sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Olívia

Bebel Gilberto – August Day Song

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Sou uma velha porreira. Ou melhor, aparento ser uma velha porreira. Mas não sou. Há uma certa amargura que não consigo explicar, porra! Quer dizer, consigo explicar, pois sei muito bem de onde vem, mas não consigo descrever. Quer dizer, não consigo explicar… Não faço ideia. Levanto-me da mesa onde acabara de almoçar, sozinha, sacudo a cabeça, tentando fazer os pensamentos escoar, e lavo a louça. Sou uma velha porreira. Se é isso que chega à percepção de toda a gente, porque será que não o sinto dentro de mim? Sei o que querem dizer, mais ou menos… pelo menos em parte. Sei que, por exemplo, para eles, uma “cota” normal não tem este tipo de pensamentos que tenho, não tem as conversas com eles que eu tenho. Mas pensar… toda a gente sabe, pensar dói, e não é pouco. Pensar dói quando a VIDA não correu bem, não apenas num momento, mas numa série deles que transformam um futuro completo. Quando se toma a decisão certa, pensar não custa. Quando se toma a decisão errada, pensar é lixado. Mas acho que o pior é quando se arrepende de se ter tomado a decisão certa. Aí pensar custa muito...

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As amigas que tenho…. Vejo-as, nos seus casaquitos de lã, com as suas dezenas de quilos que ganharam como prémio de casamento, as suas conversas pueris, o constante massacre que tenho de passar ao escutar o que toda a gente na Vila faz. Não têm má intenção, acho eu. Mas ainda assim…

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Sou uma velha porreira. Mas estou sozinha. Quis o destino que tivesse, em tantas ocasiões, uma mistura de… pelo na venta e azar na VIDA. Pelo na venta, porque nunca assentei com o primeiro homem que me apareceu. Sempre dei alguma luta, como num jogo de análise. As minhas amigas, em parte, também, mas quando escolhiam… escolhiam. Eu quando escolhia, o mais certo era vir a arrepender-me, quando percebesse a peça que tinha. Por isso agora não tenho um marido que me agride, não tenho um marido que se embebeda todos os dias, não tenho um marido que tem um sem número de amigas e goza comigo nas minhas costas. Mas… não tenho um marido.

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Daí o meu pensar. Sou uma velha porreira, mas que me interessa ser uma velha porreira? O gosto que sempre tive em ser diferente, em destacar-me das demais, em ser especial, foi-se diluindo paulatinamente com o passar dos anos. Nunca pensei pensar no que penso agora mesmo. Estarei a ficar doida? Isso também vem com a velhice… não, é mesmo verdade, estou a pensar que apenas quero ser como qualquer outra.

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Talvez o peso da solidão, ainda que sentida por uma cota porreira, seja demasiado massacrador, nos diga demasiadas coisas ao ouvido, e nos faça querer poder voltar atrás no tempo, e ter feito algumas coisas de maneira diferente.

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Sento-me no café. A Josefa diz que está cheia de sono porque o marido ressonou a noite toda. A Maria diz que o marido a vai levar a ver Lisboa pela primeira vez no próximo fim-de-semana. Olho para elas e penso. Na minha cabeça começa a tocar uma qualquer música de repente. Aquela… filha do João Gilberto… Bebel Gilberto, “Tanto Tempo”. Já não as ouço e já não estou nos meus olhos, estou num plano acima, vejo-me como se duma novela brasileira fizesse parte. Ai, a banda sonora é incrível. Um narrador, baixinho, e “falando brasileiro”, sussurra:

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[Bebel Gilberto – Tanto Tempo]

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"Olívia ouvia suas amigas falando. Seus olhos entravam em conluio com seus ouvidos, sorrindo sua mente por dentro. No fundo, todas as suas questões voavam janela fora. Sabia perfeitamente que o mundo precisava de pessoas como ela. Magnífica, uma juventude eterna, uma capacidade observadora como nunca ninguém conhecera, uma capacidade de espalhar o sorriso e aquecer as pessoas ao seu redor. Um ser que se sentia sozinho, mas que fazia com que todo o mundo se sentisse acompanhado. Um ser incrível, daqueles que os poetas descrevem.

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Nessa noite, Olívia chegou a sua casa, ligou sua música, não jantou. Preparou um chá de camomila, sentou-se no frio da sua varanda, olhou o que passava em seu redor. Escreveu algo no seu milésimo bloco de notas, pousou a caneta, e bebeu o seu último chá.”

domingo, 27 de janeiro de 2008

16

Passou uma semana. Chego a duvidar se percebeu a genialidade da minha mensagem. O ambiente em casa, esse, permanece o mesmo. Uma mistura de sorrisos mal disfarçados e de caretas genuínas. O que estranho… temos tido mais sexo do que o costume, bastante mais. O processo tem o seu quê de belo. Deito-me, sempre mais tarde que ela e muitas vezes “torcido”, tento dormir. Ela acotovela-me para eu me chegar mais para o meu lado, mas deixa o cotovelo permanecer em cima da minha bacia. Suave e gentilmente, pego na sua mão e faço-a deslizar até os meus abdominais. Ela abre a mão. Sinto que sente as linhas que sulcam a minha barriga, e faço sua mão descer um pouco. A partir daqui, é mais ou menos seguindo a lei do improviso. Por vezes roda rapidamente e ataca-me, outras vezes masturba-me, apenas, outras vezes fá-lo um pouco e puxa-me titubeantemente para si, outras vezes sou eu, outras vezes…

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O mais estranho, mas que nem estranho, é o facto de, ao acabar, tudo volta ao normal. No dia seguinte acordamos e conversamos o indispensável, não há sorrisos, não há merda nenhuma. Tenho reparado, contudo, na sua expressão cada vez mais triste. Em pensamentos mais mórbidos e radicais imagino como seria se se suicidasse. O quão esmagado pela culpa eu me sentiria. Claro que no momento seguinte afasto para longe estes pensamentos ridículos, convencendo-me do quão impossível isso é de acontecer.

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Quando acabamos de fazer amor, ou sexo, ou seja o que for, permaneço, muitas vezes, e contrariando o estereótipo acerca dos homens na cama, a olhar o tecto, reflectindo. A minha mente leva-me para sítios que me fazem gostar menos da minha mulher, pela sua hipocrisia. Suponho que esses sítios para onde a minha mente me leva sejam ela própria, onde a lei é minha e sou senhor. Penso que é hipócrita, talvez até falsa, pois é capaz de passar o dia todo sem me falar, mas ao fim da noite, vem ter comigo, ou eu vou ter com ela e esta não recusa, cedendo ao instinto que temos dentro de nós. Sinto isto como uma VIDA dupla de posições. E sinto-me, especialmente, nestes momentos, feliz comigo e com a decisão que tomei, ou fui tomando, de ser eu mesmo. Levanto-me, acendo um cigarro. Penso se tive azar de, sendo eu mesmo, levar uma VIDA que pode não agradar a tanta gente, mas penso que, não só não temos o dever de agradar a todos através da infidelidade a nós próprios, como não é uma questão de sorte ou azar ser quem somos. Somos o que somos, ponto final. Não é uma questão de sorte, mas, creio, de natureza.

Acompanhante de Luxo

Acompanhante de luxo. Prostituta. Puta… Acompanhante de luxo? Não sei, já nada sei. No início pesava saber, e pensava que o sabia com precisão. Acompanhante de luxo… “Só vais com eles a algumas festas e tal, tomar um copo, etc, nada de mais” – diziam-me. Eu acreditava piamente. E de facto era verdade, não tinha de fazer mais nada. Não se ganhava mal, mas continuava a ter de pedir dinheiro aos meus pais que, pobres, faziam das tripas coração, para conseguir manter-me a mim e ao meu irmão. Nunca vivêramos bem, e sempre tivera de trabalhar, ajudando assim aos gastos. Mas estudando longe da Guarda como estudava, nem sequer podia ir a casa tantas vezes como queria, pois o preço das viagens assim não o permitia. Pelo que enveredei por este caminho que me parecia, que sempre me pareceu, como um caminho com retorno, um caminho suave com bons ordenados.
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Tudo começou com um senhor muito simpático, dos seus 60 anos, com quem fui sair certa vez.
- Sabes, estou hospedado no Astoria.
- Ah… Disseram-me que aquilo é giro!... – respondo eu na minha mais pura inocência.
- Podes vir comigo, se quiseres. – aqui, claro, percebo o que quer de mim. Mais do que mera companhia para dizer umas piadas. Mais do que eu queria dar. A minha expressão tem de ter sido de extrema surpresa, pois apressou-se a pedir desculpa pela brusquidão, dizendo de seguida que realmente gostava muito de mim, e que até me podia ajudar… e nesta altura tira da sua carteira um cheque.
- Não leves a mal. É só uma maneira de nos ajudar-mos mutuamente… O que quiseres… – diz-me, com a caneta na mão, pronta a atacar o papel. Digo que não quero nada, mas ele escreve qualquer coisa. Levanta o cheque e vejo a quantia de 600 euros. As minhas emoções entram em revolução. Não sei o que sentir. Sei que não é nenhuma riqueza, mas penso no quanto poderei ganhar numa hora, ou menos… penso nos meus pais, em casa, a tentar aquecer-se na lareira por não terem dinheiro para comprar um sistema de aquecimento. Penso, penso…
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Na manhã seguinte, lembro-me de acordar, já na minha cama, com uma estranha sensação de sujidade. O senhor não foi bruto, estúpido, não foi nada, mas recordo-me do seu corpo nu e engelhado em cima do meu, a entrar e a sair em mim, e lembro-me de fechar os olhos, não por prazer, como provavelmente pensou, mas para tentar fugir dali o mais rápido possível. Acordei com a sensação de ter perdido algum amor-próprio. Acordei.
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A partir daí as coisas sucederam-se a um ritmo estranho. Começava a receber chamadas directamente de pessoas interessadas, não da empresa, começava a receber cada vez mais e mais propostas, cada vez mais chorudas, propostas que não conseguia recusar. Com racionalizações constantes, com desculpas estúpidas e esfarrapadas entregava-me por uma hora a troco de quantias nunca sonhadas. Agia como um robot. Rir aqui, ser sensual ali, ser inteligente acolá.
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Acompanhante de luxo… Prostituta… Puta… Volto a pensar nisso. Estou deitada na minha cama de hotel, olho o tecto que, parado, me devolve uma imagem fria, inerte, como se de um espelho se tratasse. É Sábado. Penso que comecei nesta VIDA há dois meses, e fruto da minha crescente “fama”, ainda nem fui a casa visitar os meus pais. Que desculpa dou a mim mesma agora? Ainda que chegasse, e desse todo o dinheiro aos meus pais, teria sido digno? Não sei, especialmente porque não sei se a razão pela qual comecei era a razão que contava a mim mesma, ou outras que desconheço. Terá sido um gosto aparentemente desconhecido pelo novo, pela aventura?... Terá sido um desejo de me sentir como um pedaço de carne, como um camaleão constante, adaptando-se a cada cliente. Como uma mulher atraente e cativante.
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As perguntas bailam em minha cabeça. As respostas não as sei.

