria uma acção de formação sobre ética do trabalho, vê, na instituição que visitaria, um número anormal de carros. Mais, muitos mais. Entra, não vê ninguém… sobe a escadas, respira fundo e, ao abrir a porta, vê largas dezenas de pessoas, que desatam a gritar “parabéns”! Tinha acontecido. Ele percebeu de imediato, questionando-se como o Ministério poderia alinhar em algo assim, e deixou-se levar pela euforia que via ao seu redor, festejando… sem perceber que as pessoas ao seu redor muito mais alegres estavam com a novidade do que o próprio Positivo.

- Como é que foi isto tudo, pá? – pergunta Positivo a João. Estavam na varanda do Centro de Saúde de Santarém a fumar um charuto trazido pelo amigo.

- Olhe…

- Olha… já é alturinha de nos tratarmos por tu, não achas? – interrompe Positivo, com um sorriso.

- Ok, ok. Pá é o seguinte… como te fui dizendo, fomos batalhando com o Ministério para que te libertasse de todas essas tretas que andavas a fazer… ok, ok, eram, e são importantes – corrige João, devido ao olhar de Positivo – mas a questão é que qualquer pessoa as pode fazer… Sendo assim marcamos várias sessões com os gajos, em que vinha sempre alguém diferente, duma instituição diferente, servir, vá lá, como uma testemunha do teu desempenho… Eles aceitaram, mas estamos com rédea curta…

- Como assim?

- Todos os sítios onde fores vão ser alvo de monitorização… vão passar testes de rendimento antes e depois das tuas visitas, fazer entrevistas, visitas surpresas, etc… Isto porque os primeiros seis meses serão um período experimental… Ah, e os gajos da televisão querem falar contigo! – alertou.

- O quê? ‘Tás a gozar! Para quê?? – perguntou, incrédulo, o nosso amigo a poucos minutos da fama…

- Que é que achavas? Que o Ministério cria uma posição que não existe em mais lado nenhum no Mundo e ninguém vinha fazer perguntas? Não marquei nada por ti, mas não estranhes se amanhã fores interpelado por eles no Ministério.

- Que é que eu vou fazer ao Ministério? – perguntou o personagem.

- Foda-se pá, parece que andas na lua. A partir da próxima semana tens uma profissão nova! Não sei quanto vais ganhar, mas tenho a certeza que vão ser balúrdios, cabrão… Mas isto para dizer que o resto desta semana tens não sei quantas reuniões no Ministério… – largou João. Positivo não conseguia perceber como tudo isto acontecera à sua margem… Nem imaginava que tal fosse possível. O que é certo era que, se dependesse de si, manter-se-ia como Supervisor de Rendimento, ou mesmo “mero” psicólogo. Afinal de contas, quem era ele para se achar digno da posição de Técnico de Vibrações Positivas?... São tempos estranhos…

Esses 6 meses de experiência acabaram por se resumir a 4 até que a nova posição de T.V.P. foi oficialmente admitida. Facto é que os dados obtidos através do inúmeros testes foram muitos reveladores do desempenho de Positivo. Tanto que muita gente no Ministério chegou a pensar que se tratava de resultados arranjados, pelo que convocaram inúmeras reuniões e entrevistas com as pessoas com quem Positivo trabalhava, como forma de averiguar a veracidade dos resultados obtidos. Reuniram-se também várias vezes com o personagem, factor que muito influenciou para o aceleramento de todo o processo.

Tudo isto resultou numa mediatização que nunca esperou acontecer. Era convidado várias vezes para falar na televisão, tinha uma rubrica semanal numa estação de rádio e os convites para visitas a instituições inundavam a sua caixa de correio. Tinha acordado que apenas seguiria aqueles que o Ministério encaminhasse, pelo que lhe custava ter de dizer que não a alguns. Porém, sem muita gente saber, lia todos, e por vezes não conseguia resistir a aceitar. Era um erro, era sempre um erro, mas um erro que ele cometia várias vezes. Era um erro pois havia sempre alguém que sabia, e quando confrontado com uma rejeição, trazia ao assunto a visita não oficial de Positivo a determinado sítio… Além de toda esta comoção tinha, quase todos os dias, ao chegar a casa, pessoas à sua espera, que queriam tomar café consigo, conversar, muitas vezes entrar… A sua VIDA estava a acontecer a uma velocidade impressionante, e quando deu por si, estava a trabalhar uma média de 14h por dia… Isto pois, como não podia estar com toda a gente a toda hora, decidiu abrir um consultório. Recebia grupos de pessoas não muito grandes em blocos de 45 minutos, quinzenalmente, e cobrava cerca de um terço do que outro psicólogo cobraria. Mas era demasiado.

Dava o máximo que podia de si, tinha sucesso, todo o sucesso que alguém pode desejar, e pelas melhores razões, pois este advinha do simples facto de tornar as pessoas ao seu redor mais felizes, a sentirem-se melhor. Contudo, sentia que nunca era o suficiente. A cada dia tinha mais pessoas a pedirem a sua presença, pedidos esses a que Positivo continuava a aceder muito mais do que deveria… Por isso, ia deixando de viver a sua alegria que tanto o caracterizava, de si para si, vivendo com um sentimento latente e constante de um cansaço perturbador e pesado. Passava os seus dias esquecendo a dor e ausência de prazer que sentir dentro de si, empurrando para o fundo estes sentimentos, para que pudesse assim ser o melhor, apesar de único, a fazer o que fazia… Progressivamente ia deixando de sentir prazer em ajudar as pessoas, em fazê-las felizes, pois a cada vez que observava um resultado do seu trabalho, os pedidos multiplicavam-se e a constatação da miséria que existia ao seu redor e que, nem ele nem provavelmente ninguém, conseguiriam concertar era demasiado massacrador. Não se permitia sonhar, pois a realidade das coisas era demasiado óbvia…

Por isso um dia, o Positivo matou-se.

Abandonou o Hospital de Setúbal nessa tarde… o sentimento de dever cumprido era algo que já não conhecia muito bem. Da viagem de 4 minutos até ao seu carro, 3 pessoas o interpelaram. Não conseguia, não tinha tempo. Tinha, a começar no espaço de uma hora, em Lisboa, sessões de terapia de grupo que se arrastariam até às 21h.

