segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

A Casa Número Treze

Deixo Y entregue aos seus pensamentos, e saio do restaurante, depois de pagar a conta. Está a chover, ajeito o chapéu, para me abrigar um pouco melhor. Apetece-me acender um cigarro mas sei que nestas condições seria em vão. A hora aproxima-se. Não faço a mínima ideia de onde nos vamos encontrar. Ou melhor, sei onde é, mas não conheço. Tampouco percebo o porquê. Quem sabe se sentiu desafiada com a minha nota e quis superar-me. Volto a entrar no restaurante. Dirijo-me ao balcão.

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- Por acaso não tens nenhum guarda-chuva que me possas emprestar? Amanhã trago. – o empregado olha para mim, mostrando-me, ainda que sem o querer, o quão surpreendido se sente com a pergunta. Não percebo o que tem de tão especial.

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- Hum, temos ali alguns que as pessoas esquecem… – e sai do bar, por uma porta que vai dar a um sítio qualquer – Pode ficar com este, não precisa de o devolver. – diz, estendendo-me um guarda chuva de castanho. O sítio onde nos vamos encontrar não é longe, creio chegar lá em 20 minutos. Posso ir de táxi, mas não só me apetece caminhar, mas também, e especialmente, não quero chegar mais cedo do que o combinado e ter de esperar, sentindo a ansiedade crescer. Canalizo a mesma em cada passo que dou. Chove muito, mas o Vento não se faz sentir, pelo que vejo as nuvens derramar suas gotas numa linha recta quase perfeita. Há poucos carros na rua, e os que vejo, deslizam suavemente, quase silenciosamente.

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Curva à esquerda, metros, curva à direita, metros, acredito ter chegado, meia hora depois. Pelo caminho, ecoam na rua os meus passos, entrando numa qualquer sonoridade com a chuva a cair no chão, sugerindo-me a banda sonora da minha própria VIDA.

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Vejo 3 armazéns abandonados e duas casas com o mesmo aspecto. Tiro o maço de tabaco e confirmo o número, que apontara no mesmo quando li a sua ardilosa mensagem. Número 13. Genial. Sorrio a imaginá-la a pregar o número na casa, apenas na tentativa de manter alguma coerência dentro de toda esta confusão. Apenas uma fantasia descabida, pois Godelieve não se daria a esse trabalho. Com ela, as coisas acontecem, simplesmente, pelo que tenho vindo a aprender.

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Estou à porta do número 13, bato uma vez três vezes. Não volto a confirmar o número, mas parte de mim quer fazê-lo, por não fazer a mínima ideia do que é aquela casa, de como a conseguiu, de como está por dentro. Sugere-me uma habitação abandonada e imunda. Ninguém abre, acendo um cigarro. “Ainda não chegou”, penso. A ansiedade momentos antes temida é agora sentida. Não tremo, mas sinto o meu peito queixar-se. Foco a minha atenção nessa parte do corpo, e tento sentir cada página da adrenalina que lentamente me corrói. Penso em sorte. Na sorte de a ter conhecido, e no que me mostrou de mim próprio, sem nada por isso o fazer. Penso em azar. No azar de… não sei. Penso se realmente virá. Sinto no meu pulso o ponteiro dos minutos avisar, a cada 60 segundos, que o tempo passa e continuo sem a ver.

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Estou de costas para a porta, olhando a desabitada rua, quando vejo uma luz reflectida numa possa de água a uns metros de mim. Dou uns passos em frente, volto-me, olho para cima e confirmo que a luz vem duma janela da casa número 13. Bato mais uma vez três vezes na porta, que permanece imóvel. Decido-me, e embato com toda a força conseguida na madeira podre, que cede, aparecendo diante de mim a entrada disponível, coroada por um ranger assustador. Vejo nada. Entro na casa, e vou sentindo um misto de medo com dúvida. As coisas que me faz sentir… Os meus passos reinam na casa, anunciando-se a cada segundo. Acendo o isqueiro e vejo, um pouco à frente, uma escadaria. Volto para trás, fecho a porta, e subo a escadaria. Vai chegando ao meu nariz um qualquer aroma, certamente proveniente dum pau de incenso. O medo vai desaparecendo, a dúvida batalha, e a expectativa ganha progressivamente lugar, passo após passo.

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Quando chego ao primeiro andar, vejo algo em completo desalinho com o que esperava ver dentro da casa número 13. Apenas os meus sentimentos mandam no olhar, suponho, porque o que vejo nada teria de especial para um qualquer observador. O quarto é velho, sujo, mas no meio do mesmo, como num universo paralelo de 3 por 3 metros, vejo um colchão, com lençóis e um edredão verde magistralmente arranjados, duas almofadas brancas. O mesmo colchão é protegido por velas, separadas a cada 10 centímetros. Reparo que a luz que vira projectada na rua não está já acesa, e tampouco sei onde se encontraria. Do outro lado do colchão, Godelieve, sentada numa cadeira de madeira. Ao seu lado, uma pequena mesa e outra cadeira. Na mesa vejo duas garrafas de champanhe, uma aberta, e uma taça. Tiro o chapéu, que atiro para um canto qualquer. Godelieve, sentada na sua cadeira, um pouco de lado, e com a perna cruzada, olha para mim, com um olhar felino e perturbador. Tem os lábios pintados de vermelho, o olhar elevado à provocação, como sempre, por uma simples linha preta, e o cabelo alinhado em suaves ondas, beijando seus ombros. Está apenas de roupa interior. Preta.

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Sinto o meu sangue viajar no meu corpo da maneira mais veloz e agitada possível. Sinto os pelos dos meus braços arrepiarem-se um pouco, e a garganta seca. Lanço-lhe um sorriso. A sua expressão permanece imutável. Assusta, hipnotiza. Contorno o colchão, e sento-me na cadeira, que me recebe sem soltar o mínimo rangido. Dou um gole do champanhe, e penso em tudo o que me rodeia. Incrível o cenário. E incrível como é incrível sendo tão simples. Uma cama, um aroma agradável, uma bebida e uma musa. Ela pousa sua taça na mesa, levanta-se, afasta a cadeira, contorna-me, passando mesmo à minha frente, até desaparecer do alcance da minha visão, para trás de mim. Sinto suas mãos frias nos meus ombros. Voam em direcção ao meu pescoço, e vão descendo, deixando atrás de si cada botão desapertado. Dou uma ajuda, e estou sem camisa.

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- Vamos continuar a nos encontrar assim? – pergunto, sentido os seus lábios percorrer o meu pescoço, que se arrepia ligeiramente… Giro um pouco a cabeça, e meus lábios, ciumentos, agarram os seus. Morde suavemente o meu lábio superior, sua língua lambe a minha. Levanto-me, ela caminha na minha direcção, e estamos frente a frente. Os seus olhos estão uns centímetros abaixo dos meus. Levanta-os, e vejo uma espécie de infinito, e algo que me faz esquecer tudo o que já alguma vez na VIDA tive, e que me faz querer trocar tudo o que possa vir a ter por mais um momento consigo. Pensamento romântico e estúpido, mas que não me abandona, por mais que (não) tente. A minha mão direita passeia nos contornos da sua anca. Beijamos devagar, quase em câmara lenta. Não sei porque o faz, mas eu faço-o para conseguir sentir ao máximo cada movimento da sua língua, para sentir, e não esquecer. Larga os meus lábios.

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- Eu não tenho nada contra… – responde, abraçando-me e desta feita sendo ela puxando-me para si, como se nenhum pedaço da nossa pele se pudesse dar ao luxo de não sentir o outro. Encosta a face no meu peito, e sinto a sua respiração quente. – Desde que nos continuemos a encontrar, pode ser da maneira que tu quiseres…

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Largamo-nos por uns segundos, enquanto volto a encher as taças de champanhe. Sinto nas mãos o frio das taças, e a necessidade de a ter, como se não lhe tocar fosse o mesmo que não respirar. Volto-me e encaro-a. O seu cabelo está molhado, e sinto algumas gotas deslizarem e juntarem-se à humidade das nossas bocas. As minhas mãos abraçam a sua cinta, puxo-a para mim.

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Elevo a taça, que se aproxima da minha boca. Ela toca no vidro do copo.

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- Não brindamos? – pergunta, com uma expressão sedutoramente infantil.

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- Brindamos. A… surpresas.