sábado, 26 de janeiro de 2008

BorderLine

Estou em desalinho com o resto do mundo. Sinto-me inadaptado a tudo o que me rodeia, e a tudo o que tento rodear. Ela começou por me rodear, elas vão começando por me rodear, eu vou-me apaixonando. Depois começo por querer rodeá-las. Depois apenas as rodeio e apenas são rodeadas por mim. Não quero, mas é mais forte que eu, e faz com que todas se afastem de mim mais tarde ou mais cedo.
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No café, peço uma água das pedras e penso nestas merdas. No porquê de ser como sou, no porquê de ter esta obsessão fácil de conquistar, e no porquê deste medo que me consome, o medo da solidão e traição, o medo… elas percebem rapidamente, quando passamos a fase da sedução, e começo a querê-las só para mim. Umas perdoam e compreendem, outras não, mas vão todas embora.
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Penso na relação que tenho com Catarina. Talvez seja normal que, mais cedo ou mais tarde, duas pessoas iguais se juntem, e tudo façam para se destruir uma à outra. Quando olho para ela, quando a ouço berrar comigo, algo mais forte que eu vem ao de cima, algo primário, quase animal. Quero berrar mais alto, quero-lhe bater, quero ameaçá-la. Poucas vezes me controlo. Quando está tudo bem, não está tudo bem. Quando está tudo bem, é uma espécie de pausa, de tempo à espera do próximo problema. E vivemos assim, constantemente a arranjar merda para dizer, constantemente a fazer o outro sentir-se da pior maneira possível.
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Uma vez disseram-me que eu tinha um perturbação. Borderline, disse-me.
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- Vou-me embora e nunca mais fales comigo, borderline do caralho! – disse a Marta, segundos antes de sair de minha casa, batendo com a porta. Recordo-me de permanecer em pé, a olhar a porta de madeira branca, a pensar nas suas palavras, e nas minhas próprias palavras que originaram essa discussão.
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- Vais sair com essa saia?
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Bordeline. Borderline?
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Fui pesquisar. Vi-me retratado em alguns aspectos, e tentei negar os restantes. Não sei se consegui.
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O que sinto? O que sinto, realmente, é esse medo que me acompanha dia após dia, que é o medo de acordar e não ver ninguém ao lado. Agora estou com Catarina, mas porque estou? Estou porque tenho alguém que alimente uma espécie de solidão conjunta, alguém a quem destruir, alguém que me destrua. Porquê? Quero paz, como quero paz. Mas apenas tenho paz quando faço o que faço desde criança de vez em quando, e que escandalizou os meus pais. Nesses momentos, a minha mente voa, e foca-se apenas num sítio, abandonando todos os pensamentos que tenho e não quero ter, que não devo nem posso ter.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Liverpool

Amigos, apenas proximo Sabado aparecera uma estoria por estas bandas. Estou em Liverpool, e sem o meu pc. Entretanto podem ir visitando o meu outro blog:
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quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

15

Boa merda. Não acredito que foi capaz de me fazer isto… [Soa, algures, Silj Nergaard]. Tenho, diante de mim, o quadro, com a mensagem que me faz sentir algo cujo significado não me apetece definir. A um metro, entre mim e o mesmo quadro, uma mesa, onde conversam dois bêbedos com aspecto de revolucionários da treta. Não vale a pena referir o tema. Os revolucionários da treta de Hetwestenland falam de política e de putas. Os revolucionários não falam. Dou um passo, sem nunca largar, com o olhar, a merda do quadro, e sento-me numa cadeira, entre os dois revolucionários da treta. Deixo de os ouvir falar, e reparo, pelo canto do olho, que olham para mim. “Puta do caralho, cobarde do caralho” – penso, enquanto penso, claro no quão astuta a gaja consegue ser. Que faço agora, se prometi a mim mesmo que não deixava nenhum recado para Godelieve?

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- Nós estávamos a conversar! – atira o gorila da direita. Chega até mim o forte odor a Mestiba, a bebida nacional.

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- Pois continuem, estou-me a cagar para a política. – digo, sem muito pensar, e sem largar os olhos da caligrafia da medusa. Sorrio para comigo ao pensar que se já deitei a perder promessas feitas a outras pessoas, não sou eu mesmo que me vou impedir neste caso.

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- Estás-te a rir? – diz-me. Quer problemas. Isto é tudo menos o que preciso. Pela primeira vez arranco os olhos do pequeno pedaço de folha branca. Levanto-me, sem nada dizer, viro-me de costas. – Como é que dizes que te estás a cagar para a política, temos de lutar!! – bem, este “temos de lutar” foi um pouco demais. Vejamos… sei bem quem é a pessoa que está diante de mim. Não quem ele é, mas o que ele representa. E não quero saber se estou a seguir estereótipos. Este é daqueles que adoram demonstrar insurgir-se contra o ditador, adora falar, adora ameaçar a revolução, mas, no final, nada faz, e certamente ainda é pago pelo governo para não agitar as marés mais do que realmente o faz. Estava em andamento em direcção ao bar, encetando a saga do pedido de mais um whiskey, mas volto-me de novo. Dou um passo, decidido, e apoio-me com os dois braços na mesa, olhando, com meus olhos a menos de um palmo dos seus. A sua expressão combina a surpresa com a raiva duma maneira quase harmoniosa.

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- Ouve… eu estou-me a cagar para a política, e se queres lutar, levanta o cu e organiza-te. Eu estou-me a cagar para a política e, julgando pelo teu cheiro, tenho a certeza que a política também se está a cagar para ti! – belo! O lugar que a surpresa ocupava na sua expressão rapidamente é totalmente preenchido pela raiva, levanta-se de rompante, levanta o braço, mas o seu companheiro, que ao mesmo tempo se ergue, aguenta-o. Sinto alguns olhares mexerem no meu perfil, e quando me volto, percebo serem solidários. Estereótipos? Chego ao bar em 3 segundos, e a cada passada sinto injecções de adrenalina que chegam tardias ao meu peito. Chegassem mais cedo e, quem sabe, nada teria dito. A adrenalina mexe-me as emoções e sinto uma alegria enorme, sinto-me a sentir, sinto-me bem vivo dentro de mim, não mais adormecido. O “eu” antigo nunca teria feito algo assim. O “eu” de agora tem razão? Nenhuma, fui eu que fui ter com eles, não o contrário. Interessa? A mim não interessa nada. Fui espontâneo, fui eu, sem os invencíveis trâmites da reflexão em exagero que marcou toda a minha VIDA. Curioso como, nestes momentos em que faço coisas mais estúpidas, tenho mais respeito por mim. Não sei se dantes tinha ou não respeito por mim. Caso não tivesse, não seria de estranhar, não tinha respeito porque não era eu próprio, era uma cópia de algo desconhecido. Caso tivesse, não era por mim que tinha esse respeito, mas por essa cópia.

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Com o whiskey vem a base de cartão beje, que brevemente levará consigo uma mensagem. Peço uma caneta, que deixa parte do seu sangue na base já marcada. Bebo o que falta de uma vez, levanto-me dos altos bancos, e volto a encaminhar-me para o quadro. Os revolucionários da treta voltam a parar de falar e desta feita são ambos que me miram ferozmente. Lanço um sorriso irónico, ao mesmo tempo que levanto a mão, mostrando a base que estava prestes a alcançar aquela espécie de hall of fame da memória. Debruço-me sob a mesa, quase cheiro, desta vez não o suor e lixo entranhados na pele, mas a animosidade dos meus caros amigos.