Quando saiu do seu consultório, a ideia de que não teria ninguém à sua espera em casa seria, por um lado, perfeita, e por outra a constatação da VIDA horrível que vivia… por um lado, pensava em não ter ninguém à sua porta de casa a pedir minutos do seu tempo, o que seria bom e relaxante, uma vez que fosse… por outro lado, pensava em não ter ninguém à sua espera dentro de casa, apenas o pesado vazio, o pesado sentimento de solidão que preenchia os poucos momentos em que estava sozinho. A VIDA que levava não lhe permitia manter uma relação. Sem o saber, Positivo tinha optado, fazia muito tempo, em fazer as pessoas ao seu redor felizes, antes de se fazer a si mesmo. Pensou, ingenuamente, que tudo seria possível, mas não foi.

Assim, chegou a casa nessa noite, e as paredes relembravam-no constantemente que mais ninguém ali esperava por ele. O pensamento bailava na sua mente, como tantas vezes antes o tinha feito. Em tantas vezes antes, Positivo fez tudo menos puxar o gatilho. Os rostos dos seus colegas, das crianças com quem trabalhava costumavam fazê-lo parar. Ninguém sabe, nem saberá o porquê de, naquela vez, não o terem feito. Positivo chorava, sentado na sua cama, com o cano encostado à sua pele. A dor era demasiado forte, e sentia-se esgotado, sem forças, sem Energia…

No dia seguinte ao anúncio que chocou Portugal, a mesma jornalista, anunciando o funeral duma das pessoas mais queridas do povo português, concluiu a notícia que tinha dado no dia anterior.

- Confirma-se que Positivo, Paulo Olívio Soares Ilha, cometeu suicídio. As autoridades não quiseram adiantar mais quanto ao método, mas vizinhos falam de terem ouvido um disparo. Podemos ainda dizer que… – voz treme e esforça-se por não chorar. A mesma jornalista tinha, certa vez, entrevistado a fantástica pessoa que fora Positivo… – Junto do corpo de Positivo foi encontrado um bilhete dizendo apenas… “Sempre tentei dar tudo o que podia. Mas devia ter dado apenas tudo o que podia”.

FIM

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Viver

Vejo o espanto nos olhos da pessoas ao meu redor como o meu motor, aquilo que me dá energia para continuar… é-me difícil, por vezes… tantas vezes… acompanhar as expectativas que deixam em mim, e isso materializa-se numa vontade cruel de dar dois passos e comprar um grama. Incrível como aquilo que funciona como motor também, ao mesmo tempo, tanto nos pode desacelerar…

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Sento-me no sofá, vejo as pequenas nuvens provenientes do chá, que arrefece, e penso nisso. Sei que não o vou fazer, mas, não sei porquê, quero imaginar que sim. Vejo-me a sair, olhar à volta para ter a certeza que não sou seguido, chegar à estação central, e apenas pedir meio grama a Magnus. Não preciso de dizer mais nada. Não preciso de lhe dizer que tipo de droga quero, não preciso de lhe dizer para não me enganar, não preciso de mais nada senão a mera frase e um par de notas… Vejo-me a sentir a adrenalina expectante, pelo que se avizinha a um par de minutos, nascer dentro de mim, proporcionando-me um prazer quase tão gratificante como o efeito da droga propriamente dito. Entro na estação, deixo 5 coroas na máquina, e vejo as portas do quarto de banho a abrirem-se. Vejo-me a pensar no quão quero usufruir o momento, e volto para o exterior, onde fumo um cigarro, para que tudo esteja como deve estar, e para poder ficar no quarto de banho o tempo que me apetecer. Vejo-me a voltar a entrar, a ignorar a cara que o porteiro faz, fechar a porta, arregaçar as mangas. Tiro o cinto, aperto-o no braço, até ao ponto em que dói e fica roxo. Pouso os óculos no chão, num sítio que não me faça, daí a uns minutos com o equilíbrio a menos de 100%, os pisar. Tiro a agulha do invólucro, faço a sopa, e vejo-me a entrar naquele pico que me deixa num outro lugar, num outro lugar onde… tudo não é melhor, mas tudo não é o que é aqui. Aquele lugar que dura apenas um determinado período de tempo. Vejo-me a encostar-me para trás e a entrar em prazer indescritível. Vejo o tempo passar, e vejo-me sair do quarto de banho. A cara do porteiro… não a consigo ignorar... vejo-me a pensar no quão filho da puta que ele é, e apetece-me matá-lo. Saio, vejo o sorriso de Magnus e apetece-me atirá-lo para a frente do metro, por ter agitado diante do meu nariz o produto! Mas então?... Vejo-me a pensar nos últimos dois anos… na última vez que consumi, uma semana antes de ir para a desintoxicação, um mês e qualquer coisa antes de ir para a Comunidade Terapêutica. Vejo a cara dos meus colegas de recuperação, dos que tiveram sucesso e dos que não tiveram, e vejo o seu olhar de desilusão, que compete com o meu inexpressivo, em completo desalinho com a miséria e vontade de desaparecer que vai dentro de mim. Estupidamente, vejo-me a querer consumir, comprar mais, apenas para que não sinta esta vergonha que se abate sobre mim. Vejo-me a ligar aos meus pais, perguntar como vão as coisas, e dizer que gosto deles… apenas numa tentativa completamente frustrada de me mostrar que sou um bom filho, que me preocupo, e que nada muda apenas com um consumo. Vejo-me a, antes de ir para casa, comprar uma garrafa de vodka, que sei que vai acabar nessa mesma noite. Vejo-me a pensar que não tem mal algum, pois é o que toda a gente faz de vez em quando, beber um copo… vejo os dias passar e não sei se me vejo no dia seguinte a ir outra vez ter com Magnus, se a beber uma garrafa de vodka todos os dias, se a ter uma overdose, se a me suicidar mais tarde, se a entrar em outro tratamento onde terei, mais uma vez, de conviver com os erros que cometi e nunca deveria ter cometido… quando tudo estava na minha mão, quando não podia já culpar a minha má infância, os meus momentos difíceis… consegui falhar de novo… vejo o peso desse falhanço ser demasiado pesado para ter de o enfrentar todos os dias, e vejo-me a desaparecer, um dia, do tratamento, acabando a dormir, completamente pedrado, num passeio de Oslo. Vejo-me a acordar e não conseguir lidar com a cara das pessoas que passam que, não conseguindo mentir, me mostram o lixo em que estou… vejo tudo isto e muito mais, num ciclo vicioso de falsas razões, pretextos e antecedentes que acabam por ser consequentes, consequentes que antecedentes acabam por ser, tudo num circulo interminável que me leva à morte, destruição… ver a minha VIDA passar ao meu lado sem que eu faça algo…

~

Dou um gole no chá preto, e sinto a vontade de viver isso tudo. Penso na razão por que o sinto, e não consigo, como nunca consegui, encontrá-la. Apesar de tudo, penso na maneira como aprendi a viver com esta grande questão e escolho… viver…

sábado, 19 de julho de 2008

Godelieve 50

- Não sei se bebemos um whiskey ou partimos já… – diz-me, após os nossos lábios negociarem tréguas. O calor que sentia dentro de mim impelia-me para desaparecer no mesmo momento, fosse para onde fosse, mas a certeza que nessa noite era apenas minha, e o conforto do lugar onde me encontrava pedia-me para ficar um pouco mais.

