segunda-feira, 21 de julho de 2008

Viver

Vejo o espanto nos olhos da pessoas ao meu redor como o meu motor, aquilo que me dá energia para continuar… é-me difícil, por vezes… tantas vezes… acompanhar as expectativas que deixam em mim, e isso materializa-se numa vontade cruel de dar dois passos e comprar um grama. Incrível como aquilo que funciona como motor também, ao mesmo tempo, tanto nos pode desacelerar…

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Sento-me no sofá, vejo as pequenas nuvens provenientes do chá, que arrefece, e penso nisso. Sei que não o vou fazer, mas, não sei porquê, quero imaginar que sim. Vejo-me a sair, olhar à volta para ter a certeza que não sou seguido, chegar à estação central, e apenas pedir meio grama a Magnus. Não preciso de dizer mais nada. Não preciso de lhe dizer que tipo de droga quero, não preciso de lhe dizer para não me enganar, não preciso de mais nada senão a mera frase e um par de notas… Vejo-me a sentir a adrenalina expectante, pelo que se avizinha a um par de minutos, nascer dentro de mim, proporcionando-me um prazer quase tão gratificante como o efeito da droga propriamente dito. Entro na estação, deixo 5 coroas na máquina, e vejo as portas do quarto de banho a abrirem-se. Vejo-me a pensar no quão quero usufruir o momento, e volto para o exterior, onde fumo um cigarro, para que tudo esteja como deve estar, e para poder ficar no quarto de banho o tempo que me apetecer. Vejo-me a voltar a entrar, a ignorar a cara que o porteiro faz, fechar a porta, arregaçar as mangas. Tiro o cinto, aperto-o no braço, até ao ponto em que dói e fica roxo. Pouso os óculos no chão, num sítio que não me faça, daí a uns minutos com o equilíbrio a menos de 100%, os pisar. Tiro a agulha do invólucro, faço a sopa, e vejo-me a entrar naquele pico que me deixa num outro lugar, num outro lugar onde… tudo não é melhor, mas tudo não é o que é aqui. Aquele lugar que dura apenas um determinado período de tempo. Vejo-me a encostar-me para trás e a entrar em prazer indescritível. Vejo o tempo passar, e vejo-me sair do quarto de banho. A cara do porteiro… não a consigo ignorar... vejo-me a pensar no quão filho da puta que ele é, e apetece-me matá-lo. Saio, vejo o sorriso de Magnus e apetece-me atirá-lo para a frente do metro, por ter agitado diante do meu nariz o produto! Mas então?... Vejo-me a pensar nos últimos dois anos… na última vez que consumi, uma semana antes de ir para a desintoxicação, um mês e qualquer coisa antes de ir para a Comunidade Terapêutica. Vejo a cara dos meus colegas de recuperação, dos que tiveram sucesso e dos que não tiveram, e vejo o seu olhar de desilusão, que compete com o meu inexpressivo, em completo desalinho com a miséria e vontade de desaparecer que vai dentro de mim. Estupidamente, vejo-me a querer consumir, comprar mais, apenas para que não sinta esta vergonha que se abate sobre mim. Vejo-me a ligar aos meus pais, perguntar como vão as coisas, e dizer que gosto deles… apenas numa tentativa completamente frustrada de me mostrar que sou um bom filho, que me preocupo, e que nada muda apenas com um consumo. Vejo-me a, antes de ir para casa, comprar uma garrafa de vodka, que sei que vai acabar nessa mesma noite. Vejo-me a pensar que não tem mal algum, pois é o que toda a gente faz de vez em quando, beber um copo… vejo os dias passar e não sei se me vejo no dia seguinte a ir outra vez ter com Magnus, se a beber uma garrafa de vodka todos os dias, se a ter uma overdose, se a me suicidar mais tarde, se a entrar em outro tratamento onde terei, mais uma vez, de conviver com os erros que cometi e nunca deveria ter cometido… quando tudo estava na minha mão, quando não podia já culpar a minha má infância, os meus momentos difíceis… consegui falhar de novo… vejo o peso desse falhanço ser demasiado pesado para ter de o enfrentar todos os dias, e vejo-me a desaparecer, um dia, do tratamento, acabando a dormir, completamente pedrado, num passeio de Oslo. Vejo-me a acordar e não conseguir lidar com a cara das pessoas que passam que, não conseguindo mentir, me mostram o lixo em que estou… vejo tudo isto e muito mais, num ciclo vicioso de falsas razões, pretextos e antecedentes que acabam por ser consequentes, consequentes que antecedentes acabam por ser, tudo num circulo interminável que me leva à morte, destruição… ver a minha VIDA passar ao meu lado sem que eu faça algo…

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Dou um gole no chá preto, e sinto a vontade de viver isso tudo. Penso na razão por que o sinto, e não consigo, como nunca consegui, encontrá-la. Apesar de tudo, penso na maneira como aprendi a viver com esta grande questão e escolho… viver…

sábado, 19 de julho de 2008

Godelieve 50

- Não sei se bebemos um whiskey ou partimos já… – diz-me, após os nossos lábios negociarem tréguas. O calor que sentia dentro de mim impelia-me para desaparecer no mesmo momento, fosse para onde fosse, mas a certeza que nessa noite era apenas minha, e o conforto do lugar onde me encontrava pedia-me para ficar um pouco mais.

- Se podemos ter tudo, porquê escolher? Vamos ficar, beber um whiskey com calma… adiar o… prazer. – sugiro, com um sorriso que levanta outro no seu olhar.

Porém, vê-la diante de mim, vestida, era demasiado pesado. Esperar segundos que pareciam horas revelava-se difícil, na ânsia de ter na minha mão as horas que pareceriam segundos. Não tinha dúvida nenhuma que, pelo menos nesses momentos em que a tinha a uma palavra de distância, não sentia nada a não ser paixão e um amor doloroso. Saborosamente doloroso. Os conflitos dentro de mim apontavam todos no mesmo sentido. Rebentar e agarrá-la, grudar-me ao seu corpo e explodir.

- E se não nos tivéssemos conhecido? – pergunta-me. Não sei. Ou sim, sei. Sei o que seria de mim se não a tivesse conhecido. Seria a pesada leveza de espírito que apagava o meu ser.

- Não sei nada de quem eras… até pouco de quem és. Mas eu sei quem – não – fui e vejo essa pessoa a planetas de distância… – dou uma passa no milésimo cigarro. Por culpa da Mestiba, Porto, champanhe, o mundo passa diante dos meus olhos a velocidade cruzeiro.

- Fala-me disso…

- Não quero…

- Porquê?

- Porque tenho de prestar tanta atenção a partes da minha VIDA que já não existem? Sinto isso como passar horas e horas a analisar um sonho sem sentido! Só gosto de pensar no meu passado para perceber como o presente é tão melhor…

- Mas eras… miserável?

- Não, e o problema é precisamente esse… – sinto que não me compreende. Para dizer a verdade as palavras saíram mais rápido do que planeara, pelo que eu próprio me senti confuso, com dificuldade em me organizar – Nunca me sentia miserável. Apenas ligeiramente alegre, ou ligeiramente em baixo… como se fosse proibido ultrapassar estas marcas, como se fosse proibido alcançar algum extremo alguma vez… não sei que te diga, é uma dormência constante, um não-ser…

- E comigo?

- Contigo… o que sentes tu quando comigo? Porque guardas tanto as tuas reacções?...

- Que queres dizer com isso?

- Sinto como se estivesses constantemente noutro plano… Com tudo sob controlo… e o facto de saber que é impossível alguém ter tudo sempre sob controlo deixa-me confuso… a não ser que realmente aches que sim, que tens tudo debaixo do teu radar…

- Dizes, então, que é impossível ter tudo sob controlo? – pergunta. Sinto como se esta questão tenha como única função criar o caminho para a verdadeira ideia.

- Sim, acho que sim. – revelo.

- Eu também acho. Mas ao mesmo tempo essa certeza que manifestas é estranha. Como podes ter tanta certeza acerca do poder de alguém, da perfeição e eficácia como alguém pode fazer alguma coisa? – talvez Godelieve seja a prova que estou errado, pois apanhou-me perfeitamente. Atrevo-me a dizer que… tinha a conversa sob controlo.

- Tens razão, não posso. – penso – Ou será que posso?... – está confusa – Sim, claro que posso… - estou confuso – Posso ter a certeza do que me apetecer. Qual é a pior coisa que pode acontecer?

- Estares errado…

- Precisamente. Mas aí está a grande questão… – ouço algumas pessoas começarem a abandonar o local. Não me parece o tipo de sítio que tenha horas para fechar, por isso não me preocupo – Se eu continuasse a viver da maneira em que vivia, estar errado seria terrível. Mas já percebi que estar certo acerca de algo, na maior parte das vezes, é relativo e não vale o esforço…

- Assim como a tua própria afirmação, agora mesmo, é relativa… Para um pessimista, estar errado é óptimo! – remata, divertida, mas com convicção. Adoro-a.

- Aí está! Mas diz-me uma coisa… Foi de propósito que mudaste de assunto, ou simplesmente aconteceu? – pergunto, tendo uma vez tomado consciência do que se estava a passar.

- Que achas?

- Acho que não estou em nenhum psicólogo, e que não tens de me devolver as questões a toda a hora… – o meu olhar é sério. Sinto que começo a encurralá-la um pouco, e isso agrada-me.

- Porquê? – ri abertamente – Estou a brincar. Mas não sei que te responder, é só isso… mudei de assunto de propósito ou aconteceu?... – diz, de si para si, baixinho.

- Porque não dizer a verdade?...

- A verdade é aborrecida… procurá-la até é divertido, por vezes. Mas a verdade em si nada tem de especial. Geralmente traz consigo essas certezas de que falamos… e qual a piada de ter a certeza acerca de algo? – continuamos a falar por mais uma hora. Senti Godelieve estranhamente perto, e percebi, mais uma vez, a importância que tem na minha VIDA e neste novo eu. Se a introdução deste personagem na história da minha VIDA me vez ver onde vivia, as suas ideias em si, até então, deslizavam entre as linhas do que me dizia. Ouvi-la falar era como me ouvir a mim mesmo nos últimos tempos, e o um constatar mais palpável da genuína influência do seu pensar no meu estar.

Levantamo-nos a rir, não vi Godelieve pagar nem me preocupei com isso. O mundo embalava-nos numa bebedeira agradável, perto duma menos agradável náusea, que dizia olá ao virar da esquina. Não lhe prestei atenção e deixei o bem-estar permanecer. Abraçado a Godelieve percorri o vazio corredor enquanto via, de vez em quando, empregados passarem carregados de pratos e garrafas. Não cumprimentamos nem dissemos nada a ninguém ao sair. Todavia, tendo fechado a porta atrás de nós e subido os poucos degraus que nos separavam da estrada, deparamo-nos com a mesma limusina que me trouxera até ali.

O condutor lança um bastante tímido sorriso, abre a porta. Reparo em como repara nas longas pernas de Godelieve, à medida em que esta entra na parte de trás do veículo. Ele entra no carro, e eu permaneço do lado de fora. Apago o cigarro que acendera segundos antes, aprecio o vazio que me rodeia e penso, antes de entrar, em como, talvez uma hora antes, Godelieve acabou por não me dizer nada acerca de guardar, ou não, as suas reacções… iludiu-me deixando-se apanhar na mudança de assunto, mas isto acabou por se tornar o próprio assunto… Incrível… Abano a cabeça, sorrio, e entro no carro.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

50 Godelieves, 100 Estórias

O antro dos infiéis? Como assim? Onde? Os meus pensamentos oscilavam a cada décimo de segundo. Se inicialmente me atrevi a soltar um sorriso com a brincadeira de Godelieve, ver o seu próprio sorriso desaparecer, para me mostrar a seriedade do que me dizia fez-me pensar que, quem sabe, o que me dizia era verdade… Antro dos infiéis?

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- Como assim? Antro dos infiéis? – pergunto, sem me preocupar em esconder a minha confusão. Neste momento ouço alguém, do outro lado da cortina, tossir, como que pedindo permissão para entrar. Godelieve acede e um empregado aproxima-se, perguntando se já temos alguma decisão. Suponho que seja acerca da refeição, apesar de não ver nas mãos de Godelieve nenhum menu.