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Estou fora do bar. A mensagem ficou. Acendo um cigarro, sigo caminho.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

The O.C.

Vivo com uma maldição que me atormenta dia após dia. Cada frase destas que escrevo foi escrita três ou quatro vezes, para ter a certeza que fica bem. Quando saio de casa, caminho uns passos, o coração bate acelerado. Chamo-me à razão, não consigo. A cada passo que dou sinto-me mais nervoso e inquietante. Nervoso. Quando consigo caminhar mais que 20 metros, o bater desenfreado do coração é acompanhado por umas gotas de suor na testa. Tenho de voltar para trás, e confirmar se realmente a porta ficou bem fechada.

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Não tenho quem me consiga ajudar. Esqueci psiquiatras, psicólogos, esqueci tudo, pois de tudo já tentei, sem qualquer resultado. Os meus pais começaram a perceber quando, era eu criança, não conseguia comer nenhum prato que não estivesse devidamente organizado. Se uma ervilha tocava no arroz, era para mim impossível comer aquilo. O meu pai batia-me, como me batia, não percebendo algo que eu próprio não percebia. Em dias em que estava mais irritado, enfiava-me a comida na boca, acabando por me ver vomitar mesmo à sua frente. A minha mãe percebeu mais rápido que era algo que não mudaria, e fazia por me deixar tudo separado. Apesar de tudo, foi a altura em que fui mais feliz, já que se manifestava apenas em momentos que não influenciavam a minha VIDA. Apenas nas refeições. Quando comecei a não conseguir comer com os talheres comuns da casa, e quando descobriu na minha mesinha de cabeceira um par de talheres que levava para a cantina da escola, começou a preocupar-se mais. Levou-me a uma série de terapeutas, e quando viu que, com o passar do tempo, eu apenas piorava. Levou-me a um… bruxo. Nada.

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Isso fez com que tenha muitos poucos amigos, nunca tenha conseguido ter uma relação íntima com ninguém, e com que nunca tenha beijado ninguém. A medicação ajuda, mas não muda. Ajuda, mas não muda. Nada me muda.

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As obsessões são tantas, e estúpidas, girando a maior parte acerca duma incerteza constante que se abate sobre mim. “Terei fechado bem a porta? Estará tudo limpo e imaculado como preciso que esteja? Está qualquer coisa que eu faça bem feito?”. O resultado destas estúpidas obsessões leva-me a confirmar tudo um sem número de vezes. Não o faço sempre em números ímpares, ou um número certo de vezes, como tantas vezes se vê nos filmes, faço apenas o número de vezes que acho necessário para confirmar realmente algo que podia ser confirmado à primeira.

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Tudo isto leva-me a evitar todos os locais públicos onde possa ser humilhado, onde possam reparar que não sou… normal. Algo com que os especialistas me ajudaram foi na escolha de uma profissão que se coadunasse com o meu problema. Isto é, algo em que estas obsessões se diluíssem um pouco, e 8h por dia me fizessem sentir como uma pessoa entre tantas outras, com os mesmos problemas das outras, e não com um problema que me põe na margem de toda a gente.

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Mas 8h por dia são apenas 8h por dia. O que é o resto? O que é sentir que não tenho VIDA própria e que os receios infindáveis me levam a não me envolver com quase ninguém? O que é sentir que é como se outra pessoa habitasse dentro de mim e me dissesse constantemente o que tenho de fazer?...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

parte 14

Paatos - Happiness

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Vejo Godelieve ao fundo, está com outro homem, a beijá-lo fortemente. Aproximo-me e fico em pé, diante de ambos, a fumar um cigarro e a observá-los.

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Seria assim que reagiria caso isto fosse verdade? Acho que não. Da maneira como tenho andado, o mais certo seria… não sei. Não sei mesmo. Entro no café. O som é agradável. Há um cheiro a coco no ar, não sei de onde vem. O ar, como sempre, apresenta-se carregado, vejo nuvens de fumo a vaguear de canto para canto. Penduro a minha gabardina no canto. Escuto o que se passa ao meu redor, e tento sentir as coisas com mais intensidade. Estabeleço a comparação na minha mente. Se estivesse em casa estaria a ver televisão, muito provavelmente. Que vale isso? Mesmo que estivesse a ver algo útil, como… as notícias, de que vale, realmente, estar a par do que se passa no país, se o que se passará no futuro, a nível político, será o mesmo?

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Vejo, ao fundo, o quadro. Incrível a centena de notas, bilhetes, mensagens que vejo pendurados. Num momento penso que me será impossível descobrir um eventual bilhete. Segundos depois lembro-me do local onde disse que o poria. Sento-me no balcão, peço um whiskey.

- Algum em especial? – curioso. A primeira vez que me fazem tal pergunta.

- Hum… pode ser um Jack Daniels… – servem-me e dou um gole. Saio de mim e observo-me. O “eu” do passado veria alguém como o “eu” do presente, alguém, sozinho, num balcão, a beber whiskey, e considerá-lo-ia um falhado, um fracasso, um nada. O “eu” do presente considera o “eu” do passado um iludido. Qual está certo? Não faço a mínima ideia. Por um lado odeio Godelieve por ter agitado toda a minha estrutura, por outro lado amo-a, morro por ela, pois mostrou-me o verdadeiro “eu”, sem passado, presente ou futuro.

Incrível como sinto as minhas opiniões acerca de tanta cosia variarem a cada segundo. Gera-se um misto de pena e raiva por quem tem certezas acerca das coisas, e sobretudo, acerca de si, pois sei que isso é algo impossível. Penso na frase que soa invariavelmente corriqueira “a única certeza é não haver certezas” e sorrio, ao dar um gole, com a verdade arrebatadora que representa, como se a VIDA e a condição humana não pudesse ser melhor explicada. Não sei que rumo tenho, mas isso agrada-me.

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Penso no que prometera a mim próprio. “Não deixo nenhum bilhete”. Não deixarei. Levanto-me do alto banco onde descansava e, lentamente, caminho em direcção ao quadro. A pilha de bilhetes é interessante. Sei o local onde eventualmente estará uma mensagem para mim. Como que numa espécie de masoquismo, faço por dar uma olhada a todos os bilhetes ao redor do nosso local, e apenas no final, depois de algumas gargalhadas e sorrisos, olho para onde quero olhar. Tenho de procurar bem. Nem faço ideia de como será. Não vejo nenhum bilhete com o meu nome e isso faz-me pensar que não me deixou nada. Todavia, pensando bem, recordo-me de como, talvez na realidade me chamo. Theodoor. Procuro este nome, ou o seu nome, na nossa realidade, entre o amontoado de bilhetes.

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Theodoor, deixa-me uma mensagem. Godelieve.”

Parte 13

The Cinematic Orchestra - Evolution

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“Caso continuasse nessa estrada… caso continuasse nesta estrada…” – não me saía da cabeça este pensamento. Via diante de mim uma série de destinos, de futuros possíveis, e não conseguia deixar de pensar no hipócrita que estava a ser ao recusar seguir determinado caminho, baseado no medo que tinha de como poderia mudar. O que sou, então? Apenas me conheço, apenas estou em contacto comigo mesmo, com o que sou realmente, se tiver passado pela maior variedade de situações possível. Se as evito com medo do que me possa tornar, posso estar a negar o que, talvez, realmente seja. Se passar por essas situações e me mantiver o mesmo, aí sim, sei que é o que sou. Caso contrário…

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Chego a casa.

- Querida, desculpa estes últimos momentos. Quando falei em marasmo, falava no aborrecimento em que muita gente pode cair, não me estava a colocar como mais aborrecido que qualquer outra pessoa, e não estava, sobretudo, a deixar as culpas cair em ti…

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- Não faz mal amor, eu percebo-te perfeitamente! – responde, e damos um longo e apaixonado beijo.

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Chego a casa. Desta feita na realidade. Penduro a minha gabardina no bengaleiro, juntamente com o chapéu. Vou ao quarto do Arjan, pergunto-lhe como vai a escola, converso um pouco com ele, ajudo-o a fazer os deveres. Ouço a minha mulher pelo resto da casa.

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- O jantar está pronto. – diz, para quem quer ouvir. Penso na conversa da manhã. Não quero de maneira nenhuma uma conversa repetida, e não me apetece repetir a ensaiada frente ao espelho do elevador. Entro na cozinha. Nem levanta os olhos.

- Olá! – digo, meio em tom de brincadeira, com uma cara de podes-olhar-para-mim-vamos-fingir-que-não-se-passou-nada.

- Olá. – responde, em tom baixo. Mal olha para mim, mas quando o faz, sinto-me incomodado. Lembro-me daquele olhar. Ou melhor, lembro-me da força e expressão que aqueles olhos podem ter, mas aquele olhar é novo para mim. Lembro-me da força dos olhos que me apaixonaram, muitos anos antes, e vejo diante de mim um olhar que nunca imaginei ver. Sento-me. Ao longo do jantar vou tentando fazer conversa, através de coisas circunstanciais, imaginado, talvez, que tudo pudesse ficar bem sem sequer mencionar o que se estava a passar. Bem, o que se estava realmente a passar, isso, nunca seria mencionado. Refiro-me ao que ela estava a ver, as reacções que eu tinha vindo a ter. Como as minhas tentativas iam caindo sucessivamente no vazio, ia sentindo crescer dentro de mim uma certa irritação, como que um menino na esperança de agradar que não recebe resposta. Vai respondendo com leves sons, e isto quando o faz.