- Se podemos ter tudo, porquê escolher? Vamos ficar, beber um whiskey com calma… adiar o… prazer. – sugiro, com um sorriso que levanta outro no seu olhar.

Porém, vê-la diante de mim, vestida, era demasiado pesado. Esperar segundos que pareciam horas revelava-se difícil, na ânsia de ter na minha mão as horas que pareceriam segundos. Não tinha dúvida nenhuma que, pelo menos nesses momentos em que a tinha a uma palavra de distância, não sentia nada a não ser paixão e um amor doloroso. Saborosamente doloroso. Os conflitos dentro de mim apontavam todos no mesmo sentido. Rebentar e agarrá-la, grudar-me ao seu corpo e explodir.

- E se não nos tivéssemos conhecido? – pergunta-me. Não sei. Ou sim, sei. Sei o que seria de mim se não a tivesse conhecido. Seria a pesada leveza de espírito que apagava o meu ser.

- Não sei nada de quem eras… até pouco de quem és. Mas eu sei quem – não – fui e vejo essa pessoa a planetas de distância… – dou uma passa no milésimo cigarro. Por culpa da Mestiba, Porto, champanhe, o mundo passa diante dos meus olhos a velocidade cruzeiro.

- Fala-me disso…

- Não quero…

- Porquê?

- Porque tenho de prestar tanta atenção a partes da minha VIDA que já não existem? Sinto isso como passar horas e horas a analisar um sonho sem sentido! Só gosto de pensar no meu passado para perceber como o presente é tão melhor…

- Mas eras… miserável?

- Não, e o problema é precisamente esse… – sinto que não me compreende. Para dizer a verdade as palavras saíram mais rápido do que planeara, pelo que eu próprio me senti confuso, com dificuldade em me organizar – Nunca me sentia miserável. Apenas ligeiramente alegre, ou ligeiramente em baixo… como se fosse proibido ultrapassar estas marcas, como se fosse proibido alcançar algum extremo alguma vez… não sei que te diga, é uma dormência constante, um não-ser…

- E comigo?

- Contigo… o que sentes tu quando comigo? Porque guardas tanto as tuas reacções?...

- Que queres dizer com isso?

- Sinto como se estivesses constantemente noutro plano… Com tudo sob controlo… e o facto de saber que é impossível alguém ter tudo sempre sob controlo deixa-me confuso… a não ser que realmente aches que sim, que tens tudo debaixo do teu radar…

- Dizes, então, que é impossível ter tudo sob controlo? – pergunta. Sinto como se esta questão tenha como única função criar o caminho para a verdadeira ideia.

- Sim, acho que sim. – revelo.

- Eu também acho. Mas ao mesmo tempo essa certeza que manifestas é estranha. Como podes ter tanta certeza acerca do poder de alguém, da perfeição e eficácia como alguém pode fazer alguma coisa? – talvez Godelieve seja a prova que estou errado, pois apanhou-me perfeitamente. Atrevo-me a dizer que… tinha a conversa sob controlo.

- Tens razão, não posso. – penso – Ou será que posso?... – está confusa – Sim, claro que posso… - estou confuso – Posso ter a certeza do que me apetecer. Qual é a pior coisa que pode acontecer?

- Estares errado…

- Precisamente. Mas aí está a grande questão… – ouço algumas pessoas começarem a abandonar o local. Não me parece o tipo de sítio que tenha horas para fechar, por isso não me preocupo – Se eu continuasse a viver da maneira em que vivia, estar errado seria terrível. Mas já percebi que estar certo acerca de algo, na maior parte das vezes, é relativo e não vale o esforço…

- Assim como a tua própria afirmação, agora mesmo, é relativa… Para um pessimista, estar errado é óptimo! – remata, divertida, mas com convicção. Adoro-a.

- Aí está! Mas diz-me uma coisa… Foi de propósito que mudaste de assunto, ou simplesmente aconteceu? – pergunto, tendo uma vez tomado consciência do que se estava a passar.

- Que achas?

- Acho que não estou em nenhum psicólogo, e que não tens de me devolver as questões a toda a hora… – o meu olhar é sério. Sinto que começo a encurralá-la um pouco, e isso agrada-me.

- Porquê? – ri abertamente – Estou a brincar. Mas não sei que te responder, é só isso… mudei de assunto de propósito ou aconteceu?... – diz, de si para si, baixinho.

- Porque não dizer a verdade?...

- A verdade é aborrecida… procurá-la até é divertido, por vezes. Mas a verdade em si nada tem de especial. Geralmente traz consigo essas certezas de que falamos… e qual a piada de ter a certeza acerca de algo? – continuamos a falar por mais uma hora. Senti Godelieve estranhamente perto, e percebi, mais uma vez, a importância que tem na minha VIDA e neste novo eu. Se a introdução deste personagem na história da minha VIDA me vez ver onde vivia, as suas ideias em si, até então, deslizavam entre as linhas do que me dizia. Ouvi-la falar era como me ouvir a mim mesmo nos últimos tempos, e o um constatar mais palpável da genuína influência do seu pensar no meu estar.

Levantamo-nos a rir, não vi Godelieve pagar nem me preocupei com isso. O mundo embalava-nos numa bebedeira agradável, perto duma menos agradável náusea, que dizia olá ao virar da esquina. Não lhe prestei atenção e deixei o bem-estar permanecer. Abraçado a Godelieve percorri o vazio corredor enquanto via, de vez em quando, empregados passarem carregados de pratos e garrafas. Não cumprimentamos nem dissemos nada a ninguém ao sair. Todavia, tendo fechado a porta atrás de nós e subido os poucos degraus que nos separavam da estrada, deparamo-nos com a mesma limusina que me trouxera até ali.