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- Sim… Para já, como aperitivo, queremos dois Portos. Depois como entrada queremos queijo queimado com açucar e como prato principal frango cortês – ouço Godelieve e percebo que tenho fome. A visualização, na minha mente, dos pratos típicos que pede deixa-me a salivar ligeiramente.

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- E para beber?

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- Don Perignon, muito frio.

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- Concerteza. – e afasta-se. Godelieve olha para mim e, com o seu expressivo olhar pergunta-se se concordo. Num instante percebo que me esqueci, por uns segundos, que ainda não faço ideia de onde me encontro, apesar da sugestão ser evidente.

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- Óptimo, parece-me óptimo. Mas… estavas a dizer-me onde estamos…

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- Bem, é o seguinte… – adquire uma postura mais séria e inclina-se ligeiramente sob a mesa – claro que o nome não é o antro dos infiéis, apesar de ser isso mesmo… Todas as pessoas que vês, ou imaginas, aqui são provavelmente casadas ou têm algum tipo de relacionamento a que precisam de fugir. Este lugar existe há anos e anos… Nunca teve nome, e nunca teve uma única fuga de informação. As pessoas que vês aqui a trabalhar rodam anualmente e são muito bem pagas para manter o segredo…

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- Mas… isso não faz sentido. E as outras pessoas que aqui estão? – pergunto, confuso com a estranha realidade que tenho diante de mim.

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- As pessoas que aqui estão não têm cara. O segredo de cada um é suficiente… além do mais, está tudo muito bem controlado, de uma forma que ninguém percebe, mas que ninguém quer perceber.

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- Como assim?

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- Por exemplo, ninguém sabe quem é o dono deste lugar. Nem mesmo os empregados. No entanto é um sistema que vai desde dezenas de quartos de hotel na cidade até este mesmo restaurante, passando, como deves ter percebido, pelos meios como se chega até aqui. É perfeito, muito bom. Claro que é caríssimo, mas quem pode pagar tem condições que não tem em mais nenhum lugar. – a informação que desfila diante da minha pessoa é estranha, e Godelieve faz por a partilhar de uma forma, por um lado sedutora, mas por outro lado como se fosse algo banal. Passam pela minha cabeça imagens de filmes que vi, de coisas que imaginei, e tento conciliar tudo, sem ter grande sucesso. Entrego-me, finalmente, e limito-me a oferecer um sorriso. Só em Westland…

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- Mas porquê esta necessidade de trair? Porque não saltar e desaparecer?... – pergunto. Estamos a meio da refeição. Do meu lado direito jaz uma garrafa vazia de champanhe, ao seu lado a sua sucessora, beijando a mortalidade. Os olhos negros de Godelieve espetam-se nos meus, e as suas sobrancelhas surpreendem-se.

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- Desaparecer para onde, Theodoor?

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- Desaparecer para vinte e quatro horas por dia. Será assim tão doido e arriscado? – pausa – Sim, é, mas vivemos em tempos em que isso não é assim tão impossível, em que essa decisão não tem de trazer consigo um desenvolvimento assim tão pesado… - espero que acabe de mastigar. Dá um gole do champanhe e os segundos que espera para falar entram dentro de mim.

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- Achas que é isso que queres?

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- É isso que queres?

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- Sabes… por vezes não te percebo, meu querido. Por vezes todo tu vives nos segundos em que estás comigo, mas doutras vezes sinto que vives noutro lugar qualquer, na certeza de me querer sempre do teu lado… – aponta, revelando-me da minha eventual ineficácia em permanecer impassível e misterioso. Ainda assim, não cedo. Tiro um cigarro, sem me importar que nenhum de nós acabou de comer.

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- E seria isso assim tão terrível?

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- O que seria terrível era aventurarmo-nos à procura do conhecido e perdermos tudo…

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- À procura do conhecido?

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- Sim… sempre que estamos juntos, e sempre, ou especialmente, quando não estamos juntos, vivemos sempre no desconhecido… E isso é fantástico… – ouço as suas palavras como se fossem os meus pensamentos – Se nos aventurássemos à procura de estabilidade e certezas íamos ceder, íamo-nos tornar em apenas mais um casal, onde tudo é o que se espera… é isso que queres? – a beleza e sentido dos seus argumentos deixa-me numa posição desconfortável. Não quero, não sei porquê, ceder, admitir que eventualmente esteja errado, pois apesar de sentir que estou, não quero estar.

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- Mas não achas que isso é… cobarde? – pergunto, apagando o cigarro, que ainda tinha algo para me dar. O champanhe sabe-me incrivelmente bem, e bebo uma taça duma só vez. Sinto que quer sorrir mas contraria tal movimento. É cansativo, ainda que prazeiroso, tentar adivinhar o que vai dentro de si.

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- Talvez sim, talvez não, não sei. Mas acho que ao perguntares isso, estás a fazer exactamente o mesmo… a querer o conhecido… a querer catalogar coisas com palavras, a querer ter controlo. Que interessa se é cobarde ou não? Porque tem de ser importante saber o que é

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- Se podemos apenas apreciar o que temos… – interrompo-a, baixinho, mais para mim que para si, acabando a sua frase.

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- Precisamente…

- Quando estou contigo sinto sempre que é a primeira vez… – digo, abrindo-me mais do que desejaria – As palavras têm de ser escolhidas – olho de soslaio para as duas garrafas vazias e percebo que talvez me tenham apanhado desprevenido, não quero dizer estas coisas – e questiono-me se o que sinto quando não estou contigo vale a pena pelos segundos em que estou…

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- E a que conclusão chegas?

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- Diz-me tu. Porque tenho de ser apenas eu a falar da confusão? – sugiro, interessado e de volta à postura sedutora. Desta feita percebo nitidamente o seu sorriso que me devolve um ar encantado. Godelieve levanta-se, dá um toque nos seus lábios, talvez corrigindo algum deslize do batom que até então passara despercebido. No seu trono invisível, olha-me de cima para baixo, mas não sinto tal situação como metafórica. Ainda assim, levanto-me. Dá um passo para mim.

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- Eu conto os segundos para estar contigo, meu amor. – a sua voz é ameaçadoramente macia – E sinto cada ocasião contigo passar como efémero e irreal. Custa-me e por vezes quase sufoco, mas quando te tenho para mim e te posso beijar, vivo nesses poucos momentos tudo o que não vivi em semanas… guardo tudo o que sou para ti…

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Foi o beijo mais real que demos. Não sei ao certo o que define um beijo como real, mas sei apenas que o foi. Os nossos lábios abraçaram-se e as nossas línguas embalaram-se como centenas de vezes antes, mas a fragilidade da sua frase, que apenas a trouxera, por uns breves segundos, ao mundo dos humanos, dizia-me que estava a beijar alguém que efectivamente existia. O conforto de a ter no mesmo nível em que eu sempre me encontrei, em saber que o meu desespero era partilhado, foi apenas por três instantes ameaçados pelo quanto não a queria junto de mim com o resto dos mortais. Foi apenas por três instantes ameaçados, tranquilizando-me de seguida, com a certeza de que certas pessoas simplesmente não sabem como não ser musas…

Godelieve 4-9

Os meus olhos apontam para um qualquer ponto no universo, em sintonia com a minha mente, que voa dispersa, sem rédeas nem controlo. Os segundos atropelam-se, desaparecem, e o tempo funde-se num momento, de maneira a que um terço de garrafa de Mestiba depois, sinto o carro parar. Não sei se devo esperar que me abram a porta, ou se o devo fazer de imediato. Espero quatro piscar de olhos, e saio, para encontrar o meu condutor diante de mim que se preparava, imagino, para me abrir a porta.

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Dou um último gole de Mestiba, pouso o copo no tecto do carro, ajeito o meu colarinho. Vislumbro a minha imagem no tímido reflexo que a janela me lança, e percebo como o smoking me assenta bem. Sem dar por isso, o condutor desaparecera para dentro da limusina, e a mesma abandonou-me de seguida. Sou forçado a arrancar um sorriso quando ouço, segundos depois, o copo que largara rebentar no chão, a alguns metros de distância. Tiro um Dunhill. Estou no meio de uma estrada estranhamente limpa. De cada lado da mesma, dois prédios aparentemente abandonados, A iluminação que me chega deve-se à colaboração entre a lua e um velho poste de electricidade à minha direita.

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Diante de mim, uma casa velha, muito velha, guardada por uns velhos portões enferrujados e abertos. Não percebo nenhuma luz dentro da habitação, não percebo nenhuma actividade ao meu redor. Dou uma olhada no telemóvel, que me pede paciência… Lentamente caminho em direcção à casa… número 39, até que paro, ao ouvir uns passos ecoar algures perto de mim. Estranho o medo que sinto, apesar de achar que se apropria, uma vez que não sei onde estou, e o cenário não é propriamente agradável… O som aproxima-se, e consigo perceber que vem da escuridão entre a casa número 39 e o prédio à minha direita. Estou parado quase no mesmo sítio onde acendera o cigarro momentos antes, vejo a escuridão dissolver-se e uma silhueta masculina desenhar-se. A cada segundo a sua imagem se torna mais nítida, até que vejo perfeitamente os seus traços indianos, o seu fato impecável e a sua boa imagem diante de mim.

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- Boa noite. – diz-me, com um cordial sorriso.

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- Boa noite. – devolvo, menos cordial, imagino. Algo é bastante estranho. Permanece diante de mim, olhando-me nos olhos como se meu amigo fosse, por prolongados e extensos segundos. Quando percebe que não percebo o que quer, atreve-se a perguntar.

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- É a primeira vez que nos visita?

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- Isso é certo… – respondo, com um sorriso divertido, enquanto esmago a beata com o meu calcanhar.

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- Tudo bem. Tem o código, então? – pergunta, com um olhar afirmativo.

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- Que código?

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- Não tem nenhum código consigo? – volta a perguntar, com um tom de secretismo.

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- Se me dissesse que código era, eu podia dizer-lhe se o tinha ou não… – respondo, arrogantemente. Começa a irritar-me, o indiano… Não sei se por perceber esta irritação, o homem faz uma pequena vénia, pede desculpa, dá meia volta e começa a afastar-se. Não percebo. Que código?

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Vejo as horas no telemóvel. 21h08. O meu olhar não abandona o dispositivo. Ouço os passos a afastarem-se, a misturarem-se na escuridão, e finalmente percebo.

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- Espere! – ordeno. O homem para mas, não sei porquê, permanece de costas. Tiro a minha carteira e da mesma vejo o bilhete lilás. 371293. Aproximo-me do indiano e solto o número. Ele volta-se, olha-me nos olhos por um segundo, e no instante seguinte o seu olhar adquire um rosto pensador.

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- Queira acompanhar-me, por favor. – pede, mantendo a sua cordialidade enjoativa. Di-lo sem se voltar e começa a caminhar em direcção à escuridão. Quando os meus olhos se habituam ao negro em que imergiram, vejo mais um portão pertencente à propriedade da casa número 39, na parte lateral, este já em melhor estado. Para minha surpresa, o indiano abre o mesmo portão e entra. Não faço a mínima ideia do que se está a passar, e chego a duvidar que Godelieve tenha algo a ver com tudo o que vejo. Hesito. Ele pára e parece-me um pouco irritado. Sem falar, suplica com o olhar que continue a acompanhá-lo, ao que acedo. Percorremos um caminho de azulejos partidos, dividindo um jardim notoriamente desconsiderado, de onde nada me surpreenderia ver um qualquer felino aparecer, até que estamos perante uma escadaria que nos transporta para uns quantos níveis abaixo.

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Ao descermos o lance de escadas, vejo diante de mim uma porta de madeira. O estado é tão lastimável que não compreendo como Godelieve escolheu este sítio para o nosso encontro…

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Porém… Por mais que treine a minha mente para estar preparada para o inimaginável, tenho estes esporádicos deslizes que apenas me fazem rejubilar com a surpresa materializada. O indiano tira uma enorme chave do bolso, que usa para abrir a porta e me apresentar o brilhante cenário.