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No final do jantar, dou um beijo a Arjan, levanto-me, e vou para a varanda fumar um cigarro, depois de me ter servido um whiskey.

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“Ela tem de suspeitar! Ando para aqui feito parvo com reacções de merda, nem sequer estou a disfarçar um caralho! Será que sou demasiado genuíno e não consigo agir normalmente sabendo o que ando a fazer? Oh, o melhor é deixar-me de merdas, porque é o que sou, realmente. Genuíno o caralho, sou é um merdas…” – vou pensando, na varanda. Apesar do conteúdo não o ser, os pensamentos surgem calmamente, e vagueiam pelos cantos da minha mente sem fazer mossa, quase como se esta já os esperasse, e quase como se eu, realmente, estivesse contente por ser um merdas.
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Volto a entrar na sala, sento-me a ver televisão. Ela vai fazendo não sei bem o quê, e acaba por ir para a cama, pouco passa das onze. O que tenho diante de mim é o aborrecimento num quadro. Do quadro faço parte eu, sentado num sofá, na mão esquerda um copo, na direita um comando de televisão, uma televisão na outra ponta e uma mesa a dividir. Estarei viciado em excitação, com uma tolerância abaixo de zero para o aborrecimento? E, pensando bem, não deveríamos todos estar assim?

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Aconteceu. Não penso nela. Ou melhor, não penso cem por cento nela. Penso mais na curiosidade que tenho em saber se ela deixou algum bilhete no café. Vou, apenas, ver. Não deixo bilhete nenhum. Verdade. Acima de tudo, vou dar uma volta, sentir o Vento na face, fumar uns cigarros, beber uns copos, falar com pessoas. Sentir.

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Levanto-me, visto a gabardina, ponho o chapéu na cabeça, e meto-me no elevador. Olho para o espelho.

- Como correu a conversa? – pergunta-me.

- Não me fodas… – atiro, enquanto acendo um cigarro, ignorando os sinais proibitivos bem visíveis.

- Não, a sério, diz-me lá, como correu? – o tom é sarcástico – Estou curioso. Temos-te de volta ou quê? Tens-te de volta, ou quê?

- Ter-me-ás de volta mais logo, quando eu for dormir. Não há grande diferença entre os estados de viver nessa altura. Apenas os olhos estão fechados… – digo, com irritação. Acabo por dizer, talvez, mais do que sinto, magoando-me, neste diálogo interno.

- Vais?

- A tua VIDA está lá em cima à espera, sabes bem onde… Podes ir… – respondo, deixando tudo dentro daquele elevador, deixando o espelho sem ninguém a o habitar. O porteiro cumprimenta-me, quase me pergunta onde vou a estas horas, mas o meu cumprimento segue-se de passadas decididas em direcção ao exterior, que atiram por terra a sua oportunidade. A cidade está agitada, muito se passa nas ruas. O Vento sopra forte, o céu está carregado. Chamo um táxi. É o mesmo taxista que me levou para o hotel com Godelieve.

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“Este tipo de sinais não existem. Pura coincidência, sê racional.”

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Entro no café.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Tal - Parte XII

Crawling up the Hills – Katie Melua

Learnin’ the Blues - Katie Melua

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Acordo. Segunda-Feira. Trabalho, trabalho, e essas coisas me esperam. A minha cabeça lateja um pouco. Olho ao longo do meu corpo e percebo que, não só estou vestido, como estou na sala. Claro. Levanto-me, dispo-me, deixo a roupa no sofá. De boxers, vou até ao canto da sala, onde ligo aparelhagem. Vamos ver… Katie Melua, sim. Soa Crawling up a Hill. Vou à varanda, acendo um cigarro. Penso se deixarei alguém bilhete no café. Penso se me deixará a mim ela algum bilhete. “Bem, acabou, é oficial” – penso, descontraidamente. Sinto alguma adrenalina fervilhar, como o meu lado mais louco a morrer lentamente dentro de mim. Não me tira um certo sorriso malandro dos lábios, apesar de me fazer duvidar. Volto costas, vejo minha mulher. Que cara, meu deus…

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- Que foi? – pergunto, ao vê-la olhar para mim como se não me conhecesse.

- Que foi? Isso pergunto eu a ti! – hei – Chegas ontem às horas que chegas, nem dizes nada, dormes na sala, acordas, roupa por todo o lado, acordas-me com a música nestas alturas… Por isso eu é que pergunto, o que é que se passa! – o tom dela não me agrada de maneira nenhuma. Imagino Godelieve a acordar agora, mandar um sorriso para qualquer lado ao pensar em mim.

- Tem calma querida… - digo, descontraidamente – Temos de fazer coisas que não estão previstas de vez em quando… senão a VIDA torna-se um marasmo total… - não me acredito que esta desculpa esfarrapada acabou de sair dos meus lábios…

- E tu ainda me dizes para ter calma! Marasmo? A tua VIDA aqui, então, dizes tu, dá-te marasmo?? – ia continuar a falar, num tom de voz crescente, mas interrompo-a.

- Olha sabes que mais, esqueci-me que preciso de fazer uma chamada! – E deixo-a a falar sozinha na sala, fechando eu a porta da varanda atrás de mim. Escusado será dizer que apenas tinha comigo o maço de tabaco e um isqueiro. Pelo que acho que deve ter ficado ainda mais chateada ao ver que simplesmente não a queria ouvir. Sorrio, sarcasticamente, ao ouvi-la barafustar sozinha. Incrível como tenho consciência da merda que estou a fazer, mas não me importo e continuo-o, qual menino rebelde. Não consigo descrever o gosto estranho que aquilo me dá. Como se Godelieve me tivesse vindo acordar de um sono, dum sonho, que era a minha VIDA, rotineira, sem altos e baixos, mas apenas um longo período de algo que eu pensava ser um alto…

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Entro na sala, toca Learnin’ the Blues. Sirvo-me de um whiskey, sento-me no sofá, e vejo as notícias. “A beber de manhã” – ouço, lá longe. Passado meia hora, visto-me, vou para o trabalho. Gosto da descontracção com que acordei neste dia. Especialmente a liberdade de fazer o que me apetece.

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O dia passa-se bem, e ao voltar, penso em ir ao café. Afasto esse pensamento, mas sinto uma ansiedade estranha ao o fazer. “E se ela me deixou alguma mensagem?” – penso. Mas penso de novo, e penso que se tudo o pouco que se passou me fez mudar de perspectiva, duma maneira que me agrada, mas que também me assusta, o que poderia acontecer, caso continuasse nesta estrada?...

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Mendigo

Oceansize – The Frame

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Está um frio impressionante. Fui-me habituando a muitas temperaturas ao longo da minha VIDA, mas… ou está cada vez mais frio (não sei se será isso), ou a idade começa a não perdoar. Durante o dia caminho por Londres, caminho todo o dia, vou pedindo esmola a este e àquele, mas é rara a pessoa que me dá alguma coisa. Caminho todo o dia para não sentir o frio, mas as pernas eventualmente fraquejam, e vejo com medo a altura em que tenho de parar. Caminho tanto que conheço toda e qualquer parte da cidade. Quando tenho de parar, vou para o metro. Viver num metropolitano não é das coisas mais saudáveis que se pode fazer, tenho perfeita consciência disso, mas prefiro viver respirando todos esses gases nocivos do que não viver de todo. São 5 da tarde, o sol já se pôs há muito tempo. Sento-me no chão, olho para as pessoas que passam, com os olhos colados no chão, com cara de cansaço, não vejo sorrisos. De vez em quando estico o braço. Quando o olhar abandona a monotonia constante em que vive, olha para mim, mas sinto-me invisível. O olhar atravessa-me ao meio, espalha-se na parede atrás de mim. Isto é quando corre bem. Das outras vezes em que olham para mim, as sobracelhas carregam-se, abanam ligeiramente a cabeça, e seguem sempre. Sou parte desta sociedade, mas não vivo nela. Vêem-me como um vírus. E será que sou?... Tomei muitas decisões erradas nesta VIDA, como tomei… mas será que tenho que pagar por elas para sempre? Será uma espécie de destino do qual não posso fugir? E devo fugir? Ou devo baixar os braços e deixar de tentar?... Em que é que estou a pensar?... Já os baixei há tanto tempo…

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Por vezes, atrevo-me a sonhar. Estou sentado no metro, vejo turistas, esses os únicos que sorriem, retirando a monotonia dos lábios de toda a gente. Londres como a segunda cidade europeia mais visitada tem turistas o ano todo. Eu conheço Londres de ponta a ponta. A matemática é simples, sonho que poderia ser um simpático e barato guia turístico. O sonho não passa ao acto, pois já tentei, e fracassei, como fracassei. O pior é a humilhação. Certa vez fui esperar à estação de autocarro e ofereci-me a um sem número de grupos para ser o seu guia turístico. Um simples “não” seria suficiente. Mas… quando esse não vem com uma gargalhada, quando se afastam a gozar-me, continuando a olhar para trás… quando o não vem acompanhado de um sinal facial que me diz que só se fossem doidos aceitariam… aí dói-me, como dói… Foi só um dia. Bastou para arrasar esse meu modesto sonho, lançando-me numa visão explícita de como nunca vou conseguir fazer parte de nada.