O condutor lança um bastante tímido sorriso, abre a porta. Reparo em como repara nas longas pernas de Godelieve, à medida em que esta entra na parte de trás do veículo. Ele entra no carro, e eu permaneço do lado de fora. Apago o cigarro que acendera segundos antes, aprecio o vazio que me rodeia e penso, antes de entrar, em como, talvez uma hora antes, Godelieve acabou por não me dizer nada acerca de guardar, ou não, as suas reacções… iludiu-me deixando-se apanhar na mudança de assunto, mas isto acabou por se tornar o próprio assunto… Incrível… Abano a cabeça, sorrio, e entro no carro.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

50 Godelieves, 100 Estórias

O antro dos infiéis? Como assim? Onde? Os meus pensamentos oscilavam a cada décimo de segundo. Se inicialmente me atrevi a soltar um sorriso com a brincadeira de Godelieve, ver o seu próprio sorriso desaparecer, para me mostrar a seriedade do que me dizia fez-me pensar que, quem sabe, o que me dizia era verdade… Antro dos infiéis?

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- Como assim? Antro dos infiéis? – pergunto, sem me preocupar em esconder a minha confusão. Neste momento ouço alguém, do outro lado da cortina, tossir, como que pedindo permissão para entrar. Godelieve acede e um empregado aproxima-se, perguntando se já temos alguma decisão. Suponho que seja acerca da refeição, apesar de não ver nas mãos de Godelieve nenhum menu.

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- Sim… Para já, como aperitivo, queremos dois Portos. Depois como entrada queremos queijo queimado com açucar e como prato principal frango cortês – ouço Godelieve e percebo que tenho fome. A visualização, na minha mente, dos pratos típicos que pede deixa-me a salivar ligeiramente.

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- E para beber?

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- Don Perignon, muito frio.

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- Concerteza. – e afasta-se. Godelieve olha para mim e, com o seu expressivo olhar pergunta-se se concordo. Num instante percebo que me esqueci, por uns segundos, que ainda não faço ideia de onde me encontro, apesar da sugestão ser evidente.

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- Óptimo, parece-me óptimo. Mas… estavas a dizer-me onde estamos…

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- Bem, é o seguinte… – adquire uma postura mais séria e inclina-se ligeiramente sob a mesa – claro que o nome não é o antro dos infiéis, apesar de ser isso mesmo… Todas as pessoas que vês, ou imaginas, aqui são provavelmente casadas ou têm algum tipo de relacionamento a que precisam de fugir. Este lugar existe há anos e anos… Nunca teve nome, e nunca teve uma única fuga de informação. As pessoas que vês aqui a trabalhar rodam anualmente e são muito bem pagas para manter o segredo…

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- Mas… isso não faz sentido. E as outras pessoas que aqui estão? – pergunto, confuso com a estranha realidade que tenho diante de mim.

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- As pessoas que aqui estão não têm cara. O segredo de cada um é suficiente… além do mais, está tudo muito bem controlado, de uma forma que ninguém percebe, mas que ninguém quer perceber.

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- Como assim?

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- Por exemplo, ninguém sabe quem é o dono deste lugar. Nem mesmo os empregados. No entanto é um sistema que vai desde dezenas de quartos de hotel na cidade até este mesmo restaurante, passando, como deves ter percebido, pelos meios como se chega até aqui. É perfeito, muito bom. Claro que é caríssimo, mas quem pode pagar tem condições que não tem em mais nenhum lugar. – a informação que desfila diante da minha pessoa é estranha, e Godelieve faz por a partilhar de uma forma, por um lado sedutora, mas por outro lado como se fosse algo banal. Passam pela minha cabeça imagens de filmes que vi, de coisas que imaginei, e tento conciliar tudo, sem ter grande sucesso. Entrego-me, finalmente, e limito-me a oferecer um sorriso. Só em Westland…

~

- Mas porquê esta necessidade de trair? Porque não saltar e desaparecer?... – pergunto. Estamos a meio da refeição. Do meu lado direito jaz uma garrafa vazia de champanhe, ao seu lado a sua sucessora, beijando a mortalidade. Os olhos negros de Godelieve espetam-se nos meus, e as suas sobrancelhas surpreendem-se.

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- Desaparecer para onde, Theodoor?

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- Desaparecer para vinte e quatro horas por dia. Será assim tão doido e arriscado? – pausa – Sim, é, mas vivemos em tempos em que isso não é assim tão impossível, em que essa decisão não tem de trazer consigo um desenvolvimento assim tão pesado… - espero que acabe de mastigar. Dá um gole do champanhe e os segundos que espera para falar entram dentro de mim.

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- Achas que é isso que queres?

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- É isso que queres?

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- Sabes… por vezes não te percebo, meu querido. Por vezes todo tu vives nos segundos em que estás comigo, mas doutras vezes sinto que vives noutro lugar qualquer, na certeza de me querer sempre do teu lado… – aponta, revelando-me da minha eventual ineficácia em permanecer impassível e misterioso. Ainda assim, não cedo. Tiro um cigarro, sem me importar que nenhum de nós acabou de comer.

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- E seria isso assim tão terrível?

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- O que seria terrível era aventurarmo-nos à procura do conhecido e perdermos tudo…

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- À procura do conhecido?

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- Sim… sempre que estamos juntos, e sempre, ou especialmente, quando não estamos juntos, vivemos sempre no desconhecido… E isso é fantástico… – ouço as suas palavras como se fossem os meus pensamentos – Se nos aventurássemos à procura de estabilidade e certezas íamos ceder, íamo-nos tornar em apenas mais um casal, onde tudo é o que se espera… é isso que queres? – a beleza e sentido dos seus argumentos deixa-me numa posição desconfortável. Não quero, não sei porquê, ceder, admitir que eventualmente esteja errado, pois apesar de sentir que estou, não quero estar.

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- Mas não achas que isso é… cobarde? – pergunto, apagando o cigarro, que ainda tinha algo para me dar. O champanhe sabe-me incrivelmente bem, e bebo uma taça duma só vez. Sinto que quer sorrir mas contraria tal movimento. É cansativo, ainda que prazeiroso, tentar adivinhar o que vai dentro de si.

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- Talvez sim, talvez não, não sei. Mas acho que ao perguntares isso, estás a fazer exactamente o mesmo… a querer o conhecido… a querer catalogar coisas com palavras, a querer ter controlo. Que interessa se é cobarde ou não? Porque tem de ser importante saber o que é

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- Se podemos apenas apreciar o que temos… – interrompo-a, baixinho, mais para mim que para si, acabando a sua frase.

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- Precisamente…

- Quando estou contigo sinto sempre que é a primeira vez… – digo, abrindo-me mais do que desejaria – As palavras têm de ser escolhidas – olho de soslaio para as duas garrafas vazias e percebo que talvez me tenham apanhado desprevenido, não quero dizer estas coisas – e questiono-me se o que sinto quando não estou contigo vale a pena pelos segundos em que estou…

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- E a que conclusão chegas?