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- A surpresas... – não tocamos os copos, mas nossos olhares apontam um para o outro. Deitamo-nos no colchão. Não obedecemos à ordem das almofadas, deitando-nos da primeira maneira possível. Estamos nus. As línguas agora dançam agressivamente, ouço-a gemer um pouco. Numa vontade de acentuar esse gemido, a minhas mãos sobem suas pernas, e viajam suavemente ao redor de tudo o que deixa Godelieve num nível diferente. Esta entrega-se, afasta a sua boca da minha e sua cabeça pousa gentilmente no colchão. Não vejo o seu olhar, separado de mim pela sua pele, mas sinto-o perfurar-me. Deixo os meus lábios, a minha boca, tomarem o lugar dos meus próprios dedos, e entrego a Godelieve todo o prazer que lhe quero dar. Sinto as suas pernas tremer um pouco, como gesto reflexo de cada movimento meu. Passado uns minutos roda vagarosamente, arrastando-se ao longo do colchão, e está em mim da mesma forma que estou em si. Não há música no ar, a única coisa que ouço é a sua respiração acelerada. Afastamo-nos uns segundos, pegando cada um na sua taça, que esvaziamos num segundo. Comunicamos perfeitamente sem soltar uma única palavra. Godelieve deita-se. As suas pernas estão ligeiramente abertas, num convite que não posso, nem quero rejeitar.

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Muito dificilmente saberei o tempo que estivemos deitados naquele colchão. Tudo o que foi feito, foi feito com calma. Perdíamo-nos em beijos desesperados por longos minutos, sentia-mos as linhas do corpo de cada um, de tal forma que quase imagino cada detalhe do seu magnífico corpo, sem abrir os olhos. Os meus olhos querem ceder. Os seus já cederam, e vejo-o a escassos centímetros de mim, mas quem sabe longe na sua condição. Mas… não me parece que sonhe. Está demasiado calma, demasiado descansada. Demasiado perfeita, seja a fazer o que for…

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[salto no tempo – terceiro capítulo]

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Gone

XY

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Estou cansado. Doem-me os olhos, doem-me os músculos. Curioso, já que quase não faço outra coisa a não ser dormir. É o mais próximo que posso estar de ti, hoje em dia, ao dormir. Levanto-me, ligo a aparelhagem, Lullaby, dos The Cure. Deixo no repeat, e vou à janela.

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Imagino com quem estejas agora. O meu pensamento saltita entre o imaginário e as recordações. Num momento estás aqui, deitada na cama comigo a chamar-te dorminhoca, no outro momento, quando arrisco o imaginário, estás na cama de alguém que não eu, estás sozinha, estás em todo lado, menos comigo. Estás de todas as maneiras, menos… à minha maneira.

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Um certo masoquismo infiltrou-se em mim desde que te deixei fugir, e materializa-se em momentos como este, em que deixo a nossa música a tocar vezes sem conta, obrigando-me a recordar tudo, obrigando-me a não fazer nada além disso mesmo… recordar. O ritmo massacra-me, e a cada nota, tenho de esfregar os olhos… um homem não chora, dizem…

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Sem tomar banho, e tendo vestido qualquer coisa que aparece, saio à rua. Sim, levo a música a gelar-me os ouvidos. Caminho em direcção a algum lado, e acabo invariavelmente… no nosso banco, na nossa pastelaria, acabo invariavelmente em algo que já foi nosso, e agora é só meu. Não quero lembrar, a lembrança mata-me. Mas lembro-me. Incrível como a única coisa que me mantém vivo é algo que me mata de cada vez que a invoco. Estarei vivo ainda?

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XX

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Como sofro meu amor. O facto de saber o quanto sofres consome-me, ainda que pouco ou nada haja já por consumir. Vejo-te todos os dias, estou contigo todos os dias. Sou tu, todos os dias. Deito-me contigo, levanto-me contigo. Sei o que pensas, e vejo-o na tua expressão, quando olhas para o nada. Parti, sim parti, abandonei-te, é verdade. Mas queria voltar, amor. Parti porque tinha de o fazer, parti porque tinha de ir em busca de mim própria, desse por onde desse, daí que tenha partido, deixando-te apenas com um bilhete. Agora penso no quão estúpida fui, na maneira como não soube conciliar o nosso amor e a minha necessidade de descoberta. Pensei que não fosses compreender, talvez apenas pelo medo que eu tinha de o explicar. Muito provavelmente com medo de que me chamasses à razão, me fizesses ver que não fazia tanto sentido assim. Por isso mesmo parti.

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Como recordo aquele fatídico dia. Aconteceu tudo num instante. Num momento sinto, no outro não sinto, e vejo o meu próprio corpo no chão, num país distante, sem ninguém que me pudesse ajudar, identificar, sem nada… sem ninguém.

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Não acredito em deus, e por isso mesmo não percebo este limbo em que estou, e o massacre que é ver-te todos os dias, ver-te sofrer todos os dias, e não te poder tocar. Estarei a ser castigada pelas decisões que fiz? Como quero acreditar que não, e como temo que sim…

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Westland Story Nineteen

The Dining Rooms – Ink

The Dining Rooms – Thank You?

[- Vamos continuar a nos encontrar assim? – pergunto, sentido os seus lábios percorrer o meu pescoço, que se arrepia ligeiramente…]

Nesse dia não vim a casa depois do trabalho. Liguei a Y, e fomos jantar ao X. Envio uma mensagem para casa, a avisar o que tinha decidido. “Quando te lembrares que tens uma família, estamos por cá, no mesmo sítio…”, recebo, como resposta, deixando-me satisfeito por assim o ter decidido. Nestes momentos, em que obtinha reacções assim, sentia quase no máximo a repulsa pela rotina e VIDA que toda a gente acha normal. Ainda que essa resposta, quem sabe, fosse apropriada face a minha constante ausência…

- Vais-te encontrar com ela hoje? – pergunta.

- Como é que sabes? – pergunto, francamente surpreendido, na medida em que nada lhe tinha dito, ou sugerido.

- Meu caro, estás com essa cara filho-da-puta…

- Como assim? – questiono, antes de dar um gole do copo, cheio até três quartos de vinho tinto.

- Não sei bem dizer o que me sugere isso, mas acho que é um brilho qualquer que ganhas nos olhos. Meio maquiavélico, quase irreconhecível.

- Irreconhecível?

- Bem, a tua cara, está claro, é a mesma. Mas há algo em ti que muda, e pelo menos eu, que acho que te conheço bem, percebo logo.

- Achas que me conheces bem? – pergunto, pousando o copo na toalha branca e cinzenta, fruto de algumas sacudidelas do cigarro mal conseguidas. Sento-me um pouco mais à frente na cadeira, encarando-o, enquanto a espero a sua resposta, na qual estou francamente interessado.

- Não conheço? – responde, perguntando. Sinto que se sentiu invadido pela minha postura, suscitando nele uma dúvida que, imagino, desconhecia.

- Não sei, conheces?

- Deixa-te de jogos, ok? – atira, lançando o olhar para o ar, e pegando num cigarro – Se calhar tens razão, não conheço… Este tipo de merdas, o teu olhar, a tua postura, nem sempre é a mesma… - relaxo a postura, encostando-me um pouco para trás. Volto a encher o copo.

- Não sei que te diga. Posso dizer-te que, se há alguém que me conhece, és tu… – vai a interromper, soltando um par de letras que me deixa adivinhar o que vai dizer – Ela não me conhece, nem penses… acho que ela é quase quem menos me conhece. Conhece a ideia que tem do homem com quem se casou, e agarra-se a essa ideia idealizada (…) duma maneira que… me incomoda…

- Porquê?

[- Eu não tenho nada contra… – responde, abraçando-me e desta feita sendo ela puxando-me para si, como se nenhum pedaço da nossa pele se pudesse dar ao luxo de não sentir o outro. Encosta a face no meu peito, e sinto a sua respiração quente. – Desde que nos continuemos a encontrar, pode ser da maneira que tu quiseres…]

- Porque eu sinto-me diferente. Tens razão. Foi desde que a conheci, é verdade, mas acho que agora sou mais eu. – sinto que se interessa na conversa. Desta vez é ele quem se aproxima. Apoia o cotovelo na mesa direita e a face no punho do mesmo braço.

- Então e antes eras quem?

- Se queres que te diga, era alguém como tu. Pensa. Qual é a diferença entre o eu que tu achavas conhecer e o tu? O nome, o sítio onde se vive, a família? A nossa maneira de viver era igual. Trabalho, casa, responsabilidades às quais nunca conseguimos fugir, fachadas, jantares de competição pela família mais feliz, quando no fundo estamos aborrecidos de morte no dia-a-dia…

- E o que pensamos? Ou vais dizer-me que o que pensamos e sentimos era igual?

- Não era exactamente igual… mas o que pensamos, e quando pensamos (porque se pensares nisso passamos dias inteiros sem questionar que caralho andamos aqui a fazer), nunca nos atrevemos a concretizar… todos nós, por isso o que pensamos não interessa tanto, porque nunca chega a acontecer… e o facto de não chegar a acontecer faz-nos sentir a todos também da mesma maneira… uma frustração incrível, que tentamos disfarçar a comprar casas melhores, carros melhores, e sorrir como se o mundo fosse acabar amanhã… – sinto-o confuso. Vejo que não concorda, ou não quer concordar, com o que digo, mas vejo também a dificuldade em arranjar argumentos para me contrariar.

[Volto-me e encaro-a. O seu cabelo está molhado, e sinto algumas gotas deslizarem e juntarem-se à humidade das nossas bocas. As minhas mãos abraçam a sua cinta, puxo-a para mim.]