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O metro tem de fechar. Saio, está tanto frio. Apanho uns jornais e enfio-os por entre a roupa, tentando isolar-me mais um pouco. Vagueio entre a noite procurando alguma coisa. Alguma coisa para comer, para me aquecer, alguma coisa para alguma coisa. Toda a gente pensa, eu sei, que o que nós, mendigos procuramos, cinge-se a um par de coisas, comer, beber, drogas, seja o que for. Na verdade procuramos, ou pelo menos eu procuro, muito mais. Em cada passo que dou procuro algo. Uma espécie de futuro diferente, já ali ao virar da esquina, um futuro que nunca está lá. Terá fugido para a próxima? Claro que não, nunca existiu. Mas eu vou procurar, e procuro sempre, alimentando, a cada segundo que passa, um vazio enorme dentro de mim.

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Quando me sinto mais uma vez cansado de tanto caminhar, aninho-me num canto, perto dum banco. Encolho-me o máximo que posso, tentando assim tremer menos. Passam pessoas na rua e alguns comentam que estou a ressacar. Quase sorrio, pela primeira vez em dias, ao pensar os anos que passaram desde que deixei a heroína. Mas é assim. Onde quer que vá, o que quer que faça, levo atrás de mim uma etiqueta enorme, faço parte dum estereótipo que nunca me vai deixar fazer mais nada na VIDA.

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Começo a sentir-me sonolento e muito fraco. Já ignorei a vontade do estômago há muitas horas. É quando aparece um grupo de 3 turistas. Abro um pouco os olhos e vejo 3 jovens com os seus 22 anos, de aspecto do sul da Europa. Chama-me e dão-me uma sanduíche, dizem que lhe ofereceram muitas e que eu posso ficar com aquela. Quero agradecer mas as palavras não saem. Quero comer, mas mexo-me com muita dificuldade. Deixei de tremer há meia hora. Avisto ao longe um relógio digital, que aponta, além das horas, uma temperatura de menos 10 graus. Penso em dormir um pouco, e em comer a sanduíche depois.

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Fecho os olhos. Não volto a abrir.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

J_U_S_T__I__ç_a

Quando o vi não consegui acreditar. Era ele. Abri bem os olhos, tentei controlar o meu furacão interior e cravei o meu olhar na sua figura, na esperança de que olhasse também para mim. Não conseguia perceber o que se estava a passar, não conseguia perceber o que estava a sentir. Quando pensava já o ter ultrapassado de vez, acontece-me isto. Mas não me quero acelerar...

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Estava a tomar café na Vénus, enquanto esperava umas amigas. Lia, descontraidamente uma revista qualquer, lia sobre os outros, como sempre. Pensava no que a minha VIDA se tinha tornado… 4 filhos, trabalho, ler revistas estúpidas, dormir, ver a novela, comer… a excitação, essa não a via fazia muito tempo, muito tempo…. Acho que foi por isso que, ao ver o Eduardo entrar pastelaria dentro, senti o que senti. Senti que parecia que o meu último sentimento tinha sido consigo. O meu marido não despertava em mim o mais ínfimo sentimento já. Apenas a resignação dum casamento aparentemente feliz, filhos que adoro, dias que quero que passem.

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Olhou para mim. O seu sedutor sorriso abre-se, os olhos parecem brilhar, quero acreditar, e aproxima-se.

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- Adriana! Será possível? - “E será possível que te tenha deixado partir?”, penso. Passados os 15 minutos iniciais de conversa circunstancial, vejo, através do vidro, uma amiga minha a chegar. Não queria estragar aquele tão precioso momento, e pergunto se não quer ir tomar um café a um outro lado qualquer. Para minha surpresa, aceitou. Consegui fugir a tempo, agradecendo mil vezes ao pesado trânsito conimbricense em hora de ponta.

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[Essa tarde tem muitos nomes. Acho que me permiti recuar no tempo, voltar aos tempos de estudante, em que vivia essa paixão desmesurada, um amor louco, selvagem, mas que acabou. Parece estúpido, mas não me conseguia lembrar como, ou porquê, tinha acabado. Claro que de vez em quando era chamada à realidade, quando insistia em falar do seu casamento, e manifestava a profunda tristeza em não conseguir ter um filho. Quando lhe disse ter 4, dizia, na brincadeira, que lhe podia dar um.]

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Eis que, quando estava à espera que dissesse que tinha de ir, ele me consegue surpreender.

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- Que dizes de inventarmos cada um uma desculpa para não jantarmos em casa e irmos beber um copo? Pelos velhos tempos…

- Estás a falar a sério? Bem… por mim tudo bem, mas nem preciso de desculpa, o meu marido tem uma reunião qualquer, não vem jantar. Tenho só de pedir à minha mãe para olhar pelas crianças enquanto não chego.

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Acho que não vale a pena dizer o que se passou de seguida. Realmente fomos beber não um, nem dois, mas copos atrás de copos, “como nos velhos tempos” e a determinado momento, estamos nós sentados numa esquina do English Bar, ele aproxima-se.

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- Sabes que eu, de certa forma, nunca te esqueci. – atira, enquanto deixa a sua mão esquerda descansar na minha perna, um pouco acima do joelho. O seu braço direito abraça-me subtilmente.

- Sabes que eu, seja de que forma for, nunca te esqueci. – respondo. Sinto-me sensual, e sinto que ele sente o mesmo. Sentir, sentir, só penso nessas palavras quando estou com ele. Não quero pensar em nada naquele momento. Não quero pensar que tenho um marido e família, que tenho responsabilidades, que tenho uma rotina desesperante… quero voltar a ser a miúda apaixonada pela VIDA, impulsiva, que se entrega às emoções. E assim o faço. Agarro-o com o meu olhar, puxo-o, e beijamo-nos. Ele sobe a sua mão direita, agarra-me gentilmente na face, e responde ao meu beijo apaixonadamente. Descola os lábios dos meus, aproxima-se do ouvido.

- Astoria?

- Vamos…

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É-me difícil explicar como amei cada segundo de toda aquela aventura. Sorria ao pensar que o termo “aventura” para “um caso” não podia, nesse particular caso, estar melhor aplicado. Porque sentia-me realmente, como numa aventura. A adrenalina abundava, o desejo era enorme, o sentimento era ameaçadoramente delicioso.

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Não demoramos muito a chegar ao hotel. Não lhe disse, naturalmente, mas eu não fazia amor há mais de meio ano. E não fazia amor com o Eduardo quase há meia VIDA. Talvez por isso tenha sido tão fantástico. Cada momento.

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- Adriana, tenho algo para te dizer. – Está deitado por cima de mim, não já dentro de mim. Penso em mil coisas que me possa dizer, ou pedir. O meu coração pensa noutras quantas. Quero dizer que sim. Seja o que for, quero dizer que sim. A sua expressão vai ficando mais carregada, a cada batida do meu coração. Os meus olhos embaciam-se. Que me aguarda?... – Eu não fui totalmente sincero contigo… Eu… de certa forma, engendrei o nosso encontro. – acho que o pico de alegria que senti quando o ouvi dizer isto foi, esse sim, ainda mais curto que uma batida seja de que coração for. Durante esse milésimo de segundo permiti-me pensar que engendrara o nosso encontro porque tinha saudades minhas, porque queria ver-me, estar comigo. O meu pensamento voltou à realidade mais eventualmente assustadora quando vi que a sua expressão carregada não se alterara. Quando me relembra do que tinha dito acerca de não conseguir ter filhos, o meu coração pára. Quando continua a falar e explica a sua teoria, do mais cruel, mórbido que já ouvi, a minha respiração pára. O pedido adivinhava-se a qualquer segundo. Os olhos, esses há vários minutos abandonaram a condição de embaciados, humedecidos, e davam a conhecer o que ia dentro de mim, deslizando as lágrimas silenciosas pela minha face. Não sei o que se passou dentro de mim. Nunca imaginara um pedido daquela natureza, pedir algo tão forte, arrasar-me completamente enquanto ser humano. Sentia-me como um pedaço de qualquer coisa, um pedaço de nada, um pedaço… um pedaço de coração despedaçado. O que restava, e isso era o mais estúpido, o que restava do meu coração, batia por Eduardo. Viajei muito rápido, a viagem foi efémere. Numa tarde renasci, vivi a juventude, e num momento envelheci, com a perfeita consciência diante de mim, de que não havia qualquer voltar atrás. As mãos, que frias descansavam nos lençóis, elevam-se, acariciam a sua face. Tento ser mais eu. Tendo ser mais eu em cada poro da minha pele que sente ainda o seu corpo de encontro ao meu. Digo que sim, lentamente, com a cabeça, enquanto reúno forças para falar.

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- Sim, Eduardo, eu faço isso por ti. – A sua expressão não muda, mas sinto, quem sabe erradamente, seus olhos brilhar um pouco mais. Estou dentro da cabeça dele e antevejo cada pensamento. A expressão adquire uma tonalidade de dúvida. – Não precisas de te preocupar com isso. Tudo esteve do teu lado hoje.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Justiça

Mind’s Eye - Wolfmother

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“Se quase toda a gente pode ter os que quiser, porque é nós não podemos ter só um? Só um…” – penso. Era o que tínhamos vindo a dizer um ao outro. De início acho que funcionava como uma espécie de desculpa, um tentar convencer-nos a nós próprios que não era algo assim tão errado. Mas, à medida que o tempo foi passando, e o plano evoluindo, comecei mesmo a acreditar, ou melhor, a compreender, e perceber que faz perfeito sentido.