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- Diz-me tu. Porque tenho de ser apenas eu a falar da confusão? – sugiro, interessado e de volta à postura sedutora. Desta feita percebo nitidamente o seu sorriso que me devolve um ar encantado. Godelieve levanta-se, dá um toque nos seus lábios, talvez corrigindo algum deslize do batom que até então passara despercebido. No seu trono invisível, olha-me de cima para baixo, mas não sinto tal situação como metafórica. Ainda assim, levanto-me. Dá um passo para mim.

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- Eu conto os segundos para estar contigo, meu amor. – a sua voz é ameaçadoramente macia – E sinto cada ocasião contigo passar como efémero e irreal. Custa-me e por vezes quase sufoco, mas quando te tenho para mim e te posso beijar, vivo nesses poucos momentos tudo o que não vivi em semanas… guardo tudo o que sou para ti…

~

Foi o beijo mais real que demos. Não sei ao certo o que define um beijo como real, mas sei apenas que o foi. Os nossos lábios abraçaram-se e as nossas línguas embalaram-se como centenas de vezes antes, mas a fragilidade da sua frase, que apenas a trouxera, por uns breves segundos, ao mundo dos humanos, dizia-me que estava a beijar alguém que efectivamente existia. O conforto de a ter no mesmo nível em que eu sempre me encontrei, em saber que o meu desespero era partilhado, foi apenas por três instantes ameaçados pelo quanto não a queria junto de mim com o resto dos mortais. Foi apenas por três instantes ameaçados, tranquilizando-me de seguida, com a certeza de que certas pessoas simplesmente não sabem como não ser musas…

Godelieve 4-9

Os meus olhos apontam para um qualquer ponto no universo, em sintonia com a minha mente, que voa dispersa, sem rédeas nem controlo. Os segundos atropelam-se, desaparecem, e o tempo funde-se num momento, de maneira a que um terço de garrafa de Mestiba depois, sinto o carro parar. Não sei se devo esperar que me abram a porta, ou se o devo fazer de imediato. Espero quatro piscar de olhos, e saio, para encontrar o meu condutor diante de mim que se preparava, imagino, para me abrir a porta.

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Dou um último gole de Mestiba, pouso o copo no tecto do carro, ajeito o meu colarinho. Vislumbro a minha imagem no tímido reflexo que a janela me lança, e percebo como o smoking me assenta bem. Sem dar por isso, o condutor desaparecera para dentro da limusina, e a mesma abandonou-me de seguida. Sou forçado a arrancar um sorriso quando ouço, segundos depois, o copo que largara rebentar no chão, a alguns metros de distância. Tiro um Dunhill. Estou no meio de uma estrada estranhamente limpa. De cada lado da mesma, dois prédios aparentemente abandonados, A iluminação que me chega deve-se à colaboração entre a lua e um velho poste de electricidade à minha direita.

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Diante de mim, uma casa velha, muito velha, guardada por uns velhos portões enferrujados e abertos. Não percebo nenhuma luz dentro da habitação, não percebo nenhuma actividade ao meu redor. Dou uma olhada no telemóvel, que me pede paciência… Lentamente caminho em direcção à casa… número 39, até que paro, ao ouvir uns passos ecoar algures perto de mim. Estranho o medo que sinto, apesar de achar que se apropria, uma vez que não sei onde estou, e o cenário não é propriamente agradável… O som aproxima-se, e consigo perceber que vem da escuridão entre a casa número 39 e o prédio à minha direita. Estou parado quase no mesmo sítio onde acendera o cigarro momentos antes, vejo a escuridão dissolver-se e uma silhueta masculina desenhar-se. A cada segundo a sua imagem se torna mais nítida, até que vejo perfeitamente os seus traços indianos, o seu fato impecável e a sua boa imagem diante de mim.

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- Boa noite. – diz-me, com um cordial sorriso.

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- Boa noite. – devolvo, menos cordial, imagino. Algo é bastante estranho. Permanece diante de mim, olhando-me nos olhos como se meu amigo fosse, por prolongados e extensos segundos. Quando percebe que não percebo o que quer, atreve-se a perguntar.

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- É a primeira vez que nos visita?

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- Isso é certo… – respondo, com um sorriso divertido, enquanto esmago a beata com o meu calcanhar.

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- Tudo bem. Tem o código, então? – pergunta, com um olhar afirmativo.

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- Que código?

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- Não tem nenhum código consigo? – volta a perguntar, com um tom de secretismo.

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- Se me dissesse que código era, eu podia dizer-lhe se o tinha ou não… – respondo, arrogantemente. Começa a irritar-me, o indiano… Não sei se por perceber esta irritação, o homem faz uma pequena vénia, pede desculpa, dá meia volta e começa a afastar-se. Não percebo. Que código?

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Vejo as horas no telemóvel. 21h08. O meu olhar não abandona o dispositivo. Ouço os passos a afastarem-se, a misturarem-se na escuridão, e finalmente percebo.

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- Espere! – ordeno. O homem para mas, não sei porquê, permanece de costas. Tiro a minha carteira e da mesma vejo o bilhete lilás. 371293. Aproximo-me do indiano e solto o número. Ele volta-se, olha-me nos olhos por um segundo, e no instante seguinte o seu olhar adquire um rosto pensador.

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- Queira acompanhar-me, por favor. – pede, mantendo a sua cordialidade enjoativa. Di-lo sem se voltar e começa a caminhar em direcção à escuridão. Quando os meus olhos se habituam ao negro em que imergiram, vejo mais um portão pertencente à propriedade da casa número 39, na parte lateral, este já em melhor estado. Para minha surpresa, o indiano abre o mesmo portão e entra. Não faço a mínima ideia do que se está a passar, e chego a duvidar que Godelieve tenha algo a ver com tudo o que vejo. Hesito. Ele pára e parece-me um pouco irritado. Sem falar, suplica com o olhar que continue a acompanhá-lo, ao que acedo. Percorremos um caminho de azulejos partidos, dividindo um jardim notoriamente desconsiderado, de onde nada me surpreenderia ver um qualquer felino aparecer, até que estamos perante uma escadaria que nos transporta para uns quantos níveis abaixo.

~

Ao descermos o lance de escadas, vejo diante de mim uma porta de madeira. O estado é tão lastimável que não compreendo como Godelieve escolheu este sítio para o nosso encontro…

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Porém… Por mais que treine a minha mente para estar preparada para o inimaginável, tenho estes esporádicos deslizes que apenas me fazem rejubilar com a surpresa materializada. O indiano tira uma enorme chave do bolso, que usa para abrir a porta e me apresentar o brilhante cenário.