- Estás a dizer que te sentes frustrado? Ou infeliz?

- Pelo contrário! Sinto-me perfeitamente. Ora me sinto uma merda, ora me sinto perfeitamente… mas sinto-me, e o facto de sentir, ainda que por vezes me sinta uma merda, faz-me sentir feliz!

- Deixa-me ver se percebo… tu estás a dizer que às vezes te sentes feliz por te sentires uma merda? – damos uma sonora gargalhada em conjunto.

- Não é bem isso… eu sinto-me feliz por sentir. Independentemente de sentir seja o que for! Desde que sinta!

- Dantes não sentias…

- Não. Pensava que sentia, mas limitava-me a fazer o que era suposto fazer… percebes, nem que seja um por cento, do que te quero dizer?... – pergunto, enquanto acendo um cigarro. Ele cala-se uns segundos. O seu olhar sai de mim e cola-se a um movimento qualquer, lá atrás, num infinito qualquer.

- Percebo bem mais do que tu pensas… – solta, em tom de desabafo…

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Westland Story Eighteen

Não esperava outra coisa de Godelieve. O que, no fundo, é estranho. Conheço-a bastante mal, mas algo nela me sugeriu inteligência. O seu olhar sempre foi carregado de duplos ou triplos significados, e, talvez por isto, a considere alguém inteligente e perspicaz. Estava sentado no café, era hora de almoço. Não fora aí procurando uma nota sua, mas simplesmente para almoçar. Tinha acabado de o fazer, e bebia um Porto no final, encostado ao balcão, pronto para sair.

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A minha vista, sem vontade, acaba por vislumbrar o aviso vermelho. Nasce, com cuidado, um sorriso nos meus lábios, e levanto-me. Caminho, em direcção ao quadro, e vejo que percebeu o que queria dizer. Penso se terá demorado todo este tempo a fazê-lo, ou se terá sido numa de me torturar um pouco. Na verdade, apesar de pensar nela todos os dias, e apesar de não fazer por controlar a minha ansiedade, não me sentia mal. Queria estar com ela, queria que me deixasse um qualquer bilhete, mas sabia que já tinha feito a minha parte, e que de nada adiantaria desesperar.

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Na sua mensagem residia o nosso próximo destino. Agradava-me o local. A hora e o dia eram indiferentes. Desde que fosse cedo. Agora que já sabia que a ia encontrar, e quando, queria ver o dia chegar. A calma dos dias passados era substituída por uma ânsia contente e quem sabe controlada. Nesse dia cheguei a casa a assobiar, com um sorriso que por vezes dificultava o som.

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- Porque é que estás tão contente? – pergunta-me. Sinto-me um pouco mal neste momento. Talvez os resquícios de consciência que ainda ia tendo, de vez em quando faziam-se sentir. Senti-me mal pois a razão de me sentir particularmente contente faria quem perguntava particularmente triste. Ia pensando em contar a verdade, mas afastava o pensamento sem pensar duas vezes. “Serei um cobarde?” – pensava, algumas vezes. Questionava-me se estaria a trais os princípios recentemente por mim adquiridos, pois era a favor da honestidade connosco próprios, mas parecia estar a negligenciar a honestidade para com os outros… convencia-me que o fazia para a proteger, e conseguia, efectivamente, convencer-me. Pensava se teria algum futuro com Godelieve. Sabia que certamente o meu futuro com ela não seria nenhum. A ser, quem sabe daria o salto para essa tal honestidade para com os outros, e poria as cartas na mesa. Mas desagradava-me pensar nisso, pois o que mais amava em Godelieve era a constante sensação de não saber o que tinha, a não ser peças soltas dum passado, e elementos sempre fixos, em mim, dum eventual presente. Não tinha obrigações para com ela senão ser eu, completamente, tentando aproximar-me o máximo da minha essência, sabendo que ela faria o mesmo.

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- Hum, por nada de especial… – respondo. Ela ia, lentamente, baixando a raiva que já me fizera sentir, e de vez em quando atrevia-se a ser carinhosa. Eu não conseguia responder tão sincera e genuinamente, e não sabia se era uma questão de orgulho (?), se eram os resquícios de consciência a fazer das suas… ou, em última análise… por um lado fazia-me sentir numa posição confortável… vê-la mudar a sua atitude, independentemente de eu mudar a minha, devo confessar, fazia-me sentir um pouco poderoso, num pedestal, e isso agradava-me. Como se de um puto reguila que nunca é apanhado se tratasse. Ela senta-se no meu colo.

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- Já falaste com o Arjan hoje? – pergunta, baixinho. Lembro-me da pessoa com quem mais me preocupava no meio de toda esta comoção, e do quanto o tenho vindo a negligenciar. Sinto, aí com toda a certeza, um outro domínio de consciência, essa sim permanente, e faz-me sentir, ao de leve, uma sensação de desconforto no peito. Penso, injustamente, no desnível sucessivo que a minha alegria sofreu desde que dei o primeiro passo para entrar em casa. Desta feita não tinha sido uma esposa a gritar, não tinha sido nada de que me pudesse queixar, a não ser de mim próprio. E isto, sabia-o, era das coisas que me fazia tanto querer não estar em casa. Ambas as situações que viviam eram inconciliáveis, mas apenas quando numa, que não a actual, conseguia esquecer a outra…

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- Hum, não… mas ele deve estar a dormir, não deve?

- Sim, já foi dormir. – diz-me, com uma entoação que não sei se me agrada, ou desagrada. Agrada, pois antecipo o que quer dizer, desagrada, pois antecipo o que quer dizer.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Westland Story Seventeen

Salto no Tempo
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Ela descansa ao meu lado. A única iluminação que chega ao quarto é fornecida pela lua, que brilha alta e cheia. De onde estou vejo, à minha esquerda, ela, a minha perdição, o vício que não consigo largar, à minha direita a varanda, com as portadas entreabertas, permitindo as cortinas brancas dançarem ao sabor do Vento que não se apresenta nada tímido.
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Está um clima agradável. Gosto da instabilidade do clima em Hetwestenland. Parece estúpido, mas dá um tom mais humano ao próprio Vento, que de humano não tem nada. Considero que, neste momento, de humano, tenho tudo, pois as minhas emoções comandam os meus sentimentos. O que nos separa, na verdade, dos animais?... Dizem que é a inteligência, mas será assim tão inteligente viver tão longe do nosso interior, do que realmente queremos ser, ou fazer?

Ela está deitada ao meu lado. Vejo, pelo canto do olho, que não dorme. Permanece imóvel, qual estátua de tecido humano, com seus olhos em conversa com um qualquer ponto no ar que nos rodeia. Não percebo muito bem como ali fui parar. Sem querer, acabei na última situação que queria, em todas estas situações que tenho vivido com Godelieve. Sorrio ao pensar que ainda não sei o seu verdadeiro nome. Tampouco quero saber. Que me interessa como os outros lhe chamam? Não me seria difícil descobrir, mas não quero. Saberá ela o meu?

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- Sabes o meu nome?

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- Claro que sim… – diz, baixinho, sem desviar o olhar. Surpreende-me. Terá sucumbido à tentação e procurou saber? Descuidei-me em algum momento?...

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- Theodoor… – sussurra, como se eu não estivesse no quarto e falasse sozinha. Sorrio. Deveria ter adivinhado. Há certas alturas em que sabe bem ser estúpido. A estupidez caminha par a par com a surpresa. Esconde algumas antecipações, e por vezes dá um pouco de cor à VIDA.