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Foi algo estranho, dado o contraste entre tudo o que poderia (não) imaginar e o que realmente vi. Diante de mim vi um surpreendentemente amplo salão a meia luz, carregado de fumo e leve música, e um sem número de estranhos compartimentos, divididos por biombos de pano púrpura. Estando ainda uns degraus acima do nível do salão, tinha uma visão abrangente da estranha sala. No meio um estreito corredor, de cada lado duas filas de compartimentos com cerca de 3 por 3 metros, e cuja porta parecia ser uma mera cortina de tecido. Ao contrário do pano que revestia cada compartimento, as cores das cortinas variavam imensamente, mas escorregando com o olhar até ao fundo, e vendo uma cortina lilás, algo que disse que me levariam até ali.

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Sem saber para onde desaparecera o indiano, tenho outro diante de mim que, da mesma, forma, não sei de onde apareceu. Tem um sorriso simpático e pergunta-me o código. Volto a retirar o pequeno papel do bolso, e lanço, mais uma vez, o número de seis dígitos que até ali me trouxera. O olhar da pessoa que tinha à minha frente adquire uma efémera expressão de pensamento, até que solta um “concerteza” e me pede para o seguir. Não me tinha enganado, e dirigíamo-nos para o compartimento de cortina lilás, cujo número era… 13. Pelo caminho tentei, discretamente, ultrapassar os finos tecidos com o olhar, mas o que via eram apenas vultos, aparentemente sentados. Confesso que me passara pela cabeça cenas escaldantes de sexo, numa espécie de orgia à distância… Cada compartimento parecia ter um casal, até que, ao chegar ao compartimento número 13, descubro o primeiro onde apenas uma pessoa existia…

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O indiano limitou-se a guiar-me até à porta do mesmo, desaparecendo sorrateiramente de seguida. Sem saber o que me preparava para ver, respirei fundo, e mergulhei os meus dedos no desconhecido. Vi Godelieve que, com um vestido preto, um marcado mas ainda assim subtil risco da mesma cor nos olhos e com seu cabelo impecavelmente amarrado, me esperava. Estava a uns metros de mim, chamando-me com o seu sorriso. Estava sentada a uma mesa vestida com uma toalha branca e adornada por uma vela ardente, da mesma cor do seu vestido, e isso deixava-me a pensar se estaria num clube, num estranho bar, num restaurante, ou ainda num outro qualquer local cuja categoria me escapava… O som que me chegava era sedutor e situava-se algures entre a estranha fronteira entre o Jazz e Blues, como não podia deixar de ser.

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- Boa noite! – cumprimenta-me Godelieve, quando me aproximo da mesa. Reparo que me sinto constrangido com a maneira como a cumprimentar, algo em que não tinha pensado. Tendo passado aquela cortina, por um lado sentia-me a milhares de quilómetros de todas as outras pessoas que habitavam o mesmo salão, mas por outro lado o suave murmúrio das suas vozes actuavam como o constante relembrar da ameaça que era um olhar atrevido… Todavia, após me sentar, Godelieve levanta-se, dá um passo na minha direcção, senta-se no meu colo. Cruza as pernas, e a sua saia abre-se de maneira que me permite vislumbrar as suas magníficas linhas quase até à cinta. Sinto-me repentinamente quente por dentro, e quero tocar-lhe. Eventualmente entretida com os meus conflitos, a minha diva pega, com a sua mão esquerda, na minha mão direita, e assenta-a sobre a sua coxa, carimbando o momento com um longo beijo nos meus lábios.

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- Já te explico onde estás, meu querido… – solta, finalmente, trazendo alguma luz sob todo o mistério que toldava a minha mente. Sorrio inocentemente, manifestando o quão perdido me encontrava. Godelieve volta a sentar-se, e aponta com o olhar para o meu maço de tabaco, de onde tiro um cigarro para cada um de nós.

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- Sempre é uma boa alternativa ao Vrijheid, diz lá… – sugere, após a sua primeira e longa passa no cigarro.

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- Parece-me ser. Se ao menos soubesse onde estou… – confesso.

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- Não sabias deste sítio, pois não Theodoor? – a pergunta é retórica – Diz-me tu onde estás… Não reparas em nada no ambiente, no que te rodeia?... – pergunta, desta feita visando uma resposta. Com dificuldade, o meu olhar abandona a sua figura crava-se nas frágeis paredes que nos rodeiam, atravessando as mesmas e atrevendo-se a imaginar.

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- Vejamos… imagino que apenas casais aqui estão… imagino que esses casais estão estranhamente compenetrados um no outro… vejo… – estranho – vejo que os empregados… são todos indianos?!

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- Exactamente. E que te diz isso? – pergunta.

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- Que estamos na Índia?... – respondo, sarcástico e divertido.

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- Tudo bem. Já foste perspicaz o suficiente… – parece-me ver alguma desilusão. Mas que quer, como posso fazer ideia de onde estou?

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- Tu estás no… chamemos-lhe assim… tu estás no antro dos infiéis de Westland… – solta, entre mais uma passa do cigarro, com um sorriso que anseia descortinar o meu…

terça-feira, 15 de julho de 2008

Só

Ter alguém comigo seria bom. Olho ao redor, e vejo os outros com algo que não tenho para mim. Pessoas riem, conversam, e eu rio, eu converso. Mas este pensamento, e este estranho sentimento de solidão permanece dentro de mim, a relembrar-me da sua existência, da minha existência… solitária. Saio para fumar um cigarro. Olhar à volta e ver apenas caras a sorrir fazia-me sentir como a parte errada num momento Kodak.

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Acendo o cigarro e viajo para trás.

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- Tudo, e tu? – minto, a alguém que passa com três canecas de café na mão e me pergunta como estou.

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Dou uma passa e viajo para trás. É-me difícil assimilar este sentimento de solidão. Sinto-me destreinado, como um menino que se esqueceu como se lê determinada frase. Não me sinto bem, e não tenho ninguém a visitar-me. Apenas a soma destas duas frases me permite perceber que aquilo que sinto é solidão. Quando tento explicar,… ou quando tentava, quando ainda no sub-mundo, explicar a alguém o que era isto de não saber o que se sente, ninguém me percebia. E eu não percebia o porquê de não perceber o meu interior. Muita heroína a destruir as percepções de emoções, muita ressaca a destruir a vontade de as ter. Agora sei, ou começo a saber, que antes da heroína, veio a dor, e antes da dor, não veio nada. Apenas eu apareci para a abraçar e a deixar dentro de mim. Cego, pensei que algo que escondia a minha dor me traria alguma paz. Cego, percebi que me deixou a 4 centímetros do abismo.

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O cigarro acaba e tenho de voltar para dentro. Olho o céu. Está bonito. Não está frio, e por isso liberto-me da minha camisola. Este sou eu, e nada mais. Rodo nos calcanhares e vejo a porta que me trará de volta a uma espécie de mundo real que, espero, um dia me receberá como um igual…

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Which Witch?

Lembro-me como se fosse hoje. Era Fevereiro, o termómetro apontava 7 graus negativos, e estava um nevoeiro como nunca tinha visto. Contudo, para um Fevereiro Norueguês, este estava a presentear-me brandas noites. Trabalhava numa Comunidade Terapêutica, ajudando pessoas a libertar-se da prisão que é o mundo da droga. Vivia com eles, na mesma instituição, e tinha o hábito de dar uma corrida por dia.

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Mas nesse dia atrasei-me. Atrasei-me e não pude correr à hora do costume. Veio o jantar, e duas horas esperei, para a comida assentar. Entretia-me à procura de emprego, viajava de site em site, até ver a hora de ir correr chegar. Porém, quando chegou essa hora, o sol tinha-se já posto. Vivendo tão no meio de nada como vivia, via o meu percurso habitual de corrida completamente imerso numa nuvem, sendo a única fonte de luz uma lua cheia, que brilhava lá no alto, ajudando um pouquinho. Decidi ir.

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A cada passo, mais me emergia na escuridão. O nevoeiro era tão denso que conseguia apenas ver uns poucos metros à frente, e as ilusões ópticas abundavam. Corria pelo meio dos campos, olhava à volta, pouco via, olhava para a frente, e via uma muito subtil sombra da floresta que atravessaria. Ouvia Sigur Rós, que fazia com que todo aquele ambiente entrasse em conluio com os meus atrevidos pensamentos, e sentia estar a correr dentro dum sonho. Não de tão bom que era, mas por parecer, realmente, um sonho que vivia, mas com consciência. Não me belisquei, pois a certeza que era a realidade, existia. Continuava a correr, e mergulhei na floresta digna dum conto dos irmãos Grimm.

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Passo ante passo, o coração a bater, dou uma curva à direita, tentando ter cuidado para não escorregar nas esporádicas poças de gelo que (já não) me surpreendiam. Curva à esquerda, e mais uma ilusão óptica. Lembro-me da tese que tinha feito sobre alucinações, e tenho a certeza estar a confundir um qualquer estímulo real por outra coisa qualquer. Mas não passa. Nasce no meu peito alguma adrenalina, e o ritmo de corrida abranda. Sim, parecia-me um caldeirão... em fogo. Ouço o crepitar da madeira. Não consigo ver nada mais além de dois metros para cada lado, e algo que me parecia um caldeirão… e ouvia o barulho. Seria possível estar a alucinar, em vez de estar a ter uma ilusão? Parei de correr, e permaneci uns segundos. Como sabia que não estava a sonhar, tudo me parecia muito estranho. A adrenalina continuava a arder, mas calma. Fecho os olhos durante 4 segundos, e volto a abrir. A adrenalina dispara. Não só continuo a ver o que via, a ouvir o que ouvia, mas vejo uma sombra diante do caldeirão. Sinto-a rodar, e caminhar em direcção a mim. Queria voltar-me e fugir, mas algo em mim não mo permitia, ficando ali, e cima duma dessas poças de gelo, como que hipnotizado. O vulto aproxima-se e percebo ser uma mulher. Sai de entre as árvores, e está a um metro de mim. É muito velha, mas incrivelmente bonita. Está vestida de preto e tem um chapéu em bico.

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- És uma bruxa? – ouço-me perguntar, em português.

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- Sou – responde. Di-lo em norueguês, e percebo pela simplicidade do que diz – Tens fome? – pergunta. Sinto-me confuso, pois percebo perfeitamente o que pergunta, tenho quase a certeza que o faz em norueguês, e lembro-me que não sei como se diz fome nesta língua… na minha mente tento repetir, mas apenas português aparece. E como percebeu a minha pergunta?

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- Tenho… até tenho…

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- Então anda comigo. – ordena, suavemente. Da mesma maneira, pega-me na mão, e volta a pedir-me que vá consigo. É tudo demasiado estranho e fora do normal para eu fugir. Estranhamente, sinto-me bem. Dou um pequeno pulo para saltar o pequeno fosso que separa o caminho do mato, e vou com ela. Não sei se a sua mão está quente ou fria, mas o que quer que esteja, está muito. Ela caminha, com dificuldade, em direcção ao caldeirão. Curva-se, afunda as mãos no fogo, não se queixa, e tira algo que me parece uma sopa estranha. Não sei onde a põe, mas continua a caminhar. Cada vez mais dentro da floresta, aparece outro caminho, que atravessamos. O nevoeiro vai-se dissipando, mas de certa forma que me permite continuar a vê-la, e apenas a ela. A sua casa é velha, muito velha, como as casas das bruxas devem ser. O portão range, naturalmente, ao abrir, e a porta da casa igualmente.

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Sentamo-nos na cozinha, velha, muito velha, onde uma lareira acesa nos aguarda. Assim como não sei onde armazenara a sopa que tirara, não sei de onde a tirou agora, e como veio parar a uma tigela, que me espera, a fumegar, cima da mesa com uma toalha velha aos quadrados. Senta-se à minha frente.

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- Que tens para mim? – pergunta, em norueguês. Não me assusto.

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- Não sei… – respondo, em português – E tu, que tens para mim?

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- Não sei… acho que te posso mostrar como vais morrer… – sugere, descansada, antes de enfiar a colher com a sopa na boca.

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- És a bruxa do Big Fish? – sinto a minha pergunta estúpida, mas tenho que a fazer.