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Quantas vezes tínhamos tentado, quantas frustrações… Parece que foi Deus, o meu Deus sagrado, que tantas vezes me castigou, mas que de repente me deu uma oportunidade. Por coincidência, soubemos que uma pessoa ia ter um. Mal soubemos da gravidez, e após interiorizarmos vezes sem conta a realidade, isto é, que também merecíamos um, começamos a planear tudo. O primeiro passo foi contar aos pais e aos amigos.

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- Pai, consegui, estou grávida! – A alegria de todos parece que foi quase maior do que a nossa até seria, pelo que mais me convenci que estava a fazer o que era certo. A partir daí começamos a disfarçar a barriga, com muito cuidado e progressivamente. Com um pouco de cuidado e esperteza, escapávamo-nos de eventos como idas à praia, piscina, enfim, tudo o que pudesse pôr a descoberto o nosso segredo. Para nosso azar, ou a pessoa que ia ter não tinha querido saber o sexo do bebé, ou nós não o tínhamos conseguido descobrir, pelo que dissemos a toda a gente que preferíamos descobrir na hora. O meu marido, dedicado como sempre foi, por volta do quinto mês, quando já tínhamos quase toda a roupa do bebé, oferecida um por todos os familiares e amigos, em tons de amarelo, já tinha descortinado todos os hábitos daquela numerosa família, bem como as fragilidades e faltas de cuidado na sua casa. Claro que tivemos o cuidado de arriscar o plano com alguém que não conhecêssemos.

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- Estou grávida! – Ouvi-a dizer às amigas no café. Não consegui descrever a profunda inveja que senti e sentido de injustiça ao saber que aquela mulher, que já tinha 4 filhos, ia ter mais um! Mais um! Remoía constantemente nisso, não conseguia deixar de me sentir como o ser mais negligenciado por Deus! Tinha de partilhar a raiva e ódio desmesurados e sem sentido que sentia, e fi-lo, naturalmente, com o meu marido. A surpresa foi enorme, mas deu lugar à esperança.

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- Não percebes esta oportunidade!! – diz-me. Tinha acabado de lançar uma ideia que me parecia absurda. - Tu não percebes? É perfeito meu amor! Eles têm quatro filhos! Eles se quiserem deitam-se e têm outro passado menos de um ano! E nós? Temos de aceitar esta merda de VIDA, envelhecer sem ter alguém de quem tomar conta? – As ideias começaram a bailar na minha cabeça, mas rapidamente pararam, e começaram a assentar realmente, começando a perceber que realmente até fazia sentido, e o que o meu marido dizia não estava tão errado assim. Era simples, fácil, e acima de tudo, era justo.

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- Querida… – diz-me ele um dia, estava eu sentada a tomar um chá, enquanto fazia festas na minha barriga de borracha. – Já nasceu! – senti-me tonta. Tive de me segurar para não cair. Já não tinha tal injecção de adrenalina há muito, muito tempo.

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- E agora?

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- Agora esperamos. Terça-Feira entro! – diz-me, com uma convicção tão forte que quase estranhei. Terça seria passado 4 dias. Escusado será dizer que esses 4 dias passaram como se fossem 4 anos. Estranho foi que, nesses 4 dias, fizemos amor mais de 10 vezes. A excitação do que íamos fazer, do que íamos ter, misturava-se com a excitação que o outro nos proporcionava, e vivíamos um para o outro, imersos em cada um. Aproximava-se o dia.

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Terça-Feira.

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- Tu ficas aqui! Vai correr tudo bem.

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XY

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Vai correr tudo bem, tenho a certeza. Só pode correr bem. São 4 da manhã, estou na rua desde as 2. Mando-lhe um toque para o telemóvel, avisando que estava tudo bem e ia avançar. Chego à casa, dou a volta e aproximo-me da porta das traseiras. Sem fazer nenhum barulho, consigo dar a volta àquela fechadura do século passado. Sabia que não tinham nenhum alarme. Passo pela cozinha, estou no hall, vejo as escadas e alegro-me ao ouvir o sonoro roncar do marido. Subo, viro à direita, vejo a porta do quarto. Escrito na porta está “Inês e Beatriz”. Agora o mais difícil e arriscado, entrar sem a mais velha perceber, e sem fazer o bebé chorar. Estou nervoso, muito nervoso. Respiro fundo, rodo a maçaneta. Vejo o berço. Aproximo-me e, com todo o cuidado, pego na menina. Tenho-a no meu colo. Rodo e caminho em direcção à porta. A bebé abre os olhos. Peço a Deus para que não comece a chorar. Ao invés, olha para mim. Os seus olhos miram profundamente os meus, na minha loucura imagino que me chama pai com aquele olhar, e solto uma lágrima. Continuo-o a caminhar, estou no hall, olho a criança. Levanto os olhos, surpresa. Vejo a mãe da bebé, mesmo à minha frente, olha para mim, não diz nada.

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- Que fazes aqui? Não era isso que tínhamos combinado! – digo, num sussurro quase inaudível. Ela aproxima-se.

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- Desculpa, mas desde que me mandaste o toque para te abrir a porta não consegui mais dormir. Queria despedir-me de ti pela última vez. – as lágrimas escorrem pela sua cara. Compreendo-a, mas quero ir embora o mais rápido possível. Adriana tinha sido a minha primeira namorada, nos tempos de universidade. Quis o destino que seguíssemos caminhos diferentes. A minha paixão morreu, e encontrei Isabel, a quem amo profundamente. Todavia, sabia que para Adriana, eu tinha sido o seu verdadeiro amor. Então, num gesto inumano, pedi-lhe, certa vez, o que não se pede a ninguém. Manipulei o seu amor, fiz com ela mais uma vez amor, e pedi-lhe, aí sim, o que não se pede a ninguém. Como me recordo. Deitada na cama, as lágrimas a molharem o lençol, disse que sim com a cabeça. Aproximo-me. Adriana aproxima os seus lábios dos meus, e dá-me o nosso último beijo. A criança, no meu colo consegue ver, pela primeira e última vez, os seus verdadeiros pais beijarem-se.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Um Título Qualquer - Onze

Where Eagles Have Been - Wolfmother

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A noite é a mesma, sem tirar nem por. O ambiente, todavia, é diferente. Casado, e com um filho. Antes do casamento, muitos anos de namoro. E nunca nada assim se tinha passado. Penso na imagem que tinha de mim e comparo-a com a que tenho. Como será possível as certezas que temos serem tão frágeis. Haverá realmente certezas?... foda-se…

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Tenho mais de meia hora de caminho pela frente, mas vou a pé. Visto o casaco, enterro o chapéu na cabeça, acendo um cigarro. Caminho lentamente, para poder fruir mais cada passa que dou do meu companheiro. Imagino Godelieve na cama, a dormir, ou a vestir-se, ou a fazer o que quer que seja, imagino-a apenas. No futuro reside uma incerteza. Quero deixar-lhe uma mensagem no Vrijheid, mas a outra parte de mim diz-me que foi bom, e o melhor será parar enquanto nada mais se passa. Tento pensar na minha mulher, para tentar amenizar um pouco o que sinto, para desviar as minhas atenções de onde têm de ser desviadas, mas o pior é que é-me impossível. Sei que amo a minha mulher, e por isso mesmo sinto-me um cabrão em querer pensar nela, e em tudo o que me salta à cabeça ser a imagem indelével de Godelieve… sentada no meu colo, deitada em cima de mim, a fumar, a beber… seja de que maneira for, a imagem é demasiado perfeita e pesada demais para conseguir suportar. Como se a única maneira que tivesse de me libertar fosse esgotar duma vez apenas todos os pensamentos estúpidos que tenho. Pena que seja como um vírus… quando mais penso…

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Chego a casa.

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- Então!? Fartei-me de te ligar! Não apareces para jantar, não dizes nada, não atendes o telefone! – Vejo-a gritar para mim, numa senda interminável. Que selecção de imagem… Não a ouço, não digo nada. Selecciono, sem o querer, todos os maus estímulos, e mais uma vez sem o querer, estabeleço a estúpida comparação do que tive há menos de uma hora, e do que me espera agora, alguém de pijama, cabelo apanhado sem estilo algum, a gritar-me, a trazer ao de cima todas as responsabilidades e deveres que tenho e por momentos esqueci. Claro que ela estava assim porque ia dormir, e claro que estava a gritar comigo com razão, mas a minha própria racionalidade continuava posta de lado, e numa atitude estúpida e arrogante, nem me desculpo, simplesmente digo que “Não planeei bem o tempo…” e vou para a varanda fumar um cigarro. Este não sou eu. O “eu” normal, que eu conheço e sempre existiu, arrisco dizer, o “eu pré-Godelieve”, ainda que cometendo o erro que cometeu, desceria a si e pediria mil perdões pelo atraso, inventando uma qualquer desculpa plausível. Incrível como sei o que posso e devo fazer, e mais incrível ainda, a maneira como não o quero fazer.