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Está nua, completamente. Nenhum lençol esconde centímetro algum da sua pele, escondida momentos antes pelos meus lábios. A minha respiração estabilizou já há uns minutos, e sinto-me descansado.
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Ouço um barulho ao fundo, ao qual não dou importância.
O barulho repete-se, e parece, de certa forma, aproximar-se. Sinto o peito arder um pouco e, sabendo que é impossível ser o que eu penso que poderia ser, tento apreciar a sensação que a adrenalina me dá. Mas esta cresce um pouco, de forma a que se torna um tanto ao quanto desconfortável. Ela levanta-se de rompante, ficando sentada na cama. O barulho torna-se mecânico, e materializa-se em algo que é, indubitavelmente, o abrir de uma porta. Pela porta do quarto não consigo ver além da sala que fica entre este e a sala de estar. Olho para Godelieve, que me devolve o olhar, dizendo-me com o mesmo que está surpresa. A adrenalina dispara, e transforma-se, creio, em medo. Enquanto me levanto, pegando num pedaço de lençol para me proteger, penso, num milissegundo, que nem toda a surpresa é boa, e nem toda advém da estupidez. O que eu penso estar a acontecer era simplesmente impossível. Ela levanta-se rapidamente, ouvimos passos a ecoar nos tacos do apartamento. Olho ao redor, vejo um armário. Talvez aí cometa um dos maiores erros da minha VIDA, não sei, o futuro o dirá. Apesar de ela apontar com o olhar para o fazer, recuso-me a me esconder num armário. Sinto-o como demasiado humilhante. Ao invés, permaneço estático, numa espera que me faz sentir os músculos latejar. Quero que se quede na sala, para que assim me possa vestir, e fugir. Ela veste-se à pressa. Está a enfiar o vestido quando o vejo entrar. À minha frente, a uns escassos 2 metros vejo o secretário de estado de Hetwestenland. Permanece calado 3 segundos. O seu olhar é de algo difícil de exprimir. Mistura ódio, com raiva, choque… surpresa…
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- Que é esta merda?! –
diz, alto, ao olhar para mim. Desvia o olhar para Godelieve e, não sei porquê, o que mais quero naquele momento é que esta não diga que “isto não é o que parece”. Talvez achando, desta vez ela, que isso seria demasiado estúpido e humilhante, não o faz. A pressa com que vestia o vestido dilui-se, e para. Olha para o marido.
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- Diz-me tu, o que é isto?! –
não percebo o que quer dizer com aquilo. Ruud, o braço direito do presidente, responsável pela polícia política e suspeito por estar por detrás de todos os “desaparecimentos”, está ali, mesmo à minha frente. Vejo o meu futuro a desaparecer, mas a nascer a ideia de quem sabe, eu próprio desaparecer. Prefiro desaparecer dum sítio do que ver o meu futuro desaparecer de mim mesmo. Dando um par de passos em direcção a Godelieve, aproxima-se, agarrando-a, agitando-a, e atirando-a, com um seco soco na face, para a cama. Chama-a de puta, diz que a mata.
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- E tu, meu filho da puta! – diz, dirigindo-se a mim. Talvez duma perspectiva de fora, como é a sua, eu possa parecer a pessoa mais auto confiante daquele quarto, menos preocupada, tal é a minha postura. Permaneço imóvel, vendo tudo aquilo como se de um filme se tratasse. Em frágeis segundos penso se alguma vez me imaginaria, há uns tempos atrás, em tal cenário. – Eu sei quem tu és! – o indicador aponta ferozmente a minha cara, a uns escassos centímetros. Saem palavras da sua boca com uma cadência tal que apenas consigo perceber algumas – Tu estás completamente acabado! Tu e esta puta, estás a ouvir?! – grita, e a sua cara aproxima-se da minha, muito lentamente. Vejo-o irado, uma veia perto da têmpora direita prestes a explodir, os olhos injectados de sangue. Antevejo um ataque a qualquer momento. Cerro os punhos, mas estou disposto a ser esmurrado.
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Ouço um baque. Vejo-o tombar à minha frente. Lentamente, forma-se uma pequena poça de sangue vermelho escuro, saindo, imagino, da sua cabeça, acumulando-se no sumptuoso tapete da mesma cor. A adrenalina que sentia dentro de mim rebenta, de tal forma que me faz sentir tonto. Dou um passo para trás, numa tentativa de me equilibrar. Levanto os olhos e vejo Godelieve, com uma expressão assustada, a um metro de mim. Segura, na mão direita, um pequeno punhal ensanguentado. Os seus olhos, arregalados, mostram-me medo e pânico, mas vejo a sua mão, estática, não treme, tal como o meu próprio corpo, minutos antes. Não consigo processar de imediato a informação que chega aos meus sentidos. Dou outro passo para trás, e sento-me numa cadeira. Ela deixa cair o punhal, aproxima-se de mim. Os olhos estão molhados, não sei se chora. Senta-se no meu colo, afoga a sua cabeça no meu pescoço. Sinto lágrimas jorrar pelo meu peito.
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- Está morto? – pergunto. Ela não responde. – Está morto? – sem falar, diz que sim, abanando lentamente a cabeça. Penso no que fazer. É-me difícil. Vejo à minha frente um dos homens mais importantes do país morto… vejo Godelieve, semi-nua, sentada no meu colo, a chorar. Abraço-a, aperto-a fortemente, e digo que vai ficar tudo bem, sendo esta mensagem mais para mim próprio que para si.
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Assim permanecemos por uns minutos. Certamente por sentir o que sinto, sinto o quarto mais frio, como que se a alma a sair do seu corpo gelasse as pessoas ao seu redor. Ela pára de chorar. Abraça a minha face com os seus dedos delicados. A sua expressão anterior de choque foi então substituída por uma que me sugere controlo e inteligência.

- Theodoor, vai correr tudo bem. – correr tudo bem? Penso na diferença entre a frase que lhe disse minutos antes e a frase que me diz agora. – Tu vais-te embora, eu vou fazer desaparecer o punhal, vou sair, vou jantar, vou chegar a casa, deparar-me com o meu marido morto, e vou ligar para a polícia. Foi um acidente. Ele ia fazer-te mal, e tu sabes que eu não podia permitir isso. Não a ti. – a sua voz desce de tom e ouço-a apaixonada e quente. Aí sim, sinto-me como um animal. Tenho um cadáver ao meu lado, mas sinto-me excitado. Mas essa inteligência que nos distancia diz-me que devo ir embora o mais rápido possível. A sua voz desaparece, e damos um longo beijo. Sinto-a como duas pessoas. A pessoa que agora me beija apaixonadamente não é dona daquele olhar assustado que me mirava, em pânico, minutos antes. Esta pessoa, que agora sustenta seu peso no meu colo, acalma-me, e convenço-me que sim, vai correr tudo bem.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Olívia

Bebel Gilberto – August Day Song

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Sou uma velha porreira. Ou melhor, aparento ser uma velha porreira. Mas não sou. Há uma certa amargura que não consigo explicar, porra! Quer dizer, consigo explicar, pois sei muito bem de onde vem, mas não consigo descrever. Quer dizer, não consigo explicar… Não faço ideia. Levanto-me da mesa onde acabara de almoçar, sozinha, sacudo a cabeça, tentando fazer os pensamentos escoar, e lavo a louça. Sou uma velha porreira. Se é isso que chega à percepção de toda a gente, porque será que não o sinto dentro de mim? Sei o que querem dizer, mais ou menos… pelo menos em parte. Sei que, por exemplo, para eles, uma “cota” normal não tem este tipo de pensamentos que tenho, não tem as conversas com eles que eu tenho. Mas pensar… toda a gente sabe, pensar dói, e não é pouco. Pensar dói quando a VIDA não correu bem, não apenas num momento, mas numa série deles que transformam um futuro completo. Quando se toma a decisão certa, pensar não custa. Quando se toma a decisão errada, pensar é lixado. Mas acho que o pior é quando se arrepende de se ter tomado a decisão certa. Aí pensar custa muito...

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As amigas que tenho…. Vejo-as, nos seus casaquitos de lã, com as suas dezenas de quilos que ganharam como prémio de casamento, as suas conversas pueris, o constante massacre que tenho de passar ao escutar o que toda a gente na Vila faz. Não têm má intenção, acho eu. Mas ainda assim…

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Sou uma velha porreira. Mas estou sozinha. Quis o destino que tivesse, em tantas ocasiões, uma mistura de… pelo na venta e azar na VIDA. Pelo na venta, porque nunca assentei com o primeiro homem que me apareceu. Sempre dei alguma luta, como num jogo de análise. As minhas amigas, em parte, também, mas quando escolhiam… escolhiam. Eu quando escolhia, o mais certo era vir a arrepender-me, quando percebesse a peça que tinha. Por isso agora não tenho um marido que me agride, não tenho um marido que se embebeda todos os dias, não tenho um marido que tem um sem número de amigas e goza comigo nas minhas costas. Mas… não tenho um marido.

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Daí o meu pensar. Sou uma velha porreira, mas que me interessa ser uma velha porreira? O gosto que sempre tive em ser diferente, em destacar-me das demais, em ser especial, foi-se diluindo paulatinamente com o passar dos anos. Nunca pensei pensar no que penso agora mesmo. Estarei a ficar doida? Isso também vem com a velhice… não, é mesmo verdade, estou a pensar que apenas quero ser como qualquer outra.

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Talvez o peso da solidão, ainda que sentida por uma cota porreira, seja demasiado massacrador, nos diga demasiadas coisas ao ouvido, e nos faça querer poder voltar atrás no tempo, e ter feito algumas coisas de maneira diferente.

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Sento-me no café. A Josefa diz que está cheia de sono porque o marido ressonou a noite toda. A Maria diz que o marido a vai levar a ver Lisboa pela primeira vez no próximo fim-de-semana. Olho para elas e penso. Na minha cabeça começa a tocar uma qualquer música de repente. Aquela… filha do João Gilberto… Bebel Gilberto, “Tanto Tempo”. Já não as ouço e já não estou nos meus olhos, estou num plano acima, vejo-me como se duma novela brasileira fizesse parte. Ai, a banda sonora é incrível. Um narrador, baixinho, e “falando brasileiro”, sussurra:

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[Bebel Gilberto – Tanto Tempo]

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"Olívia ouvia suas amigas falando. Seus olhos entravam em conluio com seus ouvidos, sorrindo sua mente por dentro. No fundo, todas as suas questões voavam janela fora. Sabia perfeitamente que o mundo precisava de pessoas como ela. Magnífica, uma juventude eterna, uma capacidade observadora como nunca ninguém conhecera, uma capacidade de espalhar o sorriso e aquecer as pessoas ao seu redor. Um ser que se sentia sozinho, mas que fazia com que todo o mundo se sentisse acompanhado. Um ser incrível, daqueles que os poetas descrevem.