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- Não, filho… Isso é só um filme. Quem sabe inspiraram-se em mim… – graceja – Mas queres saber ou não? – experimento a sopa que, apesar de não saber de que é, me sabe incrivelmente bem.

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- A sopa é de quê?

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- Não é de criancinhas, não te preocupes… é de muita coisa… mas estás a fugir à pergunta, filho. Queres saber?

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- Posso responder antes de ir embora?

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- Quem te disse que vais embora? – mais um gracejo. Tem sentido de humor, para uma bruxa. Comemos a sopa em silêncio, e pergunto-lhe como se tornou uma bruxa.

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- Eu não me tornei uma bruxa… nunca foi a minha profissão de sonho…

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- Mas… é uma profissão? – interrompo.

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- Estou a brincar, filho. Tenta acompanhar… Como dizia, eu não me tornei uma bruxa. As pessoas é que me foram tornando uma bruxa…

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- Como assim?

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- Nem sei, filho… Pelo facto de ser diferente de toda a gente desde o momento em que nasci, pelo facto de me dar muito bem sozinha, as pessoas foram-me afastando, e criando estórias acerca de mim. Talvez por acharem que me dava bem sozinha, e que era independente, que não precisava de ninguém…

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- E precisavas?

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- Na altura precisava, sabes… Quem é que não precisa de ninguém? Na altura precisava. Não era por ser independente que não precisava de ninguém. Mas depois das pessoas te colocarem um rótulo, é muito difícil escapar. Muito mesmo. As pessoas quando te dão um rótulo, agarram-se às crenças que têm… e se fazes algo que vai no contrário do que pensam, como eu fazia, quando tentava falar com alguém, ou ter amigos, elas assustam-se… Chega a uma altura em que deixas de tentar… Claro que nasci com um ou outro talento, mas só depois de me rotularem como bruxa, tive de aceitar, não o que sentia ser, mas o que as pessoas me faziam sentir ser… Se calhar foi aí que me tornei uma bruxa…

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- Mas estás a falar comigo! Sou diferente? Porque é que tentaste comigo? – pergunto, intrigado. Cruzo a perna e dou um gole do café, que tanto se bebe por terras escandinavas, e que apareceu misteriosamente na mesa da cozinha.

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- Filho… – diz, mexendo o açúcar do seu café, que segundos antes eu não sabia onde estava – Eu estou a falar contigo… para te comer!! – diz, tentando imitar o lobo mau. Vislumbro uma fileira de dentes perfeitamente alinhados…

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- Está bem que não estás habituada a ter companhia, mas tens de treinar as tuas piadas… – interrompo, estranhamente descontraído, achando-me o máximo por estar a fazer uma piada dizendo que as suas piadas são más.

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- É, talvez tenhas razão… – responde – Bem, como dizia… Eu estou a falar contigo, meu querido, porque estás a sonhar!

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- Não estou! – respondo, quase chateado. Apercebo-me que a razão pela qual estava chateado, era que não queria que aquilo fosse um sonho.

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- Estás sim, lamento. Experimenta beliscar-te… – assim o experimentei, e solto um leve grito de dor.

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- Agora apanhei-te! – ri, a bandeiras despregadas – Estás a sonhar, como te disse, mas é claro que sentes dor nos sonhos! – sim, desta vez apanhou-me.

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- Mas existes mesmo?

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- Sim, existo. Mas não aqui no sítio para onde te guiei. Queria que me visses neste ambiente porque é o mais fascinante para as bruxas viverem… na verdade vivo num condomínio fechado em Bergen… – vê os meus olhos arregalarem-se, mas a voltarem à posição normal, quando percebo, sem me explicar, que está a brincar. Percebe que percebo – Vivo num local parecido com este, mas que não é em Mysen. E decidi falar contigo no teu sonho, porque se me repudiasses, não me sentiria mal com isso, pois… tinha sido só um pesadelo teu. Mas revelaste-te um jovem muito simpático! – coro – Sabes… quando estás habituado a ser repudiado, crias o teu próprio mundo, onde aí tudo é teu e tudo está sob controlo. Porém, quanto mais tempo passa, mais te habituas a ele, e mais medo crias em relação a falar com outras pessoas. E ganhas estranhos hobbies, como eu fiz com a bruxaria. Coisas que te mantenham ocupada e que não te façam pensar na solidão cruel que vai dentro de ti. E habituas-te.

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- Mas… as pessoas diziam que eras uma bruxa… tu dizes que não eras… no entanto, estás no meu sonho… isso não é bruxaria?

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- Sim, sim, ok, admito… mas é como te digo. Fica difícil demais lutares contra aquilo que dizem que és, e vais perdendo forças, não importa o quão forte sejas, e entregas-te, como disse, não ao que sentes, mas ao que te fazem sentir…

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- Mas já pensaste que podes apenas ter tido azar com as pessoas que conheceste?

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- Já pensei muitas vezes nisso, mas também já não-pensei nisso outras tantas… quando toda a gente que conheces diz o mesmo… claro que a informação pode simplesmente ter passado de pessoa para pessoa… mas a dada altura cheguei à conclusão que se o ser humano é alguém tão estúpido ao ponto de confiar mais em informações estúpida e indirectas acerca de outras pessoas… sem sequer lhes dar uma hipótese… então os seres humanos talvez não valham muito a pena conhecer…

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- Mas quiseste conhecer-me… – digo, fazendo o Porto que magicamente apareceu na minha mão.

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- Quis conhecer-te, porque tu nunca ouviste de mim. Porque soube de ti, e que estavas aqui há pouco tempo, e pensei em experimentar falar com alguém que não conhecesse nada de mim. Pois se fosses daqui, serias exactamente igual, meu querido… – fico em silêncio, a pensar. Seria eu, realmente, “igual”. E estaria esta opinião acerca dos seres humanos tão acertada assim? Pensava no quão facilmente corrompível é, de facto, a mente humana. Tantas vezes que nos entregamos a preconceitos, a estereótipos, não querendo saber por nós, mas encostando-nos ao conforto que é ver a informação, por mais estúpida que é, chegar até nós, e aceitar qualquer juízo, quem sabe condenando as pessoas a ser catalogadas com imagens que não são as suas… e todos fazemos isto… e todos criticamos quem faz isto. Que estupidez. De certa forma, criticamo-nos a nós próprios, mas sem coragem de os fazer directamente, preferindo criticar tudo o resto, ignorando o facto de que também nós… nos incluímos nesse resto… Levanto-me.

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- Eu quero conhecer-te na VIDA real! – ordeno. Ela levanta-se. Está à minha frente. À nossa volta uma imensidão de gelo. Estamos no meio dum enorme lago congelado. Sinto a sua pele rejuvenescer lentamente, e vejo diante de mim alguém que sei, que tenho a certeza saber quem é, mas a quem a minha mente adormecida não me deixa aceder.

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- Filho, tu não me podes conhecer na VIDA real, porque eu não existo.

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- Como assim? Mas disseste…

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- Pois menti… eu não existo, porque eu sou apenas o materializar que o teu cérebro conseguiu fazer das tuas próprias questões… não reconheceste de lado nenhum o humor foleiro? – ouço-a dizer, não me acreditando na informação que chega até mim.

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- Mas… o facto de seres uma bruxa… isso tem algum significado escondido, então? – estou confuso – Eu sinto-me bem com o que penso, ou sinto, não preciso de o esconder num canto escuro no meio da floresta… ou tenho?

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- Isso, filho, é o que tu tens de descobrir!

domingo, 29 de junho de 2008

Godelieve - Cap 41-48 [muita coisa mesmo, mas tinha de postar]

LXI

- Amigo… – começa Arie. Estamos a sair do restaurante. É meia noite, as ruas estão desertas e, não conhecêssemos nós melhor esta cidade, pareceria ser o final duma promissora noite – Nunca pensei dizer-te isto… mas estou completamente apaixonado por ti! – oferece-me, com um sorriso radiante – Tu és completamente estúpido! Tu ouviste o que disseste ao Ruud. “O” Ruud! Que tomates pá! Claro que tenho pena que hoje seja a última noite em que te vejo com VIDA, mas ainda assim… parabéns! – o seu tom é de gozo misturado com euforia. Acendo um cigarro e caminhamos estrada fora, com o Blues Bar como objectivo. Penso na excitação de Arie, e na maneira como não a sinto dentro de mim. Ao invés, sinto um misto de paz e loucura habitar o meu corpo, descansando na minha mente. “Porque é que não fiz isto há mais tempo?”, ocorre-me. Por um lado, ainda bem que não. Mas esse… lado… é muito específico, pois refiro-me a que, se o tivesse feito há mais tempo, talvez não fosse convidado para a festa onde a minha VIDA começou a mudar. Mas por outro lado, tinha-me poupado de um monte de hipocrisias e situações desconfortáveis. Claro, claro que podia ter simplesmente dito ao verme que não estava, nem nunca estaria, interessado em entrar para a sua lista, e que se me voltasse a convidar poder-nos-íamos chatear… Mas francamente… Qual é a piada disso?

Dei as 300 Repúblicas como quase perdidas, pois apesar de ter voltado a ouvir Jazz, não era bem Jazz, mas mais uma das tantas tentativas frustradas de fazer soar a novo, algo que tem de soar a velho. Poucos conseguem, sendo a minha amiga sueca Lisa das únicas… Apesar de por vezes abusar um pouco. Enfim, nada é perfeito neste mundo imundo. Pois tendo dado as Repúblicas como quase perdidas, permanecia em mim a vontade de continuar a beber, com o meu caro e complicado amigo, ao som de algo que soasse a velho. O Blues Bar, cujo nome não prima pela originalidade, tinha a espectacular característica da sua música ser, ou ao vivo, ou proveniente duma grafonola. Muito à velha guarda, como um bom bar deve ser. Por vezes quase aplaudia a resistência do governo face às novas modas globais, que tendem a tornar os diferentes cantos do mundo como meras divisões da mesma casa...

Chegamos ao prédio cuja cave alberga o bar destino. À nossa frente um portão de ferro azul claro contaminado quase na totalidade pela ferrugem insistente. Abrimos o portão, entramos, tudo é muito escuro, sendo a única luz que nos chega muito ténue, proveniente duma pequena janela, algumas escadas abaixo. O bar, apesar de com o conhecimento de muita gente, funcionava de forma ilegal. Nunca percebera… ou melhor, nunca quis perceber se tinham algum acordo com alguém no governo, na polícia e se sim, que acordo era. Mas o que é certo era que, apesar de para uma clientela algo seleccionada, o bar funcionava para lá das prontas horas a que muitos dos restantes fechavam. Batemos à porta, dona dessa pequena janela que nos fazia adivinhar actividade interior, e vemos uma pequena porta, dum vidro espesso, atrás dessa mesma janela, se abrir. Dá lugar a um par de olhos aparentemente femininos, cansados, e muito velhos. Procura um outro olhar conhecido, e pára no meu. É impossível saber se sorri, mas a porta abre-se, e vemos o interior dumas das pérolas da cidade. É completamente sem estilo, e talvez seja isso que o faz tão interessante. O chão, apesar de sempre plano, ora é de alcatifa, de tacos, ou de pedra. O mesmo acontece com as mesas, os candeeiros, o balcão. Ao entrarmos e pousarmos os casacos, sentimos cada olhar pregado na nossa nuca, mas apenas por alguns instantes, voltando cada pessoa para as suas conversas, para as suas bebidas. Tenho dificuldade em ver uma mulher que seja, senão a senhora que, curvada se arrasta até ao balcão e tira dois copos. Bebamos nós os que bebermos, os copos serão aqueles. No meio, numa pequena mesa de madeira escura, uma grafonola faz soar Nina Simone. Belo.

Sentamo-nos ao balcão e pedimos dois whiskeys. Sinto o entusiasmo de Arie.

- Pá já tinha ouvido falar deste sítio, mas nunca aqui tinha vindo. Costumas cá vir? – pergunta.