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Foi algo estranho, dado o contraste entre tudo o que poderia (não) imaginar e o que realmente vi. Diante de mim vi um surpreendentemente amplo salão a meia luz, carregado de fumo e leve música, e um sem número de estranhos compartimentos, divididos por biombos de pano púrpura. Estando ainda uns degraus acima do nível do salão, tinha uma visão abrangente da estranha sala. No meio um estreito corredor, de cada lado duas filas de compartimentos com cerca de 3 por 3 metros, e cuja porta parecia ser uma mera cortina de tecido. Ao contrário do pano que revestia cada compartimento, as cores das cortinas variavam imensamente, mas escorregando com o olhar até ao fundo, e vendo uma cortina lilás, algo que disse que me levariam até ali.

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Sem saber para onde desaparecera o indiano, tenho outro diante de mim que, da mesma, forma, não sei de onde apareceu. Tem um sorriso simpático e pergunta-me o código. Volto a retirar o pequeno papel do bolso, e lanço, mais uma vez, o número de seis dígitos que até ali me trouxera. O olhar da pessoa que tinha à minha frente adquire uma efémera expressão de pensamento, até que solta um “concerteza” e me pede para o seguir. Não me tinha enganado, e dirigíamo-nos para o compartimento de cortina lilás, cujo número era… 13. Pelo caminho tentei, discretamente, ultrapassar os finos tecidos com o olhar, mas o que via eram apenas vultos, aparentemente sentados. Confesso que me passara pela cabeça cenas escaldantes de sexo, numa espécie de orgia à distância… Cada compartimento parecia ter um casal, até que, ao chegar ao compartimento número 13, descubro o primeiro onde apenas uma pessoa existia…

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O indiano limitou-se a guiar-me até à porta do mesmo, desaparecendo sorrateiramente de seguida. Sem saber o que me preparava para ver, respirei fundo, e mergulhei os meus dedos no desconhecido. Vi Godelieve que, com um vestido preto, um marcado mas ainda assim subtil risco da mesma cor nos olhos e com seu cabelo impecavelmente amarrado, me esperava. Estava a uns metros de mim, chamando-me com o seu sorriso. Estava sentada a uma mesa vestida com uma toalha branca e adornada por uma vela ardente, da mesma cor do seu vestido, e isso deixava-me a pensar se estaria num clube, num estranho bar, num restaurante, ou ainda num outro qualquer local cuja categoria me escapava… O som que me chegava era sedutor e situava-se algures entre a estranha fronteira entre o Jazz e Blues, como não podia deixar de ser.

~

- Boa noite! – cumprimenta-me Godelieve, quando me aproximo da mesa. Reparo que me sinto constrangido com a maneira como a cumprimentar, algo em que não tinha pensado. Tendo passado aquela cortina, por um lado sentia-me a milhares de quilómetros de todas as outras pessoas que habitavam o mesmo salão, mas por outro lado o suave murmúrio das suas vozes actuavam como o constante relembrar da ameaça que era um olhar atrevido… Todavia, após me sentar, Godelieve levanta-se, dá um passo na minha direcção, senta-se no meu colo. Cruza as pernas, e a sua saia abre-se de maneira que me permite vislumbrar as suas magníficas linhas quase até à cinta. Sinto-me repentinamente quente por dentro, e quero tocar-lhe. Eventualmente entretida com os meus conflitos, a minha diva pega, com a sua mão esquerda, na minha mão direita, e assenta-a sobre a sua coxa, carimbando o momento com um longo beijo nos meus lábios.

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- Já te explico onde estás, meu querido… – solta, finalmente, trazendo alguma luz sob todo o mistério que toldava a minha mente. Sorrio inocentemente, manifestando o quão perdido me encontrava. Godelieve volta a sentar-se, e aponta com o olhar para o meu maço de tabaco, de onde tiro um cigarro para cada um de nós.

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- Sempre é uma boa alternativa ao Vrijheid, diz lá… – sugere, após a sua primeira e longa passa no cigarro.

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- Parece-me ser. Se ao menos soubesse onde estou… – confesso.

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- Não sabias deste sítio, pois não Theodoor? – a pergunta é retórica – Diz-me tu onde estás… Não reparas em nada no ambiente, no que te rodeia?... – pergunta, desta feita visando uma resposta. Com dificuldade, o meu olhar abandona a sua figura crava-se nas frágeis paredes que nos rodeiam, atravessando as mesmas e atrevendo-se a imaginar.

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- Vejamos… imagino que apenas casais aqui estão… imagino que esses casais estão estranhamente compenetrados um no outro… vejo… – estranho – vejo que os empregados… são todos indianos?!

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- Exactamente. E que te diz isso? – pergunta.

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- Que estamos na Índia?... – respondo, sarcástico e divertido.

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- Tudo bem. Já foste perspicaz o suficiente… – parece-me ver alguma desilusão. Mas que quer, como posso fazer ideia de onde estou?

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- Tu estás no… chamemos-lhe assim… tu estás no antro dos infiéis de Westland… – solta, entre mais uma passa do cigarro, com um sorriso que anseia descortinar o meu…

terça-feira, 15 de julho de 2008

Só

Ter alguém comigo seria bom. Olho ao redor, e vejo os outros com algo que não tenho para mim. Pessoas riem, conversam, e eu rio, eu converso. Mas este pensamento, e este estranho sentimento de solidão permanece dentro de mim, a relembrar-me da sua existência, da minha existência… solitária. Saio para fumar um cigarro. Olhar à volta e ver apenas caras a sorrir fazia-me sentir como a parte errada num momento Kodak.

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Acendo o cigarro e viajo para trás.

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- Tudo, e tu? – minto, a alguém que passa com três canecas de café na mão e me pergunta como estou.

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Dou uma passa e viajo para trás. É-me difícil assimilar este sentimento de solidão. Sinto-me destreinado, como um menino que se esqueceu como se lê determinada frase. Não me sinto bem, e não tenho ninguém a visitar-me. Apenas a soma destas duas frases me permite perceber que aquilo que sinto é solidão. Quando tento explicar,… ou quando tentava, quando ainda no sub-mundo, explicar a alguém o que era isto de não saber o que se sente, ninguém me percebia. E eu não percebia o porquê de não perceber o meu interior. Muita heroína a destruir as percepções de emoções, muita ressaca a destruir a vontade de as ter. Agora sei, ou começo a saber, que antes da heroína, veio a dor, e antes da dor, não veio nada. Apenas eu apareci para a abraçar e a deixar dentro de mim. Cego, pensei que algo que escondia a minha dor me traria alguma paz. Cego, percebi que me deixou a 4 centímetros do abismo.