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Nessa noite, Olívia chegou a sua casa, ligou sua música, não jantou. Preparou um chá de camomila, sentou-se no frio da sua varanda, olhou o que passava em seu redor. Escreveu algo no seu milésimo bloco de notas, pousou a caneta, e bebeu o seu último chá.”

domingo, 27 de janeiro de 2008

16

Passou uma semana. Chego a duvidar se percebeu a genialidade da minha mensagem. O ambiente em casa, esse, permanece o mesmo. Uma mistura de sorrisos mal disfarçados e de caretas genuínas. O que estranho… temos tido mais sexo do que o costume, bastante mais. O processo tem o seu quê de belo. Deito-me, sempre mais tarde que ela e muitas vezes “torcido”, tento dormir. Ela acotovela-me para eu me chegar mais para o meu lado, mas deixa o cotovelo permanecer em cima da minha bacia. Suave e gentilmente, pego na sua mão e faço-a deslizar até os meus abdominais. Ela abre a mão. Sinto que sente as linhas que sulcam a minha barriga, e faço sua mão descer um pouco. A partir daqui, é mais ou menos seguindo a lei do improviso. Por vezes roda rapidamente e ataca-me, outras vezes masturba-me, apenas, outras vezes fá-lo um pouco e puxa-me titubeantemente para si, outras vezes sou eu, outras vezes…

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O mais estranho, mas que nem estranho, é o facto de, ao acabar, tudo volta ao normal. No dia seguinte acordamos e conversamos o indispensável, não há sorrisos, não há merda nenhuma. Tenho reparado, contudo, na sua expressão cada vez mais triste. Em pensamentos mais mórbidos e radicais imagino como seria se se suicidasse. O quão esmagado pela culpa eu me sentiria. Claro que no momento seguinte afasto para longe estes pensamentos ridículos, convencendo-me do quão impossível isso é de acontecer.

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Quando acabamos de fazer amor, ou sexo, ou seja o que for, permaneço, muitas vezes, e contrariando o estereótipo acerca dos homens na cama, a olhar o tecto, reflectindo. A minha mente leva-me para sítios que me fazem gostar menos da minha mulher, pela sua hipocrisia. Suponho que esses sítios para onde a minha mente me leva sejam ela própria, onde a lei é minha e sou senhor. Penso que é hipócrita, talvez até falsa, pois é capaz de passar o dia todo sem me falar, mas ao fim da noite, vem ter comigo, ou eu vou ter com ela e esta não recusa, cedendo ao instinto que temos dentro de nós. Sinto isto como uma VIDA dupla de posições. E sinto-me, especialmente, nestes momentos, feliz comigo e com a decisão que tomei, ou fui tomando, de ser eu mesmo. Levanto-me, acendo um cigarro. Penso se tive azar de, sendo eu mesmo, levar uma VIDA que pode não agradar a tanta gente, mas penso que, não só não temos o dever de agradar a todos através da infidelidade a nós próprios, como não é uma questão de sorte ou azar ser quem somos. Somos o que somos, ponto final. Não é uma questão de sorte, mas, creio, de natureza.

Acompanhante de Luxo

Acompanhante de luxo. Prostituta. Puta… Acompanhante de luxo? Não sei, já nada sei. No início pesava saber, e pensava que o sabia com precisão. Acompanhante de luxo… “Só vais com eles a algumas festas e tal, tomar um copo, etc, nada de mais” – diziam-me. Eu acreditava piamente. E de facto era verdade, não tinha de fazer mais nada. Não se ganhava mal, mas continuava a ter de pedir dinheiro aos meus pais que, pobres, faziam das tripas coração, para conseguir manter-me a mim e ao meu irmão. Nunca vivêramos bem, e sempre tivera de trabalhar, ajudando assim aos gastos. Mas estudando longe da Guarda como estudava, nem sequer podia ir a casa tantas vezes como queria, pois o preço das viagens assim não o permitia. Pelo que enveredei por este caminho que me parecia, que sempre me pareceu, como um caminho com retorno, um caminho suave com bons ordenados.
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Tudo começou com um senhor muito simpático, dos seus 60 anos, com quem fui sair certa vez.
- Sabes, estou hospedado no Astoria.
- Ah… Disseram-me que aquilo é giro!... – respondo eu na minha mais pura inocência.
- Podes vir comigo, se quiseres. – aqui, claro, percebo o que quer de mim. Mais do que mera companhia para dizer umas piadas. Mais do que eu queria dar. A minha expressão tem de ter sido de extrema surpresa, pois apressou-se a pedir desculpa pela brusquidão, dizendo de seguida que realmente gostava muito de mim, e que até me podia ajudar… e nesta altura tira da sua carteira um cheque.
- Não leves a mal. É só uma maneira de nos ajudar-mos mutuamente… O que quiseres… – diz-me, com a caneta na mão, pronta a atacar o papel. Digo que não quero nada, mas ele escreve qualquer coisa. Levanta o cheque e vejo a quantia de 600 euros. As minhas emoções entram em revolução. Não sei o que sentir. Sei que não é nenhuma riqueza, mas penso no quanto poderei ganhar numa hora, ou menos… penso nos meus pais, em casa, a tentar aquecer-se na lareira por não terem dinheiro para comprar um sistema de aquecimento. Penso, penso…
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Na manhã seguinte, lembro-me de acordar, já na minha cama, com uma estranha sensação de sujidade. O senhor não foi bruto, estúpido, não foi nada, mas recordo-me do seu corpo nu e engelhado em cima do meu, a entrar e a sair em mim, e lembro-me de fechar os olhos, não por prazer, como provavelmente pensou, mas para tentar fugir dali o mais rápido possível. Acordei com a sensação de ter perdido algum amor-próprio. Acordei.
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A partir daí as coisas sucederam-se a um ritmo estranho. Começava a receber chamadas directamente de pessoas interessadas, não da empresa, começava a receber cada vez mais e mais propostas, cada vez mais chorudas, propostas que não conseguia recusar. Com racionalizações constantes, com desculpas estúpidas e esfarrapadas entregava-me por uma hora a troco de quantias nunca sonhadas. Agia como um robot. Rir aqui, ser sensual ali, ser inteligente acolá.
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Acompanhante de luxo… Prostituta… Puta… Volto a pensar nisso. Estou deitada na minha cama de hotel, olho o tecto que, parado, me devolve uma imagem fria, inerte, como se de um espelho se tratasse. É Sábado. Penso que comecei nesta VIDA há dois meses, e fruto da minha crescente “fama”, ainda nem fui a casa visitar os meus pais. Que desculpa dou a mim mesma agora? Ainda que chegasse, e desse todo o dinheiro aos meus pais, teria sido digno? Não sei, especialmente porque não sei se a razão pela qual comecei era a razão que contava a mim mesma, ou outras que desconheço. Terá sido um gosto aparentemente desconhecido pelo novo, pela aventura?... Terá sido um desejo de me sentir como um pedaço de carne, como um camaleão constante, adaptando-se a cada cliente. Como uma mulher atraente e cativante.
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As perguntas bailam em minha cabeça. As respostas não as sei.

sábado, 26 de janeiro de 2008

BorderLine

Estou em desalinho com o resto do mundo. Sinto-me inadaptado a tudo o que me rodeia, e a tudo o que tento rodear. Ela começou por me rodear, elas vão começando por me rodear, eu vou-me apaixonando. Depois começo por querer rodeá-las. Depois apenas as rodeio e apenas são rodeadas por mim. Não quero, mas é mais forte que eu, e faz com que todas se afastem de mim mais tarde ou mais cedo.
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No café, peço uma água das pedras e penso nestas merdas. No porquê de ser como sou, no porquê de ter esta obsessão fácil de conquistar, e no porquê deste medo que me consome, o medo da solidão e traição, o medo… elas percebem rapidamente, quando passamos a fase da sedução, e começo a querê-las só para mim. Umas perdoam e compreendem, outras não, mas vão todas embora.
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Penso na relação que tenho com Catarina. Talvez seja normal que, mais cedo ou mais tarde, duas pessoas iguais se juntem, e tudo façam para se destruir uma à outra. Quando olho para ela, quando a ouço berrar comigo, algo mais forte que eu vem ao de cima, algo primário, quase animal. Quero berrar mais alto, quero-lhe bater, quero ameaçá-la. Poucas vezes me controlo. Quando está tudo bem, não está tudo bem. Quando está tudo bem, é uma espécie de pausa, de tempo à espera do próximo problema. E vivemos assim, constantemente a arranjar merda para dizer, constantemente a fazer o outro sentir-se da pior maneira possível.
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Uma vez disseram-me que eu tinha um perturbação. Borderline, disse-me.
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- Vou-me embora e nunca mais fales comigo, borderline do caralho! – disse a Marta, segundos antes de sair de minha casa, batendo com a porta. Recordo-me de permanecer em pé, a olhar a porta de madeira branca, a pensar nas suas palavras, e nas minhas próprias palavras que originaram essa discussão.
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- Vais sair com essa saia?
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Bordeline. Borderline?
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Fui pesquisar. Vi-me retratado em alguns aspectos, e tentei negar os restantes. Não sei se consegui.
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O que sinto? O que sinto, realmente, é esse medo que me acompanha dia após dia, que é o medo de acordar e não ver ninguém ao lado. Agora estou com Catarina, mas porque estou? Estou porque tenho alguém que alimente uma espécie de solidão conjunta, alguém a quem destruir, alguém que me destrua. Porquê? Quero paz, como quero paz. Mas apenas tenho paz quando faço o que faço desde criança de vez em quando, e que escandalizou os meus pais. Nesses momentos, a minha mente voa, e foca-se apenas num sítio, abandonando todos os pensamentos que tenho e não quero ter, que não devo nem posso ter.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Liverpool