- De vez em quando… – respondo, arqueando os ombros, o que acaba por ser mais esclarecedor do que a frase. Ainda se queixa um pouco por, em tantos anos, ser a primeira vez que ali vamos, mas dou pouca importância. Não me apetece falar muito. Na verdade, penso se não preferiria, neste momento, que Arie fosse para casa, e me deixasse como companhia apenas Nina Simone, algum whiskey, e os meus pensamentos antecipatórios do dia seguinte. Estar com Godelieve. Estar com aquela mulher que conseguira, momentos antes, permanecer tão estática quanto uma simples fotografia, perante o seu apaixonado, e especialmente, perante as palavras do mesmo. Não sei se quero falar com ela acerca desta noite. Mas, da mesma forma, não sei se não quero…

- E amanhã, como vai ser? – pergunta-me Arie. Falava dum qualquer assunto que se prendia com alguma coisa. Não sei.

- Não sei amigo… Disse-lhe para aparecer no Vrijheid, mas não lhe disse horas nenhumas, pelo que muito provavelmente, dei-lhe o poder de decisão. Não a estou a ver a jogar pelo seguro e aparecer cedo… – verdade…

- E depois?

- Depois o quê? – pergunto, mais para mim do que para si.

- Depois vão para onde?

- Tens razão… Ainda não pensei nisso. Foda-se e da última vez em que estivemos juntos, e na vez anterior, foi tudo perfeito… Foda-se nem sei o que vou fazer… – respondo. Queria ter pensado em algo. Porém, não me sentia desesperado em descortinar o que fazer. Quem sabe pelo álcool que tinha bebido, quem sabe com a autoconfiança ganha através do episódio no restaurante, quem sabe… por ser este novo eu que teima em me surpreender a cada minuto com novos sentimentos e maneiras de estar… não me sentia desesperado. Esse sentimento muito me conhecera em alguns momentos nos passados dias, em que via tão longe os milésimos de segundo em que teria Godelieve do meu lado. Milésimos de segundo, não mais. Um piscar de olhos, entre uma ou duas respirações, e tudo se passa, passando cada bater do coração a fazer-se sentir como duas estações fossem… Assim é a VIDA, e não há nada que possa fazer. E que bom…


XLII

Acordei tarde. O relógio mostrava uns sorridentes minutos para lá da uma da tarde. O desespero que não sentira na noite anterior permanecia discreto, como se eu tivesse ficado subitamente imune a sentimentos antecipatórios desagradáveis.

Ligo a aparelhagem, e John Coltrane soa por todo o apartamento, quem sabe se por mais alguns ao redor. Tiro um Dunhill, e vou à varanda, sentindo, ao fumar, o Vento quente e cansando suspirar por toda a cidade. Não sei se sorrio, mas sinto um latente sorriso povoar a minha reflexão. Daqui a umas horas estarei com Godelieve. Penso se terá alguma surpresa a manga, como deixar um bilhete no bar a dizer-me para ir ter a algum lado… não seria novo. Penso se me importaria. Não. Não tenho nada mais a não ser aquilo de que me lembre no mesmo instante em que os meus olhos beijem os seus, pelo que uma elaborada surpresa sua seria algo que não rejeitaria. Penso novamente. Muitas das suas surpresas não são parcas em sentimentos semelhantes ao que referi algumas linhas antes… e não me apetece sentir que ainda vive, esse amigo a que chamo de desespero…

Encolho os ombros, volto para dentro. Abro o frigorífico, e uma garrafa de champanhe olha para mim com olhos matreiros. Fico no mesmo sítio por alguns segundos, tentando recordar-me de quando ali a deixei, mas não consigo saber. Tenho diante de mim duas opções. Sabendo que a verdadeira eventua… certamente será a que me diz que o devo ter feito quando bêbedo, não me importo de pensar, divertido, no quão longe Godelieve conseguiria ir, chegando ao ponto de entrar em minha casa e ali deixar o elixir, pensando em tudo… Sim, já agora, porque não?... Estou no chuveiro quando penso que, se a trouxer para minha casa, se não se importar de ter mais uma dado que seja acerca de quem eu sou, talvez possa tomar a iniciática de espontaneamente um dia aqui aparecer… Sim, quero-a aqui.

Apesar de tudo, apesar de ter-me lembrado de tal opção tão em cima da hora, quero que pareça que tenho tal encontro em mente desde o primeiro instante, pelo que, numa correria algo desorganizada, tento organizar os cantos da habitação, fazendo-a ganhar um ar mais digno do repouso dum sedutor… A tarefa revela-se árdua mas nada que com uma boa música, um copo de whiskey em jejum a acompanhar e umas pausas estudadas para fumar um cigarro, passe dificilmente. Tomo o meu segundo banho, e sinto-me um pouco tonto. Não preciso de olhar para o copo de whiskey vazio para perceber o porquê. Por vezes, por menos que beba, sinto imediatamente a nuca a avisar-me que se avizinha festa. Acontece, como digo, muito raramente, mas acontece…

No espelho do elevador vejo a imagem que me chega. Adoro este contraste de décadas que temos em Hetwestenland com o resto do mundo. Foda-se é a segunda vez em dois dias que digo apreciar uma política nacional. Mas… que dizer, é a verdade. Posso dizer que gosto de alguns resultados, ainda que deteste os meios… Na verdade, este contraste com o resto do mundo deixa-nos a nós, cidadãos, como se sentindo num filme dos anos 40, se repararmos com atenção na maneira como nos vestimos, como falamos uns com os outros, como nos divertimos. A música parou no tempo, o vestuário esticou a sua VIDA, o trato não perdeu carisma. Olho então no espelho, e sinto-me bem por ser alguém como sou. Sinto-me como nunca me senti quando vivia a minha VIDA de outros tempos, a minha VIDA de formiga num quente formigueiro.

Como que para comprovar a minha teoria há muito tempo descoberta, ou pensada, por toda a gente, ligo o rádio e escolho, aleatoriamente, uma estação. Charlie Parker, parece-me. Pois claro. Quando estaciono, um pouco longe do café, preparo-me para o desconhecido. Imagino que aparecerá, mas não tenho a certeza. Não tenho a certeza se esperarei, mas não posso imaginar quanto eventualmente terei de o fazer… Saio do carro, reparo nas ruas, não tão visitadas por mim durante o dia, cheias de gente, cheias de motas, essas sim, do século passado, cheias de brancos em fatos e de locais a vender artigos. No que a esta política diz respeito, posso dizer que me enoja não só o processo, mas claro, o resultado. As diferenças de privilégios entre os brancos e os locais é algo inimaginável. Daí que estes cada vez mais se segreguem, sendo Hetwestenland o país do mundo com cidades exclusivamente para locais… enfim. Arie, por exemplo, não o percebe, nem mesmo quando lhe pergunto qual o mal deles terem cidades para “eles”, quando nós temos o país para “nós”…

E assim, apesar do estacionamento ter sido, como disse, longe, com estes pensamentos demoro apenas dois segundos a estar frente ao bar. Começa mais uma etapa…


XLIII

- Não sei, meu querido… – responde-me. Porque não sabe? Quero que saiba, pois se o souber, eu saberei, e a facilidade em suportar os dias de espera torna-se, quem sabe, mais tolerável. Da mesma forma, se eu souber, posso, pelo menos tentar, encurtar essa distância. Levanta-se, e passeia nua. Reparo que se arrepia, mostrando-me que não sou o único a sentir a diferença de temperatura entre a noite e a tarde.

- Vais ter de saber… – surpreende-se. O seu sorriso é matreiro, e o seu olhar diz-me que me sente, nesse instante, da mesma forma… matreiro. Talvez simplesmente não esteja habituada a ouvir-me assim autoritário. Na verdade, não está habituada a ouvir-me, seja de que maneira for. Os nossos encontros esporádicos permitem tudo menos a criação de hábitos… estes apenas acabam por residir na distância, nos sentimentos. Estou habituado a ter Godelieve longe de mim, estou habituado a sentir-me com vontade de a ter por perto. Mas não estou habituado a realmente tê-la… Investiga o que vê ao seu redor e volto a deitar-me completamente, vendo apenas o tecto cru. Ouço os seus passos, suaves, ora se aproximando, ora se escondendo, até que sinto o colchão ceder um pouco. Pousa cada joelho em cada lado do meu tronco e, sem eu deslocar o destino do meu olhar, este muda, tendo como paisagem a sua face. As suas mãos aterram no meu peito, e deslizam um pouco, com as unhas a deixar uma gentil recordação.

- Vejamos… Vou escolher continuar a não saber, mas vou deixar-te um pouco mais confortável, deixando-te com… algum conhecimento… – diz-me, enigmaticamente – Não te digo quando vai ser, mas posso dizer-te que vai ser o intervalo mais curto que tivemos… – o receio que tinha do que ouviria dissipa-se, deixando-me descansado, animado. Imagino, então, que a próxima vez que a veja seja dentro de uma semana. Sinto-me livre das típicas preocupações, das vezes em que desloco a minha atenção de Godelieve, deixando de me massacrar com o tempo que esperarei para a ver de novo, e sentindo-me em pleno para aproveitar cada segundo da sua presença.

Quando chego ao Vrijheid, não me espanto ao perceber que Godelieve não me espera. Sento-me, peço um Jack Daniels, e com o mesmo, o empregado traz-me um papel. Sinto-me subitamente despertado ao perceber que é da mesma cor que o primeiro que, certo dia, encontrei à minha espera no mesmo bar, com um pedido. Não o leio de imediato. Pouso-o na mesa de madeira com a informação a assentar na mesma, e tomo o meu tempo com o whiskey. Porém, ainda que não tentando ler o que tenho diante de mim, o meu olhar escapa e cola-se ao bilhete lilás, fazendo-me pensar em quantas horas terei de esperar, ou onde terei de ir…

Alguns minutos depois, o copo está vazio, e eu estou mais perto de não assim me sentir. Pego no bilhete, e vejo uma morada. Leio uma vez, duas vezes, e percebo, com admiração, que a morada… é a minha morada. A minha morada? Leio de novo, apenas para confirmar o que já sabia. Peço outro whiskey, e encosto-me para trás, pensando no quanto isto me apanhou desprevenido. Claro que, apesar de pensar que Godelieve seria bem capaz de fazer algo assim, nunca pensei que fosse capaz de fazer algo assim. “Incrível” – a única coisa em que consigo pensar. No entanto, à medida que vou bebendo, sentido o travo prazeirosamente amargo da bebida, vou caindo um pouco na realidade, ficando apenas com a surpresa que sabe onde vivo, deixando de lado a surpresa de que me espera na minha própria casa, sendo que tal não é possível. Concerteza me esperará no hall, com um sorriso e uma promessa de bons momentos. Sim, de certeza…

Pago a bebida, e deixo o bar. Queria ser eu a escolher onde nos encontraríamos. Escolhi, e vamos encontrar-nos onde escolhi, mas não por minha opção. Sinto-me um peão no seu jogo, sem qualquer parecer nas suas decisões, e a indecisão que sinto quanto ao que sentir acerca disso deixa-me confuso.

A viagem escapa-se em breves instantes, e estou em frente ao meu prédio. Entro, procuro por si no hall, não a encontro. Saio novamente, fumo um cigarro, ela não aparece. Começa a nascer em mim, a par de algum nervosismo face a sua ausência, a ideia de que possa estar, realmente, em minha casa. Mas como? Tiro do bolso o bilhete lilás, que leio pela enésima vez, e presto atenção a esse pormenor que é o facto da morada ser precisa ao ponto de ter o número da minha porta… “Bem…”…

Eis que me encontro no mesmo sítio onde me encontrava poucos momentos antes… Espero um pouco, não ouço nada. Abro a porta, não vejo nada. Não a chamo, limito-me a perscrutar o que me rodeia, na esperança de ver as suas linhas. Passeio na sala, em todo o apartamento, não a encontro. É quando me preparo para fumar um cigarro na varanda que dou por si. “Como é incrível, e fantástico, que me faças constantemente sentir como um personagem dum romance qualquer…” – penso, extasiado. Está sentada numa espreguiçadeira, bebe algo que me parece um Martini, usa apenas a parte inferior de um bikini laranja, e protege-se do sol com um largo chapéu da mesma cor. Não me viu, não sei se me ouviu. Sorrio e num segundo deixo de me preocupar, ou de pensar em como conseguiu entrar, apenas me concentro no quão deliciosa é, na maneira como me faz sentir. Olho para dentro de mim e sinto-me perto de mim como apenas Godelieve me faz sentir. Na aparelhagem inspiro o som de Diana Krall. Tiro a garrafa de champanhe do frigorífico, duas taças, e levito até si.