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O cigarro acaba e tenho de voltar para dentro. Olho o céu. Está bonito. Não está frio, e por isso liberto-me da minha camisola. Este sou eu, e nada mais. Rodo nos calcanhares e vejo a porta que me trará de volta a uma espécie de mundo real que, espero, um dia me receberá como um igual…

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Which Witch?

Lembro-me como se fosse hoje. Era Fevereiro, o termómetro apontava 7 graus negativos, e estava um nevoeiro como nunca tinha visto. Contudo, para um Fevereiro Norueguês, este estava a presentear-me brandas noites. Trabalhava numa Comunidade Terapêutica, ajudando pessoas a libertar-se da prisão que é o mundo da droga. Vivia com eles, na mesma instituição, e tinha o hábito de dar uma corrida por dia.

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Mas nesse dia atrasei-me. Atrasei-me e não pude correr à hora do costume. Veio o jantar, e duas horas esperei, para a comida assentar. Entretia-me à procura de emprego, viajava de site em site, até ver a hora de ir correr chegar. Porém, quando chegou essa hora, o sol tinha-se já posto. Vivendo tão no meio de nada como vivia, via o meu percurso habitual de corrida completamente imerso numa nuvem, sendo a única fonte de luz uma lua cheia, que brilhava lá no alto, ajudando um pouquinho. Decidi ir.

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A cada passo, mais me emergia na escuridão. O nevoeiro era tão denso que conseguia apenas ver uns poucos metros à frente, e as ilusões ópticas abundavam. Corria pelo meio dos campos, olhava à volta, pouco via, olhava para a frente, e via uma muito subtil sombra da floresta que atravessaria. Ouvia Sigur Rós, que fazia com que todo aquele ambiente entrasse em conluio com os meus atrevidos pensamentos, e sentia estar a correr dentro dum sonho. Não de tão bom que era, mas por parecer, realmente, um sonho que vivia, mas com consciência. Não me belisquei, pois a certeza que era a realidade, existia. Continuava a correr, e mergulhei na floresta digna dum conto dos irmãos Grimm.

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Passo ante passo, o coração a bater, dou uma curva à direita, tentando ter cuidado para não escorregar nas esporádicas poças de gelo que (já não) me surpreendiam. Curva à esquerda, e mais uma ilusão óptica. Lembro-me da tese que tinha feito sobre alucinações, e tenho a certeza estar a confundir um qualquer estímulo real por outra coisa qualquer. Mas não passa. Nasce no meu peito alguma adrenalina, e o ritmo de corrida abranda. Sim, parecia-me um caldeirão... em fogo. Ouço o crepitar da madeira. Não consigo ver nada mais além de dois metros para cada lado, e algo que me parecia um caldeirão… e ouvia o barulho. Seria possível estar a alucinar, em vez de estar a ter uma ilusão? Parei de correr, e permaneci uns segundos. Como sabia que não estava a sonhar, tudo me parecia muito estranho. A adrenalina continuava a arder, mas calma. Fecho os olhos durante 4 segundos, e volto a abrir. A adrenalina dispara. Não só continuo a ver o que via, a ouvir o que ouvia, mas vejo uma sombra diante do caldeirão. Sinto-a rodar, e caminhar em direcção a mim. Queria voltar-me e fugir, mas algo em mim não mo permitia, ficando ali, e cima duma dessas poças de gelo, como que hipnotizado. O vulto aproxima-se e percebo ser uma mulher. Sai de entre as árvores, e está a um metro de mim. É muito velha, mas incrivelmente bonita. Está vestida de preto e tem um chapéu em bico.

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- És uma bruxa? – ouço-me perguntar, em português.

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- Sou – responde. Di-lo em norueguês, e percebo pela simplicidade do que diz – Tens fome? – pergunta. Sinto-me confuso, pois percebo perfeitamente o que pergunta, tenho quase a certeza que o faz em norueguês, e lembro-me que não sei como se diz fome nesta língua… na minha mente tento repetir, mas apenas português aparece. E como percebeu a minha pergunta?

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- Tenho… até tenho…

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- Então anda comigo. – ordena, suavemente. Da mesma maneira, pega-me na mão, e volta a pedir-me que vá consigo. É tudo demasiado estranho e fora do normal para eu fugir. Estranhamente, sinto-me bem. Dou um pequeno pulo para saltar o pequeno fosso que separa o caminho do mato, e vou com ela. Não sei se a sua mão está quente ou fria, mas o que quer que esteja, está muito. Ela caminha, com dificuldade, em direcção ao caldeirão. Curva-se, afunda as mãos no fogo, não se queixa, e tira algo que me parece uma sopa estranha. Não sei onde a põe, mas continua a caminhar. Cada vez mais dentro da floresta, aparece outro caminho, que atravessamos. O nevoeiro vai-se dissipando, mas de certa forma que me permite continuar a vê-la, e apenas a ela. A sua casa é velha, muito velha, como as casas das bruxas devem ser. O portão range, naturalmente, ao abrir, e a porta da casa igualmente.

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Sentamo-nos na cozinha, velha, muito velha, onde uma lareira acesa nos aguarda. Assim como não sei onde armazenara a sopa que tirara, não sei de onde a tirou agora, e como veio parar a uma tigela, que me espera, a fumegar, cima da mesa com uma toalha velha aos quadrados. Senta-se à minha frente.

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- Que tens para mim? – pergunta, em norueguês. Não me assusto.

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- Não sei… – respondo, em português – E tu, que tens para mim?

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- Não sei… acho que te posso mostrar como vais morrer… – sugere, descansada, antes de enfiar a colher com a sopa na boca.

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- És a bruxa do Big Fish? – sinto a minha pergunta estúpida, mas tenho que a fazer.

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- Não, filho… Isso é só um filme. Quem sabe inspiraram-se em mim… – graceja – Mas queres saber ou não? – experimento a sopa que, apesar de não saber de que é, me sabe incrivelmente bem.

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- A sopa é de quê?

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- Não é de criancinhas, não te preocupes… é de muita coisa… mas estás a fugir à pergunta, filho. Queres saber?

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- Posso responder antes de ir embora?

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- Quem te disse que vais embora? – mais um gracejo. Tem sentido de humor, para uma bruxa. Comemos a sopa em silêncio, e pergunto-lhe como se tornou uma bruxa.

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- Eu não me tornei uma bruxa… nunca foi a minha profissão de sonho…

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- Mas… é uma profissão? – interrompo.

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- Estou a brincar, filho. Tenta acompanhar… Como dizia, eu não me tornei uma bruxa. As pessoas é que me foram tornando uma bruxa…

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- Como assim?