Amigos, apenas proximo Sabado aparecera uma estoria por estas bandas. Estou em Liverpool, e sem o meu pc. Entretanto podem ir visitando o meu outro blog:
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quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

15

Boa merda. Não acredito que foi capaz de me fazer isto… [Soa, algures, Silj Nergaard]. Tenho, diante de mim, o quadro, com a mensagem que me faz sentir algo cujo significado não me apetece definir. A um metro, entre mim e o mesmo quadro, uma mesa, onde conversam dois bêbedos com aspecto de revolucionários da treta. Não vale a pena referir o tema. Os revolucionários da treta de Hetwestenland falam de política e de putas. Os revolucionários não falam. Dou um passo, sem nunca largar, com o olhar, a merda do quadro, e sento-me numa cadeira, entre os dois revolucionários da treta. Deixo de os ouvir falar, e reparo, pelo canto do olho, que olham para mim. “Puta do caralho, cobarde do caralho” – penso, enquanto penso, claro no quão astuta a gaja consegue ser. Que faço agora, se prometi a mim mesmo que não deixava nenhum recado para Godelieve?

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- Nós estávamos a conversar! – atira o gorila da direita. Chega até mim o forte odor a Mestiba, a bebida nacional.

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- Pois continuem, estou-me a cagar para a política. – digo, sem muito pensar, e sem largar os olhos da caligrafia da medusa. Sorrio para comigo ao pensar que se já deitei a perder promessas feitas a outras pessoas, não sou eu mesmo que me vou impedir neste caso.

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- Estás-te a rir? – diz-me. Quer problemas. Isto é tudo menos o que preciso. Pela primeira vez arranco os olhos do pequeno pedaço de folha branca. Levanto-me, sem nada dizer, viro-me de costas. – Como é que dizes que te estás a cagar para a política, temos de lutar!! – bem, este “temos de lutar” foi um pouco demais. Vejamos… sei bem quem é a pessoa que está diante de mim. Não quem ele é, mas o que ele representa. E não quero saber se estou a seguir estereótipos. Este é daqueles que adoram demonstrar insurgir-se contra o ditador, adora falar, adora ameaçar a revolução, mas, no final, nada faz, e certamente ainda é pago pelo governo para não agitar as marés mais do que realmente o faz. Estava em andamento em direcção ao bar, encetando a saga do pedido de mais um whiskey, mas volto-me de novo. Dou um passo, decidido, e apoio-me com os dois braços na mesa, olhando, com meus olhos a menos de um palmo dos seus. A sua expressão combina a surpresa com a raiva duma maneira quase harmoniosa.

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- Ouve… eu estou-me a cagar para a política, e se queres lutar, levanta o cu e organiza-te. Eu estou-me a cagar para a política e, julgando pelo teu cheiro, tenho a certeza que a política também se está a cagar para ti! – belo! O lugar que a surpresa ocupava na sua expressão rapidamente é totalmente preenchido pela raiva, levanta-se de rompante, levanta o braço, mas o seu companheiro, que ao mesmo tempo se ergue, aguenta-o. Sinto alguns olhares mexerem no meu perfil, e quando me volto, percebo serem solidários. Estereótipos? Chego ao bar em 3 segundos, e a cada passada sinto injecções de adrenalina que chegam tardias ao meu peito. Chegassem mais cedo e, quem sabe, nada teria dito. A adrenalina mexe-me as emoções e sinto uma alegria enorme, sinto-me a sentir, sinto-me bem vivo dentro de mim, não mais adormecido. O “eu” antigo nunca teria feito algo assim. O “eu” de agora tem razão? Nenhuma, fui eu que fui ter com eles, não o contrário. Interessa? A mim não interessa nada. Fui espontâneo, fui eu, sem os invencíveis trâmites da reflexão em exagero que marcou toda a minha VIDA. Curioso como, nestes momentos em que faço coisas mais estúpidas, tenho mais respeito por mim. Não sei se dantes tinha ou não respeito por mim. Caso não tivesse, não seria de estranhar, não tinha respeito porque não era eu próprio, era uma cópia de algo desconhecido. Caso tivesse, não era por mim que tinha esse respeito, mas por essa cópia.

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Com o whiskey vem a base de cartão beje, que brevemente levará consigo uma mensagem. Peço uma caneta, que deixa parte do seu sangue na base já marcada. Bebo o que falta de uma vez, levanto-me dos altos bancos, e volto a encaminhar-me para o quadro. Os revolucionários da treta voltam a parar de falar e desta feita são ambos que me miram ferozmente. Lanço um sorriso irónico, ao mesmo tempo que levanto a mão, mostrando a base que estava prestes a alcançar aquela espécie de hall of fame da memória. Debruço-me sob a mesa, quase cheiro, desta vez não o suor e lixo entranhados na pele, mas a animosidade dos meus caros amigos.

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Estou fora do bar. A mensagem ficou. Acendo um cigarro, sigo caminho.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

The O.C.

Vivo com uma maldição que me atormenta dia após dia. Cada frase destas que escrevo foi escrita três ou quatro vezes, para ter a certeza que fica bem. Quando saio de casa, caminho uns passos, o coração bate acelerado. Chamo-me à razão, não consigo. A cada passo que dou sinto-me mais nervoso e inquietante. Nervoso. Quando consigo caminhar mais que 20 metros, o bater desenfreado do coração é acompanhado por umas gotas de suor na testa. Tenho de voltar para trás, e confirmar se realmente a porta ficou bem fechada.

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Não tenho quem me consiga ajudar. Esqueci psiquiatras, psicólogos, esqueci tudo, pois de tudo já tentei, sem qualquer resultado. Os meus pais começaram a perceber quando, era eu criança, não conseguia comer nenhum prato que não estivesse devidamente organizado. Se uma ervilha tocava no arroz, era para mim impossível comer aquilo. O meu pai batia-me, como me batia, não percebendo algo que eu próprio não percebia. Em dias em que estava mais irritado, enfiava-me a comida na boca, acabando por me ver vomitar mesmo à sua frente. A minha mãe percebeu mais rápido que era algo que não mudaria, e fazia por me deixar tudo separado. Apesar de tudo, foi a altura em que fui mais feliz, já que se manifestava apenas em momentos que não influenciavam a minha VIDA. Apenas nas refeições. Quando comecei a não conseguir comer com os talheres comuns da casa, e quando descobriu na minha mesinha de cabeceira um par de talheres que levava para a cantina da escola, começou a preocupar-se mais. Levou-me a uma série de terapeutas, e quando viu que, com o passar do tempo, eu apenas piorava. Levou-me a um… bruxo. Nada.

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Isso fez com que tenha muitos poucos amigos, nunca tenha conseguido ter uma relação íntima com ninguém, e com que nunca tenha beijado ninguém. A medicação ajuda, mas não muda. Ajuda, mas não muda. Nada me muda.

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As obsessões são tantas, e estúpidas, girando a maior parte acerca duma incerteza constante que se abate sobre mim. “Terei fechado bem a porta? Estará tudo limpo e imaculado como preciso que esteja? Está qualquer coisa que eu faça bem feito?”. O resultado destas estúpidas obsessões leva-me a confirmar tudo um sem número de vezes. Não o faço sempre em números ímpares, ou um número certo de vezes, como tantas vezes se vê nos filmes, faço apenas o número de vezes que acho necessário para confirmar realmente algo que podia ser confirmado à primeira.

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Tudo isto leva-me a evitar todos os locais públicos onde possa ser humilhado, onde possam reparar que não sou… normal. Algo com que os especialistas me ajudaram foi na escolha de uma profissão que se coadunasse com o meu problema. Isto é, algo em que estas obsessões se diluíssem um pouco, e 8h por dia me fizessem sentir como uma pessoa entre tantas outras, com os mesmos problemas das outras, e não com um problema que me põe na margem de toda a gente.