- Isso é uma grande notícia, sabes… – respondo-lhe, baixinho, deixando o meu olhar abandonar o tecto branco e concentrando-me completamente no seu rosto. – E temos ainda todo o fim-de-semana… – Deita-se em mim.

- Não desta vez… – ouço-a dizer – Só nos temos por mais um par de horas… desta vez…


XLIV

- O quê? A gaja

- Não a trates por gaja, por favor.

- Tudo bem. Mas… estás-me a dizer que ela entrou no teu apartamento? Amigo, não sei em que te estás a meter, mas deixa-me dizer-te que me parece estupidamente interessante, e interessantemente estúpido. Ela é perigosa… – diz-me Arie. Estamos no Blues Bar, numa noite de Terça-Feira. Bebo um Calvados, ouvimos boa música enquanto lhe conto os pormenores menos reveladores do fim-de-semana. É perigosa? Sei-o bem, como o sei. É perigosa pela maneira como me despertou, como me mostrou sentimentos que já não estava habituado a manejar, como me mostrou que a VIDA poderia ser mais do que aquilo que conhecia. Um perigo que traz consigo simplesmente a natureza de viver e existir.

- Sim, é… Mas sabes que nem sequer falamos de como lá entrou! Quer dizer… posso pensar que surripiou as minhas chaves. Mas é impossível. Tinha de mas tirar, sair de onde quer que estivéssemos, enquanto eu dormia, copiá-las e voltar! Não, não é possível… – constato, procurando mentalmente outras opções. Nada me parecia ter cabimento ou sentido. Antes de estar com ela, de a ver sentada na minha varanda, a possibilidade do que efectivamente se verificou tinha atravessado o meu pensamento, e sempre pensei que, caso confirmasse o que pensava, lhe perguntaria como o tinha feito. Contudo, vê-la levou-me, como sempre, para um universo distinto, onde os planos nunca chegam a acontecer, onde tudo se faz e cria ao sabor da ocasião, onde não existo além dos segundos que nos distanciam. Incrível.

- O teu porteiro tem a chave? – pergunta-me Arie, apresentando uma opção desconhecida.

- Tem, mas ela não lha pediu, tenho a certeza.

- Como é que tens a certeza?

- Não faz o estilo dela… – concluo.

Quarta-Feira. Acordo a pensar na minha certeza da noite anterior. A minha pequena VIDA junto de Godelieve ensinara-me vezes sem conta que certezas era algo que não existia neste mundo onde apenas vivíamos nós os dois. Ainda assim, imaginava todo o cenário que levaria Godelieve a pedir a chave ao meu porteiro, e simplesmente, não sei porquê, tudo se me afigurava como estranho, sem bater certo. Apesar de, como disse, saber que não posso ter certezas com Godelieve, sei que quando descubro os processos que levaram a um qualquer resultado, ainda que nunca o imaginasse, as coisas fazem sentido e batem maravilhosamente certo. Não, não tinha sido assim. Porque não lhe pergunto? Porque não preciso de saber. É bom conseguirmos manter-nos na escuridão em relação a alguns assuntos. Creio que na maior parte das vezes o fazemos porque morremos de medo do que a resposta pode significar. Todavia, desde há algum tempo atrás, tenho escolhido permanecer debaixo da sombra do mistério em algumas ocasiões, simplesmente porque sim, abraçando o bom que é não tudo saber, a beleza da incerteza. Sabendo tudo, dissecando todos os detalhes da nossa VIDA quotidiana leva à inevitabilidade de ver a nossa existência como uma folha de cálculo, em que temos consciência de tudo o que se passa… Claro que o mais curioso é a ilusão que é olhar para esta folha e julgarmo-nos senhores das nossas decisões, detentores do conhecimento daquilo de que somos feitos…

Uma vez entregando-se à realidade que é o simples facto de que nunca nos conheceremos a cem por cento, de que todos os dias nos modificamos, nos transformamos, deixamos de procurar querer saber tudo. Passamos a entregarmo-nos aos sentimentos, a existir de Vento em poupa… Sorrio ao pensar se serão estes mais alguns pensamentos passageiros que assaltam a minha reflexão ameaçando partir. Não sei… Sinto que todo este tempo em que permaneci morto mentalmente, sem pensar nem questionar nada fez com que, subitamente, uma vez que comecei a fazê-lo, a minha mente queira recuperar o tempo perdido, e passam por mim milhares de filosofias, pensamentos… É estranho, e nem sempre fácil de controlar, mas de qualquer maneira, controlo é algo que sinto que não tenho de ter…

Ligo a Arie, e ouço os toques caírem na escuridão, não atende. Penso, desta feita duma forma mais despreocupada, que estará com Helga. Escolhi respeitar a cobardia do meu amigo, por mais estranho que isto possa parecer. Talvez o cobarde esteja a ser eu, por estar a ver uma estupidez e permanecer no silêncio. Mas ainda sinto que deve ser ele e apenas ele a mo dizer. Talvez para o confirmar, ligo para a casa da sua amada.

- Sim? – atende Adriaan, com a sua voz de menino.

- Olá filho! – respondo, efusivamente. Noto a sua alegria, que me recorda que não tenho estado com ele. Sem grandes rodeios, pergunto-lhe quem está em casa, recebendo como resposta “a mamã e o tio Arie” – já é tio… vai ser difícil para Adriaan mudar de tio para “papá”… Mudo habilmente de assunto, e peço para chamar a sua mãe.

- Helga, olá, tudo bem?

- Olá! Sim, tudo bem. Diz?

- Estava a pensar se podia ir buscar o Adriaan agora… – quero, realmente ir buscá-lo, estar com ele. Mas não tem de ser “agora”, posso esperar, não tenho que fazer mais tarde.

- Hum… sim, mas tem de ser agora? É que agora não dá muito jeito…

- Por acaso agora era mesmo perfeito… é que mais tarde tenho umas coisas para fazer… – respondo, diabolicamente. Quase que vejo os perfeitos contornos duma figura vermelha em cima do meu ombro… Helga toma o seu tempo até responder, e quando o faz solta um seco “ok”.

Estou à sua porta dez minutos depois. Helga abre, e vejo o meu rebento correr na minha direcção. Examino com atenção, procurando indícios que me contem se cresceu, se sofreu alguma mudança que eu tenha perdido. Não me parece. Faço por entrar, e não vejo mais ninguém. Confesso que qualquer dos desfechos seria confirmador do papel que Arie almeja alcançar na VIDA de Helga. Se ali estivesse, isso dir-me-ia algo, quanto mais não fosse o simples facto de eu ver com os meus próprios olhos ambos no mesmo local. Como não está, confirma-me, não que ali esteve, mas das suas intenções. Sendo que já sabia que ali tinha estado, pela boca do meu inocente filho, o facto de já não estar revela a sua visita como tudo menos inocente, pois se assim o fosse, não tinha por que desaparecer…

Passei o fim de tarde na alegre companhia de Adriaan, que me mostrava ser a mais eficaz pessoa em retirar os meus pensamentos da silhueta de Godelieve. Pensava na maneira como Helga, nestes últimos tempos, também o fazia, mas duma forma diferente. Diferente pois os meus pensamentos não mudava tanto de pouso, mas simplesmente eram agitados, divididos, confundidos.

Helga, mulher das duas faces, uma a mesma de sempre, a outra a de nunca, voltaria a me surpreender nesta mesma noite. O seu toque voltaria a ser necessitado, os seus olhos voltariam a ser observados, a sua VIDA voltaria, ainda que por uns breves segundos, a respirar…


XLV

Salto No Tempo

- Nunca me chegaste a dizer como entraste em minha casa… – pergunto-lhe, não procurando necessariamente uma resposta. A curiosidade fazia-se sentir, não digo que não, mas o sentimento de não saber talvez seja mais prazeiroso que o satisfazer duma necessidade de conhecimento…

- Pois não, tens razão… – responde, sem mais nada dizer. Estamos em sua casa. Não percebi muito bem como combinamos que fosse Godelieve a decidir o nosso destino nesta noite, sendo que da última vez, apesar de termos feito o que eu tinha planeado, sinto que não foi por minha decisão. Penso nos últimos dias, e recordo com exactidão o momento em que nos vimos pela última vez…

- Não desta vez… – ouço-a dizer – Só nos temos por mais um par de horas… desta vez… – e cala-se por uns longos minutos. Vejo o seu corpo elevar-se com delicadeza a cada inspiração minha. Da maneira como está deitada, chega apenas até mim o delinear das suas perfeitas longas pestanas, que se vão fechando por períodos mais prolongados… Os meus braços apertam-na, e tento senti-la por mais algum tempo. Penso nos dias que se avizinham sem si, e o desespero de não a ter não se faz sentir de forma tão esmagadora como doutras vezes… mas ainda assim sinto cada segundo como fatal, como anunciador da sua doce ausência… Curioso. Pensando realmente bem, como posso tratar a sua ausência como doce? É facto que não trato, mas não menos verdade é que foi o que me saiu, o que atravessou o meu espírito. Talvez a constante inconstância que sinto em relação a Godelieve tenha encontrado alguma momentânea paz, e os meus sentimentos de amor-ódio tenham proposto umas tréguas.

Embalado pelos meus próprios pensamentos, deixei-me escapar do mundo consciente. Entrei num sonho qualquer, em que tinha Godelieve dum lado, numa Savana, correndo, e do outro Helga, num mato qualquer cheio de neve, esperando-me, olhando-me. Sem sequer pensar na estupidez do contraste da natureza avanço pelo meio dos dois destinos, o meu olhar pousa em Helga, e quando volta para Godelieve nada vejo… até que, ao fundo, percebo um felino… parece-me um leopardo, a abrandar o ritmo, até que dá volta e meia sob si mesmo e se deita no chão, espetando as garras do seu olhar na minha pele. Quando volto a procurar Helga, esta, por sua vez, assume o formato duma ave. Ora me parece um mocho, ora uma coruja, um corvo, e outras formas cujo nome desconheço. Na savana está frio, apesar de me parecer ver o sol ao fundo. No mato está calor, apesar de ver o branco da neve preencher todo o panorama. Aproximo-me do leopardo.

- Vem, querido… – chama.

- Vai, querido… – ouço o pássaro dizer, por detrás do meu ombro…

Quando acordo, os meus braços abraçam um pedaço de nada que Godelieve me deixou. Sinto o frio dançar no meu quarto, e o peso da solidão que ela deixou para trás como algum estranhamente reconfortante. A minha mente viaja uns anos, e desta vez sinto-me como um adolescente que suspira pela sua amada. Sem fechar a janela, saio do quarto e mudo o som da aparelhagem, deixando a tocar Dizzie Gillespie, A Night in Tunísia. O som agitado é algo que sinto entrar-me no espírito. Sirvo-me de um whiskey, sento-me no sofá frio de cabedal beje.

Dou algum tempo para que, caso queira, explique como conseguiu entrar, e quando vejo que não o faz pergunto se não terá algo para ouvirmos. Olho à minha volta e o nervosismo ainda não me deixou. Já que tenho de o sentir, escolho apreciá-lo. Dou alguma atenção ao meu interior, e pego nas partículas de fogo que sinto no meio dos pulmões, oscilando, ora subindo, ora descendo ao longo dum qualquer feixe imaginário dentro de mim. Gosto. Olho ao redor e cada detalhe contribui para que o nervosismo não desça. De vez em quando esbarro numa fotografia de Ruud, e chega mesmo a subir um pouco. A casa é imperial, algo ainda melhor do que alguma vez imaginei. Cada centímetro do chão está coberto de tapetes típicos do norte da ilha, vermelhos com rebordos dourados. Os cortinados seguem o mesmo padrão, e cada peça de mobília ostenta uns recortes arrojados e artísticos na madeira castanha escura. Embrenhado nestes detalhes, dou um gole do copo de Mestiba, e começa a chegar até mim Billy Holiday. Vejo Godelieve voltar a entrar no hall onde me encontro, entre a sala de estar e o quarto. O quarto. Dou uma olhada subtil, e penso, desconfortavelmente, se acabarei a minha noite na mesma cama onde uma das pessoas que mais detesto costuma dormir.