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Ela vai dormir. Eu tomo um whiskey, e adormeço na sala.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Feitos Omnipotentes Geram Ovações (De Quem?)

Foda-se! Nem uma sesta de meia hora se pode tirar! Este Agosto está dos piores que me recordo… Levanto-me mal me chamam, o reboliço do costume. Os colegas que tomavam café saem a correr também para preparar tudo. Em menos de 10 minutos estamos no carro.

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- Foda-se pá, será que é do mesmo cabrão? – pergunta-me o Pereira.

- De certeza! 5 incêndios em 3 semanas, achas que é coincidência?... – respondo. Vamos sentados no banco da frente, entre solavancos vamos falando da VIDA que temos tido nos últimos tempos… sempre daqui para ali, sempre com trabalho, e sempre aquela sensação inglória. Acaba um, mas é só um. De certeza que é tudo merda dum gajo que tem um prazer mórbido qualquer em destruir. Nunca me tinha acontecido sentir o que tenho vindo a sentir. Quando conseguimos apagar na totalidade um incêndio, coisa que tantas vezes se mostra impossível, em vez de me sentir com dever cumprido, estou já a pensar em quando começará o próximo.

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- Olha pá – diz-me o Pereira – Sempre vens Sábado? – Está a falar-me do baptizado do seu segundo filho.

- Claro que sim! Agora vê lá se desta vez esperas mais que um ano para ter outro! É que isto de dar prendas de baptizado uma vez por ano não fica barato! – brinco. O Pereira tinha tido o segundo rebento, e o primeiro tinha ainda um ano.

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Quando chegamos, o cenário não é agradável. Os acessos são difíceis, e temos de agir rapidamente para que não alastre para as casas, que se encontram a 2 quilómetros. Mais uma das alturas em que nos sentimos quase inúteis. Milhares de litros de água, 1 helicóptero, e o fogo parece que se alastra duma maneira demoníaca. As horas passam e estou com o Pereira a tentar matar uma das frentes. O cansaço é evidente e o calor quase insuportável. Vemos alguns populares ao fundo a ver, a chorar com medo, outros a tentar ajudar de todas as maneiras que podem. Aconteceu tudo muito rápido. Num momento vem uma rajada de Vento que faz com que o fogo mude subitamente de direcção. Estou um pouco à frente do grupo, e o Pereira uns 10 metros à minha frente. Deixo de ver o grupo, e deixo de ver o Pereira. Estou rodeado de fogo, o calor, que já de Agosto não é agradável, torna-se insuportável. “Estou fodido!” – é a única coisa em que posso pensar. Ouço o grupo a chamar-me e a pedir-me para correr, fugir. Não tenho por onde. O fogo ganha terreno e sinto o calor queimar-me a pele. Apesar de ter uma profissão arriscada, nunca pensei morrer assim… Mas… penso que tenho de tentar sair, dê por onde der. Deixo de ouvir os gritos dos colegas, que me chamam para tentar ajudar, ouço apenas as labaredas fortes e massacrantes. Instintivamente molho-me todo, largo a mangueira e saio a correr. Ao fundo vejo uma saída que me parece estar quase descoberta. Vou a correr, mas rapidamente o fogo a consome. “Não vou morrer assim” – continuo a correr, e furo essa saída. Não faço a mínima ideia onde estou, mas tento recordar-me da minha posição anterior e dirigir-me para perto da equipa. Vou correndo, e, miraculosamente, consigo alcançar a mesma sem ter de furar mais chamas. O meu coração bate desenfreadamente, e o meu susto é tanto que não consigo sentir sequer o alívio de estar a salvo. O Pereira está ao fundo.

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- Foda-se pá, ia sendo desta!

- O Pereira?? – pergunta-me o chefe. Estava de costas. Acho que a minha ânsia de encontrar o Pereira era tanta que me iludi completamente. Procuro o Pereira entre o resto do grupo. A cara de toda a gente é de interrogação, a minha suponho ser de desespero.

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Conseguimos extinguir o fogo no dia seguinte. Encontramos o Pereira passado umas horas, prostrado no chão, carbonizado. Estou em pé, ao lado do seu corpo, uma lágrima escorre-me de cada olho. Penso no porquê disto tudo. No porquê de alguém ter de morrer tentando fazer o bem, salvar o próximo. E penso especialmente no porquê de alguém gerar, propositadamente este tipo de situações. Famílias que perdem as casas, tudo o que têm, pessoas que perdem as suas VIDAS… a troco de quê? A troco de quê? Penso, penso, e não consigo encontrar uma explicação racional para esta maldade genuína que habita algumas pessoas.

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O funeral, apesar de digno, assemelha-se ao extinguir dum incêndio destes. O Pereira, com uma mulher e dois filhos pequenos, perdeu a VIDA, e na semana seguinte, tudo estaria igual. Os rituais não mudam, a maldade de tanta gente não muda, o que será que realmente muda neste mundo?...

sábado, 8 de dezembro de 2007

Feitos Omnipotentes Geram Ovações

Nunca pensei ser assim tão importante. Em determinadas alturas do ano, quase não se fala em nada a não ser nos meus feitos, no que já alcancei. Ele é telejornais, rádio, jornais, não se fala doutra coisa.

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Ainda me lembro de como tudo começou. Foi por acaso. Não tinha nenhuma intenção em particular, mas as coisas proporcionaram-se, e quando dei por ela, eu era a razão pela qual milhares de pessoas se movimentavam. Toda a gente me procurava, queriam-me, mas eu, modesto como sou, sempre preferi ficar na sombra, para quê vangloriar-me? Se o fizesse, nada mais seria o mesmo! As coisas perderiam o seu encanto, a sua especialidade.

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Sei que há quem diga que sou doido. Isto é, há quem diga que o fulano X é doido, mal sabem que sou. Especialmente porque até me movimento com eles, em busca de mim próprio. Se soubessem que a pessoa que caminha ali ao lado, orientado com o suposto mesmo princípio que eles, tenho a certeza que os queixos de toda a gente batiam no chão!

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Às vezes estou em casa, sentado na minha janela, e penso nos meus feitos. Sou importante em Portugal, sou uma razão para as pessoas não estarem sempre a pensar na miséria de VIDAS que têm, arranco-as da estúpida monotonia em que se tornou a existência de cada alma, em particular desta pobre e insignificante vila.

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Nem sempre corre tudo bem. Por vezes há uns palermas quaisquer que topam as coisas a tempo e mandam logo tudo… por água abaixo. Não percebo… quer dizer, até percebo, é o papel deles, o papel que eu lhes atribuo. Sim, porque o grandioso do que faço é que posso tornar qualquer um num herói. Isto parece delirante, eu sei, e às vezes penso nisso, mas não é… vejo-me como uma espécie de enviado, até de mártir, que se sacrifica, fazendo coisas grandiosas, para que outros possam brilhar, não na sombra como eu, mas nos ombros de toda a gente. Quem sabe um dia me mostro, me explico, e aí sim, será o meu dia de glória. Sei que lhes vai custar a perceber, mas assim que perceberem vão perceber o meu sentido, o meu papel neste mundo sedento de algo de que falar.

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Tenho um plano para hoje. Desta vez vai ser em grande. Escolho um local recôndito. Com tudo preparado, basta uma pequena chama, e ver a minha criação acontecer.

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Agora é só esperar.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Por Pouco Pecado - Parte 10!