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Mas 8h por dia são apenas 8h por dia. O que é o resto? O que é sentir que não tenho VIDA própria e que os receios infindáveis me levam a não me envolver com quase ninguém? O que é sentir que é como se outra pessoa habitasse dentro de mim e me dissesse constantemente o que tenho de fazer?...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

parte 14

Paatos - Happiness

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Vejo Godelieve ao fundo, está com outro homem, a beijá-lo fortemente. Aproximo-me e fico em pé, diante de ambos, a fumar um cigarro e a observá-los.

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Seria assim que reagiria caso isto fosse verdade? Acho que não. Da maneira como tenho andado, o mais certo seria… não sei. Não sei mesmo. Entro no café. O som é agradável. Há um cheiro a coco no ar, não sei de onde vem. O ar, como sempre, apresenta-se carregado, vejo nuvens de fumo a vaguear de canto para canto. Penduro a minha gabardina no canto. Escuto o que se passa ao meu redor, e tento sentir as coisas com mais intensidade. Estabeleço a comparação na minha mente. Se estivesse em casa estaria a ver televisão, muito provavelmente. Que vale isso? Mesmo que estivesse a ver algo útil, como… as notícias, de que vale, realmente, estar a par do que se passa no país, se o que se passará no futuro, a nível político, será o mesmo?

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Vejo, ao fundo, o quadro. Incrível a centena de notas, bilhetes, mensagens que vejo pendurados. Num momento penso que me será impossível descobrir um eventual bilhete. Segundos depois lembro-me do local onde disse que o poria. Sento-me no balcão, peço um whiskey.

- Algum em especial? – curioso. A primeira vez que me fazem tal pergunta.

- Hum… pode ser um Jack Daniels… – servem-me e dou um gole. Saio de mim e observo-me. O “eu” do passado veria alguém como o “eu” do presente, alguém, sozinho, num balcão, a beber whiskey, e considerá-lo-ia um falhado, um fracasso, um nada. O “eu” do presente considera o “eu” do passado um iludido. Qual está certo? Não faço a mínima ideia. Por um lado odeio Godelieve por ter agitado toda a minha estrutura, por outro lado amo-a, morro por ela, pois mostrou-me o verdadeiro “eu”, sem passado, presente ou futuro.

Incrível como sinto as minhas opiniões acerca de tanta cosia variarem a cada segundo. Gera-se um misto de pena e raiva por quem tem certezas acerca das coisas, e sobretudo, acerca de si, pois sei que isso é algo impossível. Penso na frase que soa invariavelmente corriqueira “a única certeza é não haver certezas” e sorrio, ao dar um gole, com a verdade arrebatadora que representa, como se a VIDA e a condição humana não pudesse ser melhor explicada. Não sei que rumo tenho, mas isso agrada-me.

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Penso no que prometera a mim próprio. “Não deixo nenhum bilhete”. Não deixarei. Levanto-me do alto banco onde descansava e, lentamente, caminho em direcção ao quadro. A pilha de bilhetes é interessante. Sei o local onde eventualmente estará uma mensagem para mim. Como que numa espécie de masoquismo, faço por dar uma olhada a todos os bilhetes ao redor do nosso local, e apenas no final, depois de algumas gargalhadas e sorrisos, olho para onde quero olhar. Tenho de procurar bem. Nem faço ideia de como será. Não vejo nenhum bilhete com o meu nome e isso faz-me pensar que não me deixou nada. Todavia, pensando bem, recordo-me de como, talvez na realidade me chamo. Theodoor. Procuro este nome, ou o seu nome, na nossa realidade, entre o amontoado de bilhetes.

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Theodoor, deixa-me uma mensagem. Godelieve.”

Parte 13

The Cinematic Orchestra - Evolution

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“Caso continuasse nessa estrada… caso continuasse nesta estrada…” – não me saía da cabeça este pensamento. Via diante de mim uma série de destinos, de futuros possíveis, e não conseguia deixar de pensar no hipócrita que estava a ser ao recusar seguir determinado caminho, baseado no medo que tinha de como poderia mudar. O que sou, então? Apenas me conheço, apenas estou em contacto comigo mesmo, com o que sou realmente, se tiver passado pela maior variedade de situações possível. Se as evito com medo do que me possa tornar, posso estar a negar o que, talvez, realmente seja. Se passar por essas situações e me mantiver o mesmo, aí sim, sei que é o que sou. Caso contrário…

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Chego a casa.

- Querida, desculpa estes últimos momentos. Quando falei em marasmo, falava no aborrecimento em que muita gente pode cair, não me estava a colocar como mais aborrecido que qualquer outra pessoa, e não estava, sobretudo, a deixar as culpas cair em ti…

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- Não faz mal amor, eu percebo-te perfeitamente! – responde, e damos um longo e apaixonado beijo.

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Chego a casa. Desta feita na realidade. Penduro a minha gabardina no bengaleiro, juntamente com o chapéu. Vou ao quarto do Arjan, pergunto-lhe como vai a escola, converso um pouco com ele, ajudo-o a fazer os deveres. Ouço a minha mulher pelo resto da casa.

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- O jantar está pronto. – diz, para quem quer ouvir. Penso na conversa da manhã. Não quero de maneira nenhuma uma conversa repetida, e não me apetece repetir a ensaiada frente ao espelho do elevador. Entro na cozinha. Nem levanta os olhos.

- Olá! – digo, meio em tom de brincadeira, com uma cara de podes-olhar-para-mim-vamos-fingir-que-não-se-passou-nada.

- Olá. – responde, em tom baixo. Mal olha para mim, mas quando o faz, sinto-me incomodado. Lembro-me daquele olhar. Ou melhor, lembro-me da força e expressão que aqueles olhos podem ter, mas aquele olhar é novo para mim. Lembro-me da força dos olhos que me apaixonaram, muitos anos antes, e vejo diante de mim um olhar que nunca imaginei ver. Sento-me. Ao longo do jantar vou tentando fazer conversa, através de coisas circunstanciais, imaginado, talvez, que tudo pudesse ficar bem sem sequer mencionar o que se estava a passar. Bem, o que se estava realmente a passar, isso, nunca seria mencionado. Refiro-me ao que ela estava a ver, as reacções que eu tinha vindo a ter. Como as minhas tentativas iam caindo sucessivamente no vazio, ia sentindo crescer dentro de mim uma certa irritação, como que um menino na esperança de agradar que não recebe resposta. Vai respondendo com leves sons, e isto quando o faz.

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No final do jantar, dou um beijo a Arjan, levanto-me, e vou para a varanda fumar um cigarro, depois de me ter servido um whiskey.

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“Ela tem de suspeitar! Ando para aqui feito parvo com reacções de merda, nem sequer estou a disfarçar um caralho! Será que sou demasiado genuíno e não consigo agir normalmente sabendo o que ando a fazer? Oh, o melhor é deixar-me de merdas, porque é o que sou, realmente. Genuíno o caralho, sou é um merdas…” – vou pensando, na varanda. Apesar do conteúdo não o ser, os pensamentos surgem calmamente, e vagueiam pelos cantos da minha mente sem fazer mossa, quase como se esta já os esperasse, e quase como se eu, realmente, estivesse contente por ser um merdas.
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Volto a entrar na sala, sento-me a ver televisão. Ela vai fazendo não sei bem o quê, e acaba por ir para a cama, pouco passa das onze. O que tenho diante de mim é o aborrecimento num quadro. Do quadro faço parte eu, sentado num sofá, na mão esquerda um copo, na direita um comando de televisão, uma televisão na outra ponta e uma mesa a dividir. Estarei viciado em excitação, com uma tolerância abaixo de zero para o aborrecimento? E, pensando bem, não deveríamos todos estar assim?

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Aconteceu. Não penso nela. Ou melhor, não penso cem por cento nela. Penso mais na curiosidade que tenho em saber se ela deixou algum bilhete no café. Vou, apenas, ver. Não deixo bilhete nenhum. Verdade. Acima de tudo, vou dar uma volta, sentir o Vento na face, fumar uns cigarros, beber uns copos, falar com pessoas. Sentir.

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Levanto-me, visto a gabardina, ponho o chapéu na cabeça, e meto-me no elevador. Olho para o espelho.

- Como correu a conversa? – pergunta-me.

- Não me fodas… – atiro, enquanto acendo um cigarro, ignorando os sinais proibitivos bem visíveis.

- Não, a sério, diz-me lá, como correu? – o tom é sarcástico – Estou curioso. Temos-te de volta ou quê? Tens-te de volta, ou quê?

- Ter-me-ás de volta mais logo, quando eu for dormir. Não há grande diferença entre os estados de viver nessa altura. Apenas os olhos estão fechados… – digo, com irritação. Acabo por dizer, talvez, mais do que sinto, magoando-me, neste diálogo interno.