É quando Godelieve se senta no meu colo que percebo que tardava o sentimento de despreocupação que a sua presença normalmente imprime em mim. Efectivamente, no momento em que a sua pele volta a tocar o tecido das minhas calças, no momento em que sinto o seu peso instalar-se no meu colo, o seu tronco encostar-se a mim e o seu perfume me sorrir, volto a ser aquele que mais gosto de ser, o verdadeiro Theodoor.

Toda a gente quer, e precisa, de um grande romance na VIDA, cheio de riscos, perigos, paixões assolapadas e arrependimento. E ao abraçar Godelieve, ao sentir os seus lábios trincarem os meus até ao limite da dor, ao sentir a sua alma instalar-se na minha pele, sinto intensamente a beleza de viver, nesse preciso instante, momentos há algum tempo desistidos. A minha mente abandona definitivamente a última semana, os erros, as confusões, deixando as minhas acções de tanto pesar… quase posso dizer que me sinto eu quando com Godelieve, podendo assim aliviar o peso de más decisões, lançando-as para a responsabilidade daquele pedaço de pessoa que me habita quando distante de si.

Levanta-se e afasta-se, deixando-me sozinho. Hipnotizado, o meu olhar segue a sua silhueta felina, e apenas aqui me lembro do sonho que tive. Godelieve como o meu felino, Helga como uma indecisão de aves qualquer que de momento não quero perceber. Claro, um felino. Claro. Encho o copo de Mestiba e bebo tudo duma vez, preparando-me para entrar onde nunca pensei entrar.

Sorrio, e apenas penso, ao olhar para quem me espera, em como é bom ser eu…


XLVI

Helga abre a porta, permaneço na entrada, vendo Adriaan desaparecer no corredor. Ouço o som da televisão acender. Helga, muda, olha-me, ostentando o seu corpo que já tinha esquecido, debaixo da camisa de dormir de seda branca. Olho para as suas bonitas, ainda que não agressivas, linhas, e penso se, só porque tive a possibilidade de a ver nua por anos, tenho de ter privilégios para sempre…

- Suponho que queiras uma bebida… – sugere, para minha surpresa. Estava pronto para ir embora, mas o convite, que matreiro surgiu, subitamente despertou em mim uma vontade de ficar. Entro, sento-me num dos grandes bancos do pequeno bar no canto da sala. Percebo que toca, baixinho, e proveniente duma coluna escondida atrás do bar, algo que me parece ser Zero 7. Olhando o ecrã da aparelhagem confirmo, Destiny é a música. Helga desapareceu do meu campo de visão por uns momentos, e a minha mente volta a instalar-se nesses… privilégios. Sendo que não temos mais nenhuma relação, que somos apenas… amigos… não deveria coibir-se mais? É estranho, e eu próprio estranho a minha antiquada reacção, mas talvez seja apenas o medo daquilo que desperta em mim. Afinal de contas ver aquela beira sensual do lado do seu seio a escapar pela camisa de dormir é algo que não me deixa, nem nunca deixou, indiferente. Minto. Deixou-me indiferente a maior parte da minha VIDA, mas hoje não. Que estupidez…

Volta com uma garrafa de Baileys. Senta-se do outro lado do bar.

- Não me digas que tinhas a garrafa no frigorífico… – digo, numa questão que trazia consigo já a crítica, dada a certeza que tinha, tendo a garrafa na mão.

- Qual é o problema? – Foda-se! O olhar que me lança, que sei ser sem qualquer intenção, deixa-me um pouco zonzo e descontrolado. Não sei definir bem, mas tem uma certa pureza, misturada com jovialidade. Sorrio ao pensar que, pelo menos na parte da pureza, o seu sorriso está a milhas do de algumas pessoas…

- Bem, não é nenhum… – digo, entregando-me – Mas ainda assim vou querer gelo. Ao menos iludo-me quanto à razão do frio… – remato, com um sorriso. Baileys no frigorífico… E que estranho é o facto de uma pessoa fazer algo mal-feito e isso apenas nos aproximar um pouco… Parece-me que estranho é a palavra do dia. Mas se pensar… com Godelieve tudo corre sempre perfeitamente. Monta para mim um espectáculo que nunca sei onde começa ou acaba. Tanto quanto eu sei, qualquer seu trejeito pode ser uma encenação, indo os seus dotes muito para além do cenário ideal, e assentando, especialmente, no estar ideal. Não creio, ou não quero crer, mas ainda assim…

Com Helga… bem, estou a re-descobrir Helga, e sinto-me mais perto de si nestes últimos tempos do que nos últimos anos. Não estou apaixonado por si, não a quero de volta. Claro que me confunde, por vezes, e claro que anda com Arie, mas ninguém é perfeito… nem eu o sou, porque me confunde, nem ela o é, porque anda com Arie…

Adriaan não tarda a adormecer, e Helga deita-o, voltando a fazer-me companhia no instante seguinte. Está sentada do outro lado do bar, e conversamos em voz baixa sobre trivialidades. Sinto assuntos mais interessantes em lista de espera. Não sei quais, até me ouvir perguntar-lhe se tem estado com alguém nos últimos tempos.

- Não me fizeste já essa pergunta noutro dia?

- Não sei… fiz?

- Acho que sim, meu querido. – finalmente começa a abandonar aquele olhar puro, que inocente e involuntariamente me seduzia, e dá um passo para o campo da nunca frustrada sedução.

- E que respondeste? – pergunto. Reparo como mantemos o tom de voz num nível estranhamente baixo. Não o fazemos por Adriaan, este dorme no seu quarto com a porta fechada, não nos ouviria. Que língua falamos?

- Hum… Talvez tenha respondido que não tens que saber o que ando a fazer… – responde, cruelmente.

- Não tenho, tens razão… mas o facto de não ter de saber implica que não vá saber?

- Como assim?

- Simplesmente… acho que nós não sabemos, ou fazemos, apenas aquilo que temos de saber, ou fazer. Muitas outras coisas acontecem, não fruto da necessidade, mas da simples casualidade, divertimento…

- Ou da simples necessidade de errar… – completa. Levantou-se, deu a volta ao bar, aproximou-se de mim. Assentou levemente a palma da sua mão direita na minha face e disse-me esta frase que me recordou de si, que me recordou da necessidade de errar. Volta a virar-se, e senta-se no sofá – Sabes… acho que me devias apresentar a tua… amiga… – ??? O meu silêncio fala por mim. Permaneço sentado no banco do bar. Vejo apenas o seu cabelo louro, estando o resto do seu corpo escondido. Quero dar um salto e cair na sua alma. Não estou sozinho, e isso faz com que seja mais difícil gerir e analisar os sentimentos que correm dentro de mim. A confusão de me sentir tão atraído por Helga mistura-se com as frases estranhas vindas de si mesma, com os pensamentos que partem de mim… – Sim… imagino que estejas confuso. Mas, de certa forma, acho que gosto de algumas partes deste teu novo tu. E alguns pensamentos teus acabam por chegar até mim e, duma maneira completamente estranha, fazem-me sentido… – impressionante como se atreve a dizer-me que Arie lhe conta o que vai dentro de mim…

- E que gostas de ouvir? – pergunto, ao me levantar, e sentar-me do seu lado, no sofá. A minha respiração flutua desalinhada com o resto do ambiente que tenho perante os meus olhos. O seu olhar entra dentro dos meus poros como entrou poucas vezes na minha, na nossa VIDA. Helga aproxima-se e sinto que me devo afastar. Erros? Que erros cometer? Como é confusa esta concepção de abraçar o erro como parte da VIDA. Uma vez que o fiz decidi que nunca mais buscaria a perfeição no meu estar. Mas como escolher que erros cometer? E será que, ao escolher que erros cometer, continuo nessa busca, que pensava esquecida, de almejar a perfeição? Não faço ideia, e este não saber deixa perante mim a única vontade de a beijar.

- Não te posso dizer tudo o que gosto de ouvir. Senão ia entregar-te todas as armas para poderes ter o mais estúpido jogo…

- Como?

- Ias usar-me, ter-me, ao mesmo tempo que ias usar, e ter a tua outra amiga… e se eu ficar assim, se não te deixar saber o que quero, ou não quero, posso ser eu a escolher se te quero ter… – e beija-me. A minha língua sente o sabor do licor nos seus lábios, a minha mente explode e apenas consigo questionar a peculiaridade das situações em que escolho me colocar. A maneira como me beija afigura-se-me como nova, desconhecida, e gosto de sentir os seus lábios, que me parecem, não sei porquê, destreinados, a deitar-se com os meus.

Não tardamos a fazer algo que meia uma hora antes achava que nunca voltaria a fazer consigo. Sinto o seu calor entrar em mim, o meu sangue palpitar nas suas veias e os seus olhos fecharem-se de prazer. Sinto o rebentamento estranhamente perto, e faço por me controlar, faço por esperar que Helga atinja o seu próprio clímax ao mesmo tempo que o meu. as minhas mãos tentam abraçar cuidadosamente os seus seios, mas acabo por rasgar um pouco a camisa de dormir, vendo as partes do seu corpo a sorrirem timidamente. Nada me passa pela cabeça a não ser a surpresa da imagem que vejo, e a roda-viva que tudo o que existe tem de ser…


XLVII

Quando acordo, no dia seguinte, na minha própria cama, procuro sinais de ressaca. Abro os olhos, não sinto nada. Levanto-me, não me custa. Não sinto os pulmões pesados de fumar em cadeia, não sinto a cabeça latejar. Procuro sinais de ressaca que não encontro. Confunde-me, mas talvez esteja a procurar no álcool a razão para ter acontecido o que aconteceu… mas desta vez está inocente. Penso no que bebi, e facilmente percebo que meia garrafa de Baileys, de acordo com os meus padrões de ultimamente, não seria o suficiente para me deixar… assim – tudo o que consigo dizer – assim. Mas então, porque tenho este estranho sentimento de arrependimento?

Ligo a aparelhagem e deixo a tocar PJ Harvey, com o álbum White Chalk. Escolho a faixa When Under Ether, cuja sonoridade combina com o meu estado de espírito. Não me interessa a letra, interessa-me apenas o leve sentido de desespero e tristeza… não a sinto em pleno dentro de mim, essa tristeza, mas mais predominantemente o tal estranho sentimento de arrependimento. Dou voltas e mais voltas à minha cabeça, enquanto fumo um cigarro na minha varanda, procuro as minhas novas filosofias de VIDA, mas nada parece conseguir fazer com que me sinta mais leve. Dever-me-ia ser indiferente, apenas uma experiência, um momento bem passado… ou se um erro, deveria aceitá-lo, e seguir. Claro que seguirei, mas a aceitação desse mesmo erro está-me a ser mais difícil do que imaginei. Talvez se fosse fácil, ou inexistente, não seria na verdade um erro, mas simplesmente algo que não fora planeado. Sim, talvez resida neste facto a eterna diferença… Talvez os erros tenham os seus tempos para serem aceites…

Momentos. Penso nos momentos que constroem a nossa existência, e se por um lado permaneço com o arrependimento dentro de mim, por outro lado sorrio perante a ironia e o prazer que é esta VIDA de constante incerteza. Sinto frio, e sinto o relógio chamar-me para o chuveiro. Algo de que, por mais que mude, não me consigo descolar. O relógio. É triste necessitarmos de certas coisas como necessitamos, como do trabalho. Foda-se, preciso de dinheiro para viver, e preciso de trabalhar para o ter. Mas porque faço algo que não me agrada inteiramente? Que posso fazer de diferente? Sinto-me tão emergido no sistema que vejo a saída como longe, muito longe, talvez apenas alcançável com o interminável galopar da idade, a utopia da reforma. Sei que quando lá chegar, se o fizer, grande parte da minha energia se terá esgotado, e morro de medo de me sentir incapaz para viver como sempre quis viver, para aproveitar os meus últimos anos de existência. Acordo! Acordo subitamente destes estúpidos pensamentos, e aí sim as minhas novas filosofias de VIDA entram em acção e têm o poder de mudança. Felizmente. Ainda que não inteiramente capazes de afastar certos sentimentos, desta feita expulsam eficazmente estes pensamentos de futuro que me desagradam. O presente. Tudo o que me interessa. Como estou, onde estou, quando estou. Existo agora, não no amanhã, e por isso mesmo o meu sorriso adquire um esgar mais genuíno, e não penso nesse futuro.