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- Nem sei, filho… Pelo facto de ser diferente de toda a gente desde o momento em que nasci, pelo facto de me dar muito bem sozinha, as pessoas foram-me afastando, e criando estórias acerca de mim. Talvez por acharem que me dava bem sozinha, e que era independente, que não precisava de ninguém…

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- E precisavas?

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- Na altura precisava, sabes… Quem é que não precisa de ninguém? Na altura precisava. Não era por ser independente que não precisava de ninguém. Mas depois das pessoas te colocarem um rótulo, é muito difícil escapar. Muito mesmo. As pessoas quando te dão um rótulo, agarram-se às crenças que têm… e se fazes algo que vai no contrário do que pensam, como eu fazia, quando tentava falar com alguém, ou ter amigos, elas assustam-se… Chega a uma altura em que deixas de tentar… Claro que nasci com um ou outro talento, mas só depois de me rotularem como bruxa, tive de aceitar, não o que sentia ser, mas o que as pessoas me faziam sentir ser… Se calhar foi aí que me tornei uma bruxa…

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- Mas estás a falar comigo! Sou diferente? Porque é que tentaste comigo? – pergunto, intrigado. Cruzo a perna e dou um gole do café, que tanto se bebe por terras escandinavas, e que apareceu misteriosamente na mesa da cozinha.

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- Filho… – diz, mexendo o açúcar do seu café, que segundos antes eu não sabia onde estava – Eu estou a falar contigo… para te comer!! – diz, tentando imitar o lobo mau. Vislumbro uma fileira de dentes perfeitamente alinhados…

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- Está bem que não estás habituada a ter companhia, mas tens de treinar as tuas piadas… – interrompo, estranhamente descontraído, achando-me o máximo por estar a fazer uma piada dizendo que as suas piadas são más.

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- É, talvez tenhas razão… – responde – Bem, como dizia… Eu estou a falar contigo, meu querido, porque estás a sonhar!

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- Não estou! – respondo, quase chateado. Apercebo-me que a razão pela qual estava chateado, era que não queria que aquilo fosse um sonho.

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- Estás sim, lamento. Experimenta beliscar-te… – assim o experimentei, e solto um leve grito de dor.

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- Agora apanhei-te! – ri, a bandeiras despregadas – Estás a sonhar, como te disse, mas é claro que sentes dor nos sonhos! – sim, desta vez apanhou-me.

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- Mas existes mesmo?

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- Sim, existo. Mas não aqui no sítio para onde te guiei. Queria que me visses neste ambiente porque é o mais fascinante para as bruxas viverem… na verdade vivo num condomínio fechado em Bergen… – vê os meus olhos arregalarem-se, mas a voltarem à posição normal, quando percebo, sem me explicar, que está a brincar. Percebe que percebo – Vivo num local parecido com este, mas que não é em Mysen. E decidi falar contigo no teu sonho, porque se me repudiasses, não me sentiria mal com isso, pois… tinha sido só um pesadelo teu. Mas revelaste-te um jovem muito simpático! – coro – Sabes… quando estás habituado a ser repudiado, crias o teu próprio mundo, onde aí tudo é teu e tudo está sob controlo. Porém, quanto mais tempo passa, mais te habituas a ele, e mais medo crias em relação a falar com outras pessoas. E ganhas estranhos hobbies, como eu fiz com a bruxaria. Coisas que te mantenham ocupada e que não te façam pensar na solidão cruel que vai dentro de ti. E habituas-te.

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- Mas… as pessoas diziam que eras uma bruxa… tu dizes que não eras… no entanto, estás no meu sonho… isso não é bruxaria?

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- Sim, sim, ok, admito… mas é como te digo. Fica difícil demais lutares contra aquilo que dizem que és, e vais perdendo forças, não importa o quão forte sejas, e entregas-te, como disse, não ao que sentes, mas ao que te fazem sentir…

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- Mas já pensaste que podes apenas ter tido azar com as pessoas que conheceste?

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- Já pensei muitas vezes nisso, mas também já não-pensei nisso outras tantas… quando toda a gente que conheces diz o mesmo… claro que a informação pode simplesmente ter passado de pessoa para pessoa… mas a dada altura cheguei à conclusão que se o ser humano é alguém tão estúpido ao ponto de confiar mais em informações estúpida e indirectas acerca de outras pessoas… sem sequer lhes dar uma hipótese… então os seres humanos talvez não valham muito a pena conhecer…

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- Mas quiseste conhecer-me… – digo, fazendo o Porto que magicamente apareceu na minha mão.

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- Quis conhecer-te, porque tu nunca ouviste de mim. Porque soube de ti, e que estavas aqui há pouco tempo, e pensei em experimentar falar com alguém que não conhecesse nada de mim. Pois se fosses daqui, serias exactamente igual, meu querido… – fico em silêncio, a pensar. Seria eu, realmente, “igual”. E estaria esta opinião acerca dos seres humanos tão acertada assim? Pensava no quão facilmente corrompível é, de facto, a mente humana. Tantas vezes que nos entregamos a preconceitos, a estereótipos, não querendo saber por nós, mas encostando-nos ao conforto que é ver a informação, por mais estúpida que é, chegar até nós, e aceitar qualquer juízo, quem sabe condenando as pessoas a ser catalogadas com imagens que não são as suas… e todos fazemos isto… e todos criticamos quem faz isto. Que estupidez. De certa forma, criticamo-nos a nós próprios, mas sem coragem de os fazer directamente, preferindo criticar tudo o resto, ignorando o facto de que também nós… nos incluímos nesse resto… Levanto-me.

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- Eu quero conhecer-te na VIDA real! – ordeno. Ela levanta-se. Está à minha frente. À nossa volta uma imensidão de gelo. Estamos no meio dum enorme lago congelado. Sinto a sua pele rejuvenescer lentamente, e vejo diante de mim alguém que sei, que tenho a certeza saber quem é, mas a quem a minha mente adormecida não me deixa aceder.

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- Filho, tu não me podes conhecer na VIDA real, porque eu não existo.

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- Como assim? Mas disseste…

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- Pois menti… eu não existo, porque eu sou apenas o materializar que o teu cérebro conseguiu fazer das tuas próprias questões… não reconheceste de lado nenhum o humor foleiro? – ouço-a dizer, não me acreditando na informação que chega até mim.

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- Mas… o facto de seres uma bruxa… isso tem algum significado escondido, então? – estou confuso – Eu sinto-me bem com o que penso, ou sinto, não preciso de o esconder num canto escuro no meio da floresta… ou tenho?

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- Isso, filho, é o que tu tens de descobrir!