- Vais?

- A tua VIDA está lá em cima à espera, sabes bem onde… Podes ir… – respondo, deixando tudo dentro daquele elevador, deixando o espelho sem ninguém a o habitar. O porteiro cumprimenta-me, quase me pergunta onde vou a estas horas, mas o meu cumprimento segue-se de passadas decididas em direcção ao exterior, que atiram por terra a sua oportunidade. A cidade está agitada, muito se passa nas ruas. O Vento sopra forte, o céu está carregado. Chamo um táxi. É o mesmo taxista que me levou para o hotel com Godelieve.

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“Este tipo de sinais não existem. Pura coincidência, sê racional.”

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Entro no café.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Tal - Parte XII

Crawling up the Hills – Katie Melua

Learnin’ the Blues - Katie Melua

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Acordo. Segunda-Feira. Trabalho, trabalho, e essas coisas me esperam. A minha cabeça lateja um pouco. Olho ao longo do meu corpo e percebo que, não só estou vestido, como estou na sala. Claro. Levanto-me, dispo-me, deixo a roupa no sofá. De boxers, vou até ao canto da sala, onde ligo aparelhagem. Vamos ver… Katie Melua, sim. Soa Crawling up a Hill. Vou à varanda, acendo um cigarro. Penso se deixarei alguém bilhete no café. Penso se me deixará a mim ela algum bilhete. “Bem, acabou, é oficial” – penso, descontraidamente. Sinto alguma adrenalina fervilhar, como o meu lado mais louco a morrer lentamente dentro de mim. Não me tira um certo sorriso malandro dos lábios, apesar de me fazer duvidar. Volto costas, vejo minha mulher. Que cara, meu deus…

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- Que foi? – pergunto, ao vê-la olhar para mim como se não me conhecesse.

- Que foi? Isso pergunto eu a ti! – hei – Chegas ontem às horas que chegas, nem dizes nada, dormes na sala, acordas, roupa por todo o lado, acordas-me com a música nestas alturas… Por isso eu é que pergunto, o que é que se passa! – o tom dela não me agrada de maneira nenhuma. Imagino Godelieve a acordar agora, mandar um sorriso para qualquer lado ao pensar em mim.

- Tem calma querida… - digo, descontraidamente – Temos de fazer coisas que não estão previstas de vez em quando… senão a VIDA torna-se um marasmo total… - não me acredito que esta desculpa esfarrapada acabou de sair dos meus lábios…

- E tu ainda me dizes para ter calma! Marasmo? A tua VIDA aqui, então, dizes tu, dá-te marasmo?? – ia continuar a falar, num tom de voz crescente, mas interrompo-a.

- Olha sabes que mais, esqueci-me que preciso de fazer uma chamada! – E deixo-a a falar sozinha na sala, fechando eu a porta da varanda atrás de mim. Escusado será dizer que apenas tinha comigo o maço de tabaco e um isqueiro. Pelo que acho que deve ter ficado ainda mais chateada ao ver que simplesmente não a queria ouvir. Sorrio, sarcasticamente, ao ouvi-la barafustar sozinha. Incrível como tenho consciência da merda que estou a fazer, mas não me importo e continuo-o, qual menino rebelde. Não consigo descrever o gosto estranho que aquilo me dá. Como se Godelieve me tivesse vindo acordar de um sono, dum sonho, que era a minha VIDA, rotineira, sem altos e baixos, mas apenas um longo período de algo que eu pensava ser um alto…

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Entro na sala, toca Learnin’ the Blues. Sirvo-me de um whiskey, sento-me no sofá, e vejo as notícias. “A beber de manhã” – ouço, lá longe. Passado meia hora, visto-me, vou para o trabalho. Gosto da descontracção com que acordei neste dia. Especialmente a liberdade de fazer o que me apetece.

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O dia passa-se bem, e ao voltar, penso em ir ao café. Afasto esse pensamento, mas sinto uma ansiedade estranha ao o fazer. “E se ela me deixou alguma mensagem?” – penso. Mas penso de novo, e penso que se tudo o pouco que se passou me fez mudar de perspectiva, duma maneira que me agrada, mas que também me assusta, o que poderia acontecer, caso continuasse nesta estrada?...

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Mendigo

Oceansize – The Frame

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Está um frio impressionante. Fui-me habituando a muitas temperaturas ao longo da minha VIDA, mas… ou está cada vez mais frio (não sei se será isso), ou a idade começa a não perdoar. Durante o dia caminho por Londres, caminho todo o dia, vou pedindo esmola a este e àquele, mas é rara a pessoa que me dá alguma coisa. Caminho todo o dia para não sentir o frio, mas as pernas eventualmente fraquejam, e vejo com medo a altura em que tenho de parar. Caminho tanto que conheço toda e qualquer parte da cidade. Quando tenho de parar, vou para o metro. Viver num metropolitano não é das coisas mais saudáveis que se pode fazer, tenho perfeita consciência disso, mas prefiro viver respirando todos esses gases nocivos do que não viver de todo. São 5 da tarde, o sol já se pôs há muito tempo. Sento-me no chão, olho para as pessoas que passam, com os olhos colados no chão, com cara de cansaço, não vejo sorrisos. De vez em quando estico o braço. Quando o olhar abandona a monotonia constante em que vive, olha para mim, mas sinto-me invisível. O olhar atravessa-me ao meio, espalha-se na parede atrás de mim. Isto é quando corre bem. Das outras vezes em que olham para mim, as sobracelhas carregam-se, abanam ligeiramente a cabeça, e seguem sempre. Sou parte desta sociedade, mas não vivo nela. Vêem-me como um vírus. E será que sou?... Tomei muitas decisões erradas nesta VIDA, como tomei… mas será que tenho que pagar por elas para sempre? Será uma espécie de destino do qual não posso fugir? E devo fugir? Ou devo baixar os braços e deixar de tentar?... Em que é que estou a pensar?... Já os baixei há tanto tempo…

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Por vezes, atrevo-me a sonhar. Estou sentado no metro, vejo turistas, esses os únicos que sorriem, retirando a monotonia dos lábios de toda a gente. Londres como a segunda cidade europeia mais visitada tem turistas o ano todo. Eu conheço Londres de ponta a ponta. A matemática é simples, sonho que poderia ser um simpático e barato guia turístico. O sonho não passa ao acto, pois já tentei, e fracassei, como fracassei. O pior é a humilhação. Certa vez fui esperar à estação de autocarro e ofereci-me a um sem número de grupos para ser o seu guia turístico. Um simples “não” seria suficiente. Mas… quando esse não vem com uma gargalhada, quando se afastam a gozar-me, continuando a olhar para trás… quando o não vem acompanhado de um sinal facial que me diz que só se fossem doidos aceitariam… aí dói-me, como dói… Foi só um dia. Bastou para arrasar esse meu modesto sonho, lançando-me numa visão explícita de como nunca vou conseguir fazer parte de nada.

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O metro tem de fechar. Saio, está tanto frio. Apanho uns jornais e enfio-os por entre a roupa, tentando isolar-me mais um pouco. Vagueio entre a noite procurando alguma coisa. Alguma coisa para comer, para me aquecer, alguma coisa para alguma coisa. Toda a gente pensa, eu sei, que o que nós, mendigos procuramos, cinge-se a um par de coisas, comer, beber, drogas, seja o que for. Na verdade procuramos, ou pelo menos eu procuro, muito mais. Em cada passo que dou procuro algo. Uma espécie de futuro diferente, já ali ao virar da esquina, um futuro que nunca está lá. Terá fugido para a próxima? Claro que não, nunca existiu. Mas eu vou procurar, e procuro sempre, alimentando, a cada segundo que passa, um vazio enorme dentro de mim.

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Quando me sinto mais uma vez cansado de tanto caminhar, aninho-me num canto, perto dum banco. Encolho-me o máximo que posso, tentando assim tremer menos. Passam pessoas na rua e alguns comentam que estou a ressacar. Quase sorrio, pela primeira vez em dias, ao pensar os anos que passaram desde que deixei a heroína. Mas é assim. Onde quer que vá, o que quer que faça, levo atrás de mim uma etiqueta enorme, faço parte dum estereótipo que nunca me vai deixar fazer mais nada na VIDA.

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Começo a sentir-me sonolento e muito fraco. Já ignorei a vontade do estômago há muitas horas. É quando aparece um grupo de 3 turistas. Abro um pouco os olhos e vejo 3 jovens com os seus 22 anos, de aspecto do sul da Europa. Chama-me e dão-me uma sanduíche, dizem que lhe ofereceram muitas e que eu posso ficar com aquela. Quero agradecer mas as palavras não saem. Quero comer, mas mexo-me com muita dificuldade. Deixei de tremer há meia hora. Avisto ao longe um relógio digital, que aponta, além das horas, uma temperatura de menos 10 graus. Penso em dormir um pouco, e em comer a sanduíche depois.

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Fecho os olhos. Não volto a abrir.