O dia escorrega em menos segundos do que imaginara, e estou, ao fim da tarde, na rua frente à embaixada americana, onde tivera uma reunião. Escolhi vir a pé. O dia continua a entregar-me a mesma temperatura, que deixa no meu corpo a incrível noção de presença. Penso em Godelieve e em quando a verei. Nada combinamos. Canso-me. Por vezes, por mais que adore este jogo de gato e rato que fazemos, por mais que aprecie este não saber, canso-me. Eventualmente tudo valerá a pena, mas penso quanto tempo durará esta espécie de relação que temos. Quero-a apenas para mim. Não sei se quero envelhecer consigo, mas quero tê-la para sempre.

Sento-me numa esplanada, do primeiro bar que encontro, peço um gim tónico. Penso no que seria envelhecer com Godelieve. Não sei porque hoje a minha mente está a viajar para tão longe. Todavia, desta feita, ao contrário do que fiz nesta manhã, não uso os meus princípios para afastar o que povoa a minha mente. Não o faço pois não tenho uma opinião sólida em relação que me habita, no que a isto diz respeito. Sei que a quero ter para sempre, sei que quero chegar a casa e ter alguém como ela à minha espera, sei que quero sair uma noite qualquer com Arie e saber que, nesse instante, tenho alguém para quem voltar. Quase sinto que quero conhecer a verdadeira Godelieve. Penso na diferença que haverá entre o foder, o gostar, a paixão e o amor. Sinto cada um destes termos como escadas num espectro invisível e que eu, completamente cego, vou percorrendo, às apalpadelas. E não sei onde me encontro. Sei que o primeiro termo como o mais importante cedo pereceu, sei que o terceiro, o guardo dentro de mim, mas entre os restantes, tanto a sua presença como o seu grau, é para mim um completo mistério. Não a quero amar. Pelo menos ainda não. Mas significará que não o farei, ou que não o faço, simplesmente porque não o quero? Se tal sentimento não viaja dentro de mim, porque preciso tanto de a ter?... E porque não o quero sentir? Acho que, no fundo, me assusta a posição incrivelmente frágil em que qualquer pessoa que ama se encontra… Quando amamos não somos nós. Somos pedaços da nossa alma misturados com aquilo que achamos que a outra pessoa quer que sejamos. E como avaliar com exactidão aquilo que os outros querem de nós? Impossível. E precisamente por ser impossível, quem ama estará, de certa forma, vetado ao insucesso, a menos que o sentimento seja partilhado pela outra pessoa. E com Godelieve… como posso saber? Como posso saber aquilo em que pensa, se tampouco sei o que eu próprio penso quando na sua presença?... Não demoro muito a perceber que talvez eu tenha sido, de uma maneira, aquilo que espera que eu seja, e sendo assim, a matemática é simples… esta é apenas o resultado da equação que acabei de enunciar, em que do outro lado estava o amor…

Meu deus, como é terrível e ao mesmo tempo incrivelmente saboroso pensar… Como que um interminável caminho, pensar leva-nos, guia-nos através de estradas de poeira que não nos deixam perceber o destino. O fio condutor entre cada pensamento torna-se cada vez mais delgado, sendo, a partir de um certo momento, impossível perceber onde estamos…


XLVIII

Quero testar Godelieve. Quero, mas não sei se consigo. É Sexta-Feira, saio do parlamento, e o sol pergunta se não quero dar um mergulho no mar. Quero testar Godelieve, e não ir ao Vrijheid, ou a minha casa, os dois únicos sítios onde pode ter deixado alguma mensagem, creio. Se fizer exactamente o que me apetece, que é ir para a praia, estou a estudar a sua precisão, o seu domínio do nosso destino. Mas por outro lado reconheço o impossível que é Godelieve seguir-me de tal forma, e chego à conclusão que ir para a praia seria o mesmo que estar a negligenciar o nosso encontro.

Assim, entro no carro e passados alguns poucos minutos estou onde quero estar. Não tenho calções, mas não me importo. Abro a porta de trás, dispo-me e lanço toda a minha roupa para dentro do carro, ficando apenas de boxers. Sinto os raios de sol queimarem a minha pele, penso no dia anterior. Não consigo perceber a falta de coerência que o tempo tem em Hetwestenland. Mas agrada-me. Não poderia, agora que me encontrei, ser mais feliz em qualquer outra parte do mundo senão neste país podre, cheio de vícios e corrupção, mas cheio do perfume sedutor que é o “não saber”. Em mais nenhum país no mundo “não se sabe” como em Hetwestenland. Fecho o carro, entro na praia. Sinto a areia quente como lava cor de trigo, vejo o mar, calmo, a agradecer ao sol a minha presença. Sento-me. Sofro um pouco, pois quero correr, mergulhar. Mas sento-me. Sento-me e olho ao redor por uns minutos. Tudo é tão assustadoramente real. Tento absorver as sensações que me são transmitidas, mas é demasiada informação. Tento prestar atenção ao azul do mar, à brisa que, sorrateira, me apaixona, ao riso dos meninos a brincar, às cores que constroem a minha realidade. Por um momento percebo o quão mágico tudo é, e sinto que o mundo foi feito para mim, mais ninguém. Sinto cada átomo de mim, cada átomo do mundo onde me incluo como uma peça de teatro a que eu, sozinho, assisto de rasgado sorriso e a que aplaudo entusiasticamente. Deito-me para trás e construo a minha própria melodia. Fecho os olhos, vejo Godelieve. Sinto a verdadeira razão pela qual estou na praia, e não em casa ou no Vrijheid. Quero ser meu. O amor por Godelieve… usei a palavra amor. Escapou-me, sinceramente. Não interessa… o amor que sinto por Godelieve, sinto-o tão poderoso como destruidor, e se por um lado me agrada, por outro desagrada-me esse agrado. Vim para a praia porque era o que eu queria fazer, porque queria dizer a mim próprio que ainda sou meu.

Levanto-me e corro. Tento largar, numa corrida, todas as concepções que o mundo impõe sobre mim, e por uns breves segundos, em que vejo apenas o meu destino, em que sinto as minhas pernas, destreinadas, a queixarem-se violentamente… por uns breves décimos de segundos em que salto, em que antecipo a queda e mergulho no atlântico frio, sinto-me diluído, um pedaço de areia e água abraçado pelo mar…

Devolvo com um sorriso a cara de espanto do Sr. Tom, o porteiro, ao ver-me entrar de tronco nu e cabelo molhado no hall do prédio. Sinto-me como um adolescente, e recordo-me de como sabe bem não fazer o que esperam de nós, mas fazer o que quero fazer. Porque se afasta o humano tanto do que é ser humano?... Buscaremos na falsidade a genuinidade?

Vejo-me no espelho do elevador, e compreendo a cara de Tom, sendo que tenho o cabelo completamente cheio de areia. Penso em chegar a casa, fumar um bom cigarro, a beber uma boa cerveja, a ouvir uma boa música na minha varanda, e de seguida começar a pensar em Godelieve. Corrijo, começar a pensar no nosso encontro, pois a pessoa já me habita o pensamento. Sem problemas…

Começava a encontrar-me surpreendido por não me ter ainda surpreendido, até que, ao chegar à alva porta número 39, vejo um pequeno envelope lilás colado na mesma. “Porquê lilás?...” – penso, divertido, ao abrir o mesmo envelope.

- 371293 – “Só pode ser um número de telefone…” – penso, alternando o meu ar para uma expressão de dúvida – “Bem, logo vejo…”. E assim continuo com o planeado. Sentado sob Nieuwe Adelaars, ouvindo Sigur Rós, e bebendo uma Shift, a melhor cerveja nacional, continuo com os meus pensamentos a saltitar de momento em momento. Vejo, ao fundo, o mar onde instantes antes eu me elevara, aprecio a adrenalina e nervosismo dentro de mim, sorrio voltado para dentro.

- Boa tarde. Suponho que falo com Theodoor. – ouço, do outro lado, uma voz masculina anunciar.

- Hum… Sim, eu suponho que sim… igualmente… – respondo, com alguma surpresa. Pensava no estranho que era Godelieve ter, por um lado, deixado um número de telefone, mas ao mesmo tempo ter-me contactado.

- Tenho instruções ir buscá-lo dentro de quinze minutos. Está bom para si? – a imagem que o espelho me devolve diz que não.

- Quinze minutos é capaz de ser um pouco puxado… Meia hora, pode ser? – pergunto, às cegas.

- Certamente. Alguma bebida, snack, ou música, em particular? – não percebo. Não percebo mas entrego-me, fingindo que percebo perfeitamente o que se passa.

- Hum, sim, concerteza. Mestiba e Miles Davis, pode ser?

- Sim, sem problema. Algum cd em particular? – pergunta, depois de uma pausa para, imagino, anotar os meus pedidos. Quando peço o Straight no Chaser, lança-me a última questão.

- A indumentária é smoking, obrigatoriamente. Sugerimos que traga algo leve, fácil de trocar. Obrigado. – e desliga. Estou confuso, muito confuso. Bebida, música, indumentária, que se passa? Gosto. Modifico a minha confusão ligeiramente. Um toque aqui, um toque ali, e as minhas sobrancelhas abandonam o olhar carregado e elevam-se um pouco, emprestando ao meu ar a energia descontraída e surpresa.

Assim, tomo banho a ouvir o In Your Honor acústico dos Foo Fighters, com todas estas questões por resolver a inundar a minha mente. Passados os pedidos 30 minutos, estou pronto. Sem saber o que a voz queria dizer com algo leve, optei por umas calças de fato de treino e uma t-shirt. Sentia-me nervoso e algo ridículo, pois podia estar a falhar completamente. Ainda assim, desci, sai do prédio.

Não sabia o que procurava, pelo que simplesmente esperei para ser encontrado. Acho que sempre recordarei os segundos em que vi o que vi, imaginei o que imaginei e, com agrado, confirmei. Ao fundo, do outro lado de um semáforo, uma limousine preta, naturalmente, esperava, nervosa (ou seria eu?) para avançar. Achei-me, como tantas vezes o faço, como o personagem do melhor filme de sempre, com a vantagem de que isto estava realmente a acontecer-me. Apago o cigarro quando o veículo estaciona à minha frente. Esperava ver Godelieve sair de uma qualquer porta, mas ao invés vejo um rosto familiar sair do lado do condutor. Aquela cara não me era, de todo, estranha. Não sabia ser era quem, uma vez, me tinha dado um bilhete no Vrijheid, se era quem me tinha conduzido até à mansão de Godelieve, ou mesmo a pessoa que trabalhava no hotel quando… estivemos juntos pela primeira vez.

Não diz nada, limita-se a abrir a porta.

Quando entro, surpreendo-me com o espaço que tenho diante de mim. Se por fora me parece confortável mas pequeno, ao entrar deparo-me com uma espécie de dimensão alternativa, na medida em que vejo o espaço como que duplicado, confortavelmente grande. Sento-me no banco do fundo. Do meu lado direito, pendurado na porta, um smoking. Arrancamos. No tecto da limousine, um pequeno triângulo pede o meu toque, e ao recebê-lo brinda-me com o som de Miles.

Uma vez vestido, sirvo-me de um shot de Mestiba. O copo é um pouco maior do que aquilo a que estou acostumado, pelo que penso em simplesmente apreciar o agreste líquido sabor, ao invés de o destruir num segundo. Encosto-me para trás, dou um gole, imagino para onde me dirijo. Não seguimos o caminho da sua mansão, nem sei onde estou. Venha o momento…

Venham os pedaços de momentos que Godelieve me oferece, venha o toque da sua pele e a sua boca molhada. Venha qualquer surpresa me apanhar prevenido, venha a doce companhia da sua melodia… Seja o que for, em momentos como estes sinto-me estranhamente preparado para o que quer que a minha musa tenha para me oferecer. Desde que ela esteja lá, eu estou onde for preciso…