Warm Sound – Zero 7

When It Falls – Zero 7

The Space Between – Zero 7

Look Up – Zero 7

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Desta feita deixei-a entrar primeiro. Vejo-a, do lado de fora, caminhando ao longo do estreito corredor do quarto. Olha à sua direita, deixa o casaco deslizar pelos seus braços, e lança-o para a cama. Separam-nos uns 5 metros. Os segundos que demoro a entrar, sinto-os como decisivos. Se quando nos encontrámos no Vrijheid, ou quando fomos jantar, tínhamos alguns destinos à disposição, fomo-nos libertando da maior parte, sendo que agora tudo estava reduzido a uma certeza. Bem, uma quase certeza, o que quer que isso seja, já que com quem estava, aprendera que certezas…
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O quarto do hotel é agradável. Sinto-me quase como parte dum roteiro temático de Nieuwe Adelaars, pois desde o Vrijheid até ao hotel, passando pelo restaurante, o estilo vai sendo o mesmo. Tiro o meu casaco, e lanço para cima do seu. Olho para ela. Está sentada numa cadeira em frente a uma enorme varanda que nos mostra a cidade, na mão um copo com alguma bebida que tirara do mini-bar. Trocamos um olhar, olhámos os casacos, e trocamos um novo olhar, desta vez acompanhado de um sorriso mordaz. “Que comparação estúpida”, penso. O quarto tem apenas uma cama, e do seu lado esquerdo vejo uma aparelhagem e uma coluna com cerca de uma centena de cd’s. Copiados. Encontro When it Falls, Zero 7. Deixo a tocar, e começa a viajar pelo quarto Warm Sound, a primeira faixa. Ambiente perfeito.
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Abro o mini-bar, tiro uma pequena garrafa de Martini Roso. Arrasto para o seu lado uma cadeira. Acendo um cigarro. Com o olhar pregado nas luzes tremeluzentes da cidade, sem olhar para mim, estende o braço direito, pedindo um. Acendo o meu, dou duas passas, e passo-lho. Tiro outro para mim.
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- A cidade é fantástica, não é? – pergunta-me. Levanto-me da cadeira, fecho as cortinas e volto-me a sentar.
- Sem dúvida.
– ela sorri. Dá uma passa do cigarro, levanta-se, vira-se, e senta-se em cima de mim, suas pernas ao meu redor. Deixa escapar o fumo para o lado. Apago o cigarro na beira da cadeira e deixo-o cair ao chão. Preciso das mãos desesperadamente. A imagem que tenho perante mim é avassaladora. Sinto suas pernas com ambas as mãos, subo seu fino e delicado tronco. Sinto, com os polegares, ao de leve, os seus seios. As mãos continuam a subir e sinto sua nuca, que massajo. Ela deixa a cabeça cair para trás e arrepia-se um pouco. Levanta o seu braço, faz o seu cigarro chegar aos meus lábios. Baixa a cabeça, olha-me bem fundo nos olhos.
- Tu vais ser o meu Theodoor! – diz-me. Agora são os seus dedos na minha nuca, que me puxam para os seus lábios. Damos um longo beijo. Penso. Consigo separar as nossas bocas.
- Tu vais ser a minha Godelieve – respondo. Não sei porque pensei nesse nome, mas agora tenho como a chamar no meu pensamento. Levanto-me. Ela não saí do meu colo, permanece, abraçada a mim, as pernas como fortes âncoras, os braços à volta do meu pescoço. Reparo que, se fui desleixado, ela muito mais, pois nem se dá ao trabalho de apagar o cigarro, antes de o mandar para a alcatifa beije, que agora terá uma recordação nossa. Estou de frente para a cama. Deixo-a cair, quase violentamente na mesma. Vejo, no ar, os seus cabelos em desalinho, que caem sob a sua cara, tapando-a quase completamente. Vejo apenas uns lábios, que me chamam. Tiro a minha camisa, ficando de tronco nu. Toca When it Falls, a música. Acalma-me duma maneira que não consigo descrever. Ela, ao ver que me libertara da minha camisa, faz o mesmo. Tirando sua blusa. Vejo um soutien, que desaparece no momento seguinte. O que tenho perante mim é a imagem que tantas vezes na minha mente vagueou, desta vez tornada realidade. Os seios não são grandes, mas apetecíveis. Caem em perfeição com todo aquele corpo e rosto maravilhoso. Deito-me ao seu lado. Os beijos saltitam entre a língua, seus mamilos, pescoço. Num instante estamos nus. Ela faz-me rodar, fica em cima de mim. O seu longo cabelo toca na minha face. As minhas mãos passeiam nas suas costas. Sinto com prazer as linhas perfeitas que desenham o seu tronco. Estou calmo, muito calmo, apesar do meu coração bater descompassado com o meu estado de espírito. Tudo é perfeito, e nada mais existe nesse momento, o mundo sou eu… e Godelieve. Dança um pouco em cima de mim, solta uns gemidos baixinho, à medida em que nos tocamos. A sua mão direita desliza pelo meu tronco abaixo, acaricia-me um pouco e, com um jeitinho, somos um, perfeitamente. Sinto o quente que me transmite, a paz que me dá. Toca The Space Between, e ela mexe-se devagarinho, baixando-se de seguida para me beijar.
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Hoje, passado o que passou, continuo-o sem saber quando começou… naquela festa, em que a vi. Quando lhe dei o primeiro cigarro, e abraçou as minhas mãos… quando demos, no táxi, o primeiro beijo… ou quando, neste hotel, o nosso hotel, nos excedemos pela primeira vez.
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Começa a tocar Look Up. Impossível não acompanhar o ritmo. Decido tomar controlo. Faço-nos rodar, e agora sou eu quem… dança. Vou entrando e saindo em si, ao longo de vários minutos, beijos são dados, ferradelas, sorrisos, mentiras ditas ao ouvido, daquelas mentiras que ambos sabemos que o são, mas que têm de ser ditas.

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Quando o cansaço toma conta de nós, e quando ambos já subimos repentinamente, para lentamente descer, paramos. O cd deu a volta, e a primeira música apresenta-se outra vez.
Rodo a cabeça, vejo as horas no relógio da aparelhagem e não acredito ser tão tarde. Chamo o meu pulso, cujo relógio confirma a assustadora verdade.
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- Tenho de ir.

- E agora?... – pergunta-me. Está deitada de barriga para cima, ao meu lado, o lençol tapa-a, a cabeça repousa no travesseiro. Vou para lhe dar o meu número de telefone, quando, com o dedo indicador frente aos lábios, me faz calar. – Quero voltar a ver-te. E sei que ti queres voltar a ver-me. A única maneira que temos de o fazer com perfeição é se não soubermos nada um do outro. Quando quisermos falar um com o outro deixamos uma mensagem no Vrijheid. – de início não percebo o que quer dizer, mas pensando um pouco recordo-me do quadro que tem no bar. Um quadro grande, onde pessoas de todos os tipos deixam mensagens, seja a criticar o governo, a dizer o quanto gostam do bar, ou para comunicar com alguém com quem não têm coragem de falar. Enfim, há de tudo…

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Vou-me vestindo, e pensando no que disse. Não encontro grande sentido em não trocarmos o número, mas não me importo de alinhar.

- E tu? – pergunto, preparado para sair.

- Podes ir, não te preocupes comigo.

Pego no casaco, debruço-me na cama, damos um beijo, e saio. A pior parte agora… chegar a casa e enfrentar-me no espelho…

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Não Posso Mudar

Boa Sorte - Vanessa da Mata e Ben Harper

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A música toca num rádio qualquer. Não podia estar mais em consonância com o meu interior. “Acabou… boa sorte!” – nem tenho tanta a certeza acerca de desejar boa sorte. Mas que acabou, isso podes ter a certeza. Vou ao quarto de banho, lavo a cara, olho para o espelho. “There are so many special people in the world…” – e eu tenho de ficar contigo? Olho melhor. A nódoa negra no sobrolho está a desaparecer lentamente. As pisaduras que me dás são recordações que passam. Por isso mesmo, por passarem, tento fazer com que passem também dentro de mim. Quando vens e me pedes desculpa, o mundo muda. Não consigo negar perante o teu olhar de homem arrependido. O mundo muda, mas… contrariamente ao que penso, ao que quero pensar, as pisaduras que tenho dentro de mim não passam, essas são perenes, e massacram-me o dia-a-dia. Ser a mulher perfeita, fazer tudo perfeito, não falhar, sorrir, ser inteligente, sociável, não beber… nada! Tudo em busca de uma perfeição que sei não existir. Sei… porque mo lembras. Quando chegas a casa nos Sábados à noite, 4, 5, 6 da manhã, encontras-me a dormir, queres-me, eu não quero, estou a dormir… Tive de afastar um pouco a mesinha de cabeceira, fruto das quantas vezes que já lhe dei com a cabeça quando me empurras da cama, pleno em raiva perante a minha recusa.

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Estás no trabalho. É a altura ideal para sair, não encontro o teu olhar que pede perdão e que, não sei porquê, faz-me sempre voltar atrás. A música já não toca, mas fui ao computador e deixei-a a tocar vezes sem conta. Sorrio com ironia quando a Vanessa diz que tudo o que me queres dar é demais, é pesado… não dá mais. Espalho na cama as minhas roupas, coloca-as, uma por uma, na minha mala. Tento não pensar em nada. As lágrimas querem sair, a coragem quer desabar, mas não posso fraquejar. Faço a mala.

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Não me dou ao trabalho de desligar o computador. Vou à cozinha, escrevo um bilhete. “Desculpa, mas desta vez não há desculpa possível” – arregaço um pouco as mangas da camisola ao escrever, e paro meu olhar nas nódoas negras dos meus braços, que me recordam mais uma vez que sair é a única coisa que posso fazer. Sinto-me tonta, preciso de me sentar. Tiro um copo de água, que bebo lentamente, sentada com a mala aos meus joelhos. Ganho coragem. Posso voltar a trabalhar sem problemas, posso não posso? Não sou velha como ele diz sempre… pois não? Não!

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Levanto-me. Cada passo é marcado e sentido, sinto-me como os que fazem a última caminhada, em direcção à cadeira eléctrica. É isso que quero, matar esta VIDA, para começar outra de novo, completamente de novo. Nem preciso de encontrar esse alguém especial que há reservado para mim, pelo menos para já.

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Abro a porta. Quedo-me à saída. Passam dois vizinhos, que me cumprimentam e olham de soslaio para a mala que aguento na minha mão direita, e estranham a minha posição estática, frente a um futuro diferente. Não vejo os teus olhos, mas sinto-os em mim. Não te vejo à minha frente, mas sinto as tuas correntes. Mais uma vez não, por favor. Quero dar o passo, quero sair… mas não consigo. Choro compulsivamente, fecho a porta, sento-me no chão. Estou sentada com os joelhos dobrados, abraço as pernas. Vou para onde, vou para quem? Não tenho nada nem ninguém além desta prisão de portas abertas. A única forma que me permite sair é fazê-lo sabendo que voltarei. Não consigo. Não consigo nada.

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Não é a primeira vez que faço isto…

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Levanto-me, desfaço a mala, desligo a música. Rasgo o bilhete, começo a fazer o jantar.

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Chegas passado uma hora.

- Olá meu